Velha-Nova República
- Harpia Network
- Aug 7
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2026: A Última Dança

Introdução
Estamos a dois meses do primeiro turno das eleições gerais de 2026, e já se pode considerar que o quadro geral de candidaturas e de organização do eleitorado está se consolidando. Até o dia do pleito, serão as margens, e não mais as tendências, que determinarão o resultado da disputa. No entanto, algo mais profundo pode ser mensurado a partir desta eleição. Estamos diante da última eleição geral na história do Brasil em que teremos Luís Inácio Lula da Silva como candidato e líder.
Desde 1989, o Brasil vive eleição após eleição com Lula e o Partido dos Trabalhadores entre os principais concorrentes para o Planalto. Lula e o PT tornaram-se um dos centros gravitacionais da política presidencial brasileira, sobretudo desde a eleição de 2002, quando Lula sagrou-se eleito pela primeira vez. Isso significa que são aproximadamente 37 anos de história da Nova República organizados, em boa medida, em torno de sua presença política. Em 2026, este ciclo entra em sua etapa final. Quais são as consequências disso e o que o cenário político brasileiro prepara para o futuro a partir de 2030 são algumas das questões que procuraremos responder aqui.
Parte I
O que esta eleição é e o que não é
É muito fácil, e até mesmo simplista, dizer que esta eleição é uma polarização binária entre lulismo e bolsonarismo. E, ainda que esta observação esteja parcialmente correta, ela está bem longe de contar toda a história. O grande referendo entre lulismo e bolsonarismo foi, na verdade, em 2022. Naquele pleito, tínhamos o Presidente Bolsonaro disputando a reeleição (com a máquina do Estado a seu favor), contra o ex-presidente Lula, que vinha de uma recente prisão.
A vitória de Lula sobre Bolsonaro sedimentou, de forma bastante cristalina, a posição dele na história do Brasil. Ele é, de forma contundente, o maior líder político da história do país desde Getúlio Vargas (e superando este em muitos aspectos). O que digo não é necessariamente um elogio puro à figura, mas sim uma constatação politológica de um fato político. Lula demonstrou o que décadas de militância político-partidária e ideológica são capazes de fazer quando se unem ao carisma pessoal e a uma biografia um tanto próxima da realidade do Brasil profundo.
Repetir este feito (e esta combinação de fatores) será algo que, na história do Brasil, talvez nunca mais se repita. Ou, se vier a se repetir, será em referência a Lula. Por exemplo, se até antes dele falávamos em “novo Vargas” ou “novo Jango”, agora teremos o “Será este o novo Lula?”. Isso significa que o lulismo (como expliquei no texto ‘O Bolsonarismo e o Lulismo’) é maior do que o petismo. Transcende o trabalhismo e o socialismo e representa, do ponto de vista das políticas de Estado e do perfil político, um totem cultural.
Tendencialmente, como demonstram as pesquisas e o tracking eleitoral que lancei em julho de 2026 (Harpia Tracking 2026), Lula é o favorito a vencer esta eleição e conquistar seu último grande feito histórico: tornar-se o primeiro presidente em democracia a governar por 16 anos e quatro mandatos. Em 2030, Lula terá cerca de 85 anos de idade e deverá se aposentar da política partidária, ainda que se mantenha uma voz cultural e mediática relevante (inclusive como cabo eleitoral de candidatos do PT e aliados). No entanto, apesar disso, é importante salientar (como destaquei no texto ‘2026: de quem será a faixa?’) que a crise sucessória lulista é um real entrave para o futuro eleitoral do PT em nível nacional.
Portanto, se 2026 representa para Lula a sua última dança e para o PT o começo de uma crise sucessória, para a ala bolsonarista representa algo completamente diferente. Com a condenação e prisão de Jair Bolsonaro, 2026 tornou-se, para o bolsonarismo alojado no PL e em alguns outros partidos de direita (como Republicanos), uma tentativa de movimentar a base militante e garantir uma considerável bancada no Congresso Nacional a partir de 2027. Além disso, há também a tentativa de eleger governadores ou grandes bancadas em Assembleias Estaduais. Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair, representa este projeto eleitoral, e não tanto um projeto concreto de vitória ou de governo.
A candidatura de Flávio é bastante inexpressiva do ponto de vista ideológico ou até mesmo sociocultural. É o spin-off de 2018 e de 2022, mas com um episódio final pouco gracioso para os Bolsonaros. Existe uma real fadiga de parte considerável do eleitorado brasileiro para com o bolsonarismo, algo perceptível nas pesquisas de rejeição e na procura por alternativas dentro da própria direita. Isso não significa o desaparecimento de sua base: a ala bolsonarista raiz mantém-se fiel, embora hoje de maneira mais fragmentada e, muitas vezes, crítica.
Flávio está envolvido em escândalos de corrupção e seu pouco (ou nenhum) carisma, aliado à sua incompetência política, torna-o um candidato fácil contra Lula e terrível para o futuro do bolsonarismo. Não há, na família Bolsonaro, nenhum outro nome que possa vir a substituir Flávio com capacidade eleitoral confirmada. E entre os aliados de Jair Bolsonaro, apenas Tarcísio de Freitas (governador de São Paulo) ainda poderia representar um sucessor à altura. Mesmo assim, não seria mais o “bolsonarismo raiz”.
Dito isso, essa eleição é também a última dança do bolsonarismo enquanto movimento político-cultural real. Isso não quer dizer que, até 2030, os bolsonaristas deixarão de existir ou abandonarão seu apego à figura de Jair Bolsonaro e ao seu governo errático. Mas reforça a tendência de que o bolsonarismo se dissipe entre outras lideranças nos próximos quatro anos, deixando o ambiente da direita bolsonarista aberto para o surgimento de uma candidatura competitiva em 2030.
Assim, o pleito de 2026 não é mais um referendo entre lulismo e bolsonarismo. É a última dança de duas forças políticas antagônicas e personalistas, e esse encerramento tende a redesenhar a estrutura político-partidária do Brasil para as próximas décadas. Quando falo em “fim da Nova República”, não me refiro ao fim da ordem constitucional inaugurada em 1988, mas ao encerramento de sua primeira grande geração político-eleitoral. A Nova República permanece, mas o seu primeiro ciclo envelhece. E um novo ciclo começa a se desenhar na história do Brasil.
Parte II
O que vem a seguir e quem herda os espólios?
Este novo ciclo político-eleitoral que se inicia a partir de 2030 (mas que será germinado entre 2027 e 2030, com destaque para as eleições municipais de 2028) já possui estruturas muito claras neste momento. Entre 2022 e 2026, o Estado e a política brasileira viveram em constante tensão polarizante e institucional. Um Executivo fraco, um Congresso hostil ao governo e ao Judiciário e um STF político e atuante. Foi um período de silenciosas mudanças e muito ruído superficial.
Entre estas silenciosas mudanças está aquilo que se tornou evidente nas municipais de 2024 (e que eu destaco nos textos ‘Triunvirato da Balbúrdia I’ e ‘II’). Isto é, o crescimento do centrão (representado por PSD, União, PP, MDB, Solidariedade, Cidadania, Podemos e PSDB), a consolidação político-partidária do bolsonarismo como força eleitoral (com o PL, Republicanos e alas do PP) e a sobrevivência da esquerda lulopetista (com o PT, PSOL, PSB e PDT). Este quadro sugere que o centrão é a força institucional mais poderosa do país e, na prática, domina o futuro da República.
Sugere também que o bolsonarismo (ou a direita bolsonarista, se quisermos ser mais precisos) é uma força eleitoral considerável (o que justifica a candidatura de Flávio em 2026), mas também muito dependente das alianças locais. Ela, por si só, não elege prefeitos de capital apenas com a bênção de Jair Bolsonaro. Do mesmo modo, o lulismo continua forte, e o PT conseguiu um melhor resultado em 2024 frente ao pleito municipal de 2020. Contudo, assim como ocorre com o bolsonarismo, o lulismo também depende das alianças regionais e da articulação com o centrão.
Mais do que um simples ‘triunvirato’ que divide as forças políticas do país em três esferas, estamos falando aqui de um centrão ‘fisiológico’ enraizado nas instituições da República e de dois grupos político-ideológicos (bolsonarismo e lulismo) que sempre existiram no Brasil.
Como destaquei no texto “O Bolsonarismo e o Lulismo”, ambas estas forças são representações modernas das clássicas dicotomias ideológicas brasileiras. Desde o Partido Conservador e o Partido Liberal no Império, passando pelo lacerdismo e getulismo, chegando à ARENA e às esquerdas trabalhistas e sindicalistas e desembocando na configuração atual. São estruturas político-ideológicas que transitam entre os centrões e dialogam com as contradições brasileiras. E, sendo elas forças permanentes do pensamento político brasileiro, surge a pergunta: com o fim da liderança lulista e a dissipação do bolsonarismo, quem herdará estas forças?
A resposta para isso está nas lideranças jovens que surgem no cenário político brasileiro e se apresentam como grandes potenciais sucessores deste histórico ideológico. Destaco, hoje, pela esquerda: João Campos (32 anos), Tabata Amaral (32 anos) e Guilherme Boulos (44 anos). E pela direita: Nikolas Ferreira (30 anos), Renan Santos (42 anos) e Ana Campagnolo (35 anos). Neste texto, uso o termo “identitário” em sentido amplo: uma política organizada sobretudo em torno de pertencimentos, valores, símbolos e antagonismos socioculturais, e não apenas das pautas de raça, gênero ou sexualidade.
Cada qual representa uma esfera diferente, mas igualmente relevante, dos espólios do lulismo e do bolsonarismo. Pela esquerda, João Campos representa uma esquerda institucionalizada e enraizada na máquina do Estado, mas com algum carisma político e apelo social. Tabata Amaral representa uma esquerda mais identitária, porém não caricata, capaz de atrair votos de independentes e centristas. Já Guilherme Boulos é o melhor possível sucessor do lulismo raiz, das grandes causas sociais e da esquerda histórica.
À direita, Nikolas Ferreira e Ana Campagnolo representam o bolsonarismo da guerra cultural, do conservadorismo contemporâneo de influência trumpista, que flerta, algumas vezes, com o limiar entre populismo e conspiracionismo. Nikolas, em especial, tem grande arcabouço retórico e capacidade mediática, comprovando um carisma natural e apelo social real. Ana é uma figura feminina conservadora que contrasta com Tabata e com uma esquerda mais identitária. Já Renan Santos representa uma direita que busca se institucionalizar e participar dos ciclos eleitorais de forma consistente, não negando os temas identitários da direita, mas buscando abranger temas ideológicos de longo prazo.
Se eu tivesse de fazer uma aposta hoje sobre qual será a configuração da Nova República, especialmente a partir de 2030, seria assim:
I. PSD como principal partido do Estado brasileiro (junto de União, MDB e boa parte do PP).
II. PL como principal partido de uma direita identitária.
III. Missão como principal partido de uma direita programática.
IV. PSB como principal partido de uma esquerda programática.
V. PSOL como principal partido de uma esquerda identitária.
O Partido dos Trabalhadores, na era pós-Lula, talvez não consiga manter a base eleitoral ampla dos últimos tempos para disputar segundos turnos em pleitos presidenciais. Por isso, vejo o partido atuando mais como um “MDB” da esquerda, quase como um centrão da esquerda, grande articulador de bastidores e talvez forte candidato a lançar vice-presidentes em chapas lideradas pelo PSB. O PT, junto do MDB e do PSDB, tende a permanecer como partido de velhos caciques e a orbitar alianças regionais para sobreviver.
Já o PSD, assim como União e PP, representa o centrão institucionalizado. São estes partidos que, pela direita ou pela esquerda, determinarão muitas vezes quem consegue ser eleito, especialmente em eleições majoritárias (prefeitos, governadores e a Presidência da República).
A esquerda que tem melhores chances de sobreviver como alternativa majoritária e que possui, hoje, melhores quadros é o PSB. A partir de 2030, vejo grande possibilidade de o partido liderar candidaturas presidenciais e disputar de forma constante os maiores cargos da República. Em contrapartida, e aqui está talvez minha aposta mais arriscada, o Missão parece ser o partido mais preparado para representar uma direita capacitada para debater com o PSB os grandes temas nacionais. É cedo afirmar que o Missão será o “PT da direita”, mas, se o partido se institucionalizar e se profissionalizar concretamente, buscando participar do diálogo nacional sem o verniz do populismo e do flerte com o conspiracionismo, poderá alcançar o status de principal partido da direita programática.
NOTA: Destaco o Missão e a liderança de Renan Santos não por conta da candidatura presidencial do mesmo em 2026, mas pelo histórico desde o surgimento do MBL e a criação de um ecossistema político que culminou na formação independente do Missão como partido. Este feito, além do histórico do impeachment de Dilma e da atuação parlamentar de seus membros nos últimos anos, constitui uma séria experiência política e sugere maturidade suficiente para o longo prazo.
Já o PL e o PSOL tendem a herdar os discursos mais identitários da direita e da esquerda, respectivamente. Se o discurso da direita bolsonarista perder espaço no grande público, é possível que o PL também diminua sua força de quadros, o que pode gerar dois futuros para seus mais brilhantes membros. O primeiro é o de nicho. Nikolas Ferreira, por exemplo, poderá manter-se como porta-voz identitário e ser eleito consistentemente para o Congresso Nacional, podendo eventualmente disputar cargos majoritários ao herdar parte considerável do voto bolsonarista raiz. A outra possibilidade é a de amenizar o discurso e buscar o voto mais pragmático e centrista.
Algo semelhante acontece com Boulos e o PSOL. E, no caso deles, é ainda mais grave, pois o apelo lulista não será igualmente distribuído entre Lula, PT e Boulos. O PT, como partido, deve herdar parte do legado lulista, por ter sido o partido histórico de Lula. Boulos deve herdar parte do carisma social e traquejo político de Lula, mas sem o mesmo peso histórico. Isso faz com que Boulos seja obrigado a repensar que tipo de esquerda identitária ele quer ser e de que modo poderá ser pragmático o suficiente para buscar o voto centrista e independente.
Se essa reorganização conseguir se institucionalizar, ela poderá estruturar boa parte das próximas décadas, talvez por 20 ou 30 anos. Não se trata de afirmar que a configuração de 2030 permanecerá intacta até 2058, mas de reconhecer que sistemas partidários e clivagens políticas, uma vez estabilizados, podem atravessar várias eleições. É claro que não podemos prever o futuro com certeza e tampouco garantir que esta configuração será a mesma por tanto tempo, até porque eventos extraordinários, novas lideranças súbitas ou grandes crises podem servir de gatilhos para o surgimento de uma nova configuração. No entanto, ceteris paribus (se tudo se mantiver constante), este é o cenário de longo prazo que considero hoje mais plausível.
Parte III
Conclusão: corsi e ricorsi
Giambattista Vico, pensador italiano do início do século XVIII, formulou em A Ciência Nova a ideia dos corsi e ricorsi, os “cursos e recorrências” da vida das sociedades. A partir de Vico, podemos pensar a história não como uma linha reta nem como um círculo que retorna mecanicamente ao mesmo ponto, mas como uma espiral: padrões e conflitos reaparecem em circunstâncias novas, sem que o passado seja simplesmente reproduzido. Assumindo esta leitura, a de que a “história tem um ritmo”, podemos concluir que a história brasileira não está nem em ponto de ruptura nem em completo estado de estagnação.
A despeito dos discursos mais determinísticos que alguns podem fazer, o Brasil possui uma leitura muito coerente de si mesmo, desde os tempos do Império até hoje. As idiossincrasias brasileiras são claras e constantes. E entre estas idiossincrasias estão os temas mais comuns à esquerda e à direita, assim como um centrão institucionalizado e estrutural na formação do Estado. É assim que o Brasil sobrevive, mesmo quando tudo parece perdido. E é também por isso que algumas mudanças parecem nunca acontecer como deveriam.
O que teremos nos próximos tempos é a reconfiguração de uma história já conhecida, mas com novos personagens, novas nomenclaturas e novas dinâmicas. A visão madura da história não é a de que um salvador da pátria irá “salvar” o Brasil. Até porque o Brasil não precisa ser salvo de ninguém. O povo brasileiro é soberano em todos os sentidos, e sua estrutura de organização possui uma coerência interna muito consistente. O que podemos fazer neste novo ciclo da República é melhorar a qualidade do diálogo nacional. Isso sim, a meu ver, pode trazer resultados melhores.
Pois se os debates do século XX foram dominados pelo modernismo, getulismo, integralismo, lacerdismo, militarismo, trabalhismo e sindicalismo, os do século XXI estão neste momento se atualizando para o identitarismo conservador e progressista, para a economia digital, para a inteligência artificial e para novas tensões geopolíticas que exigem do Brasil um posicionamento no teatro das nações. Os velhos problemas persistem, e as soluções dependerão do resultado final dos diálogos que as novas forças políticas terão daqui para frente.
O ciclo histórico em que Lula se tornou o principal protagonista, e que entra em sua etapa final neste pleito com sua provável vitória, foi também o ciclo no qual o Brasil consolidou sua democracia por meio da Constituição de 1988, estabilizou sua economia com o Plano Real e ampliou avanços sociais significativos através dos programas de assistência social e do SUS. Não se trata de atribuir todos esses processos a Lula, mas de reconhecer que sua trajetória política atravessou e, em grande medida, organizou eleitoralmente esse período.
Mas este Brasil, que herdou todas as discussões do século XX, já chegou ao seu limite, tanto orçamentário quanto social. A segurança pública e o crime organizado, o desemprego estrutural, a corrupção sistêmica, assim como a desigualdade, a pobreza extrema e a injustiça social são temas que perfazem o primeiro quarto do século XXI e continuarão no segundo quarto. Que respostas o Missão, o PSB, o PL, o PT, o PSD e o PSOL poderão dar? De que maneira os demais partidos participarão destas conversas?
Isso, só o tempo dirá. Mas que a República se movimenta e os novos protagonistas da história já estão presentes no palco, é fato. Agora nos resta observar e acompanhar este novo giro da espiral histórica brasileira, que começa a se desenhar ao fim deste pleito.
Obrigado pela leitura,
Sasha van Lammeren
Cientista Político (NOVA de Lisboa / VUB Bruxelas)



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