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A CRISE VENEZUELA X GUIANA - Os erros da diplomacia brasileira e o que ela deveria fazer

Atualizado: 11 de dez. de 2023


Recentemente, com o discurso do ditador Nicolas Maduro de que a região de Essequibo na Guiana deveria ser anexada a Venezuela e com a realização do plebiscito do último dia 03 de Dezembro (cuja maioria da população, segundo o governo, votou pela anexação do território e pelo não-reconhecimento do Tribunal Internacional de Justiça como mediador do conflito), as certezas e incertezas se expandem. E, em meio a este imbróglio, o governo brasileiro se equivoca. Neste texto, faremos uma pequena digressão histórica e, ao final, farei uma análise da postura da diplomacia do governo Lula na questão.



BREVE CONTEXTO HISTÓRICO DA DISPUTA


O reclame venezuelano sobre o território de Essequibo, na Guiana, remonta ao século XIX. A Venezuela tornou-se independente da Espanha em 1811, e em 1821 fez parte da chamada Grã-Colômbia (país formado por Simon Bolívar e que unificava Venezuela, Colômbia, Equador e Panamá). Em 1814, o Reino Unido recebeu da Holanda o território da Guiana Essequibo, depois que o mesmo se rendeu na convenção de Londres do mesmo ano. As fronteiras, contudo, não estavam devidamente alinhadas. Foi ai que em 1840 o governo britânico solicitou ao explorador alemão Robert Hermann Schomburgk a fazer um mapeamento da região e, consequentemente, a sua fronteira.


Mapa da Grã-Colômbia, país formado por Colômbia, Venezuela (e o território de Essequibo), Equador e Panamá

Schomburgk começou o desenho a partir da boca do rio Orinoco, o que incomodou os venezuelanos que reclamavam todo o lado ocidental do rio Essequibo. Em 1850, ambos os estados concordaram em não ocupar a região em disputa. Na mesma altura, com o descobrimento de ouro na Guiana Essequibo, o Reino Unido enviou a British Guiana Mining Company para explorar a região, o que irritou a Venezuela. Em 1887 a Venezuela rompeu relações com o Reino Unido e apelou para a mediação dos EUA (sob a presidência de Grover Cleveland). Os britânicos ignoraram a mediação, até que (devido a Doutrina Monroe), Cleveland ameaçou intervir na região.

 

A partir deste momento foi estabelecido um acordo entre as partes para a mediação da fronteira, dando origem ao Acordo Arbitral de 1897. Neste acordo, ambas da partes se comprometiam a estabelecer um tribunal com juízes de ambos os lados para definir a situação e estabelecer uma fronteira legítima entre as partes. Por dois anos o tribunal julgou a situação e a decisão final (em 1899) foi: 94% do território em disputa deveria pertencer a Guiana Britânica. A Venezuela receberia a boca do rio Orinoco e a parte estreita da costa do Atlântico no oeste. Embora não satisfeita, a Venezuela aceitou este acordo em 1905 e a situação foi tratada como resolvida pela comunidade internacional.

 

A Guiana tornou-se independente em 1966, herdando assim a fronteira estabelecida em 1899. A Venezuela, neste momento, reabriu a discussão sobre a fronteira, exigindo que a Guiana recorresse a ONU para uma nova mediação. No acordo de 1966 reconheceu-se que havia uma disputa entre a Guiana e a Venezuela, embora o mesmo acordo não questionasse a soberania guianense sobre Essequibo. No acordo, a Venezuela ratifica que não reconhece o Laudo Arbitral de 1899. Isso, no entanto, não significa a invalidez do documento de 1899, visto que a Guiana continua a reconhecer o mesmo.

 

O Acordo estipula a formação de uma Comissão Mista de Limites, incumbida de deliberar, em um prazo de 4 anos, sobre a solução para a questão limítrofe. Após esse período, em 1970, Guiana e Venezuela subscreveram o Protocolo de Porto Espanha, congelando, por 12 anos, uma parte do Acordo de Genebra. Contudo, em 1982, a Venezuela optou por não ratificar o Protocolo de Porto Espanha, retornando ao estabelecido em Genebra. Nesse mesmo ano, o caso foi encaminhado ao Secretário-Geral das Nações Unidas, conforme previsto no acordo.

 

Foi estabelecido que o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) trataria da questão, dando um parecer final. No entanto, a Venezuela não reconhece a legitimidade do TIJ para mediar a questão, exigido que haja um acordo apenas entre Venezuela e Guiana bilateralmente. Esta situação se manteve até agora em 2023, quando Nicolas Maduro realizou o referendo na Venezuela questionando se os venezuelanos reconheciam ou não o Tribunal como mediador (e o não aqui venceu), e se concordavam com a anexação da Guiana Essequibo (opção vencedora, segundo o governo).

 

Portanto, para fins didáticos (linha cronológica desenvolvida em parceria com a CNN Brasil):

 

1811 – A Venezuela se torna independente.

 

1814 – O Reino Unido recebe a Guiana Essequibo da Holanda.

 

1821 – É formada a Grã-Colômbia, aonde Essequibo aparece como parte integrante do lado venezuelano.

 

1835 – Numa disputa territorial entre Holanda e Reino Unido, este último sai vencedor da disputa e torna-se o controlador do território Essequibo definitivo.

 

1840 – Como o limite ocidental da Guiana Inglesa não estava definido, o Reino Unido encarregou Robert Shomburgk, explorador alemão, que anos antes havia realizado estudos botânicos na área, de traçar um mapa com os limites entre aquela Guiana Inglesa e seus vizinhos, incluindo a Venezuela. O resultado ainda hoje é conhecido como Linha Shomburgk, que localiza a fronteira da Venezuela na foz do rio Orinoco. Em 1841, a Venezuela reagiu afirmando que lhe foram tirados seus territórios localizados a oeste de Essequibo.

 

1850 – É descoberto ouro em Essequibo e, embora houvesse acordo entre o Reino Unido e Venezuela de ocupação do território, os britânicos decidem explorar o ouro.

 

1887 – Venezuela rompe com o Reino Unido e os EUA entram como mediador.


1899 – O Laudo Arbitral de 1899 decide que 94% do território de Essequibo pertence por direito ao Reino Unido.

 

1905 – A Venezuela reconhece o Laudo Arbitral e as fronteiras estabelecidas.

 

1966 – A Guiana torna-se independente do Reino Unido e a Venezuela reabre a discussão.

 

1966 – É estabelecido no Acordo de Genebra uma Comissão Mista para definir a situação, embora este mesmo acordo nunca tenha questionado a soberania da Guiana sobre Essequibo.

 

1970 – Por iniciativa do Primeiro-ministro de Trinidad e Tobago, Eric Williams, Venezuela, Guiana e Reino Unido aprovaram em 18 de junho o Protocolo de Porto Espanha, que estabeleceu um prazo de 12 anos a partir do Acordo de 1966.

 

1986 – As partes recorreram novamente à ONU para desbloquear a disputa e chegar a acordo sobre a nomeação de um mediador. A partir desse momento foram nomeados três oficiantes. O último deles, Norman Girvan, morreu em 2014 sem ter conseguido soluções para a disputa territorial. Também não houve novos pedidos das partes na ONU para nomear um novo mediador.

 

2015 – A ExxonMobil descobriu petróleo na área reivindicada pela Venezuela.

 

2018 – A Guiana processou a Venezuela perante o Tribunal Internacional de Justiça por essa instância para confirmar a validade da sentença arbitral de Paris de 1899.

 

2020 – Em dezembro, o Tribunal Internacional de Justiça decidiu que tinha jurisdição para julgar o caso, algo que a Venezuela não reconhece.

 

2021 – O governo da Venezuela emitiu uma declaração reafirmando o domínio sobre o Essequibo. A Guiana reagiu a tal declaração considerando-a uma ameaça à sua soberania e integridade territorial.

 

2023 – Em setembro, a Assembleia Nacional da Venezuela convocou seus cidadãos para um referendo sobre Essequibo.

 

2023 – Em outubro, a Guiana solicitou ao Tribunal Internacional de Justiça a suspensão do referendo promovido pela Venezuela.

 

2023 – Em 15 de novembro de 2023, a Venezuela apresentou seus argumentos perante o tribunal internacional sobre a realização do referendo. A vice-presidente Delcy Rodríguez defendeu o direito do seu país de “consultar-se e ouvir-se” e denunciou que a Guiana concedeu concessões de petróleo e gás na área disputada.

 

2023 –– Em 3 de dezembro, a Venezuela realizou um referendo com 5 perguntas. Segundo o governo venezuelano, 95% votaram favoráveis à anexação.


Mapa da atual controvérsia entre Venezuela e Guiana


O PAPEL DA DIPLOMACIA BRASILEIRA

Contextualização e a Questão de Essequibo



Para bem compreender a posição do Brasil e o que a nossa diplomacia deveria fazer, tendo em benefício os nossos interesses e também a paz na região, é míster fazermos um breve histórico da nossa diplomacia. Deste modo, o leitor poderá compreender os principais valores que o Itamaraty defende historicamente e porque eles nos são tão caros.

 

O Brasil tornou-se independente em 1822, através da decisão de D. Pedro I de separar o Brasil de Portugal. Em 1824 estabelecemos uma Constituição e neste período inicial, nossas relações diplomáticas com os demais estados da região também foram sendo estabelecidos. Em Dezembro de 1823, James Monroe, presidente dos EUA, em mensagem ao Congresso norte-americano define o que seria conhecido como ‘Doutrina Monroe’: a América para os americanos.

 

Seu pensamento consistia em três tópicos:

 

1.   A não criação de novas colônias nas Américas;

2.   A não intervenção nos assuntos internos dos países americanos;

3.   A não intervenção dos Estados Unidos em conflitos relacionados aos países europeus como guerras entre estes países e suas colônias.

 

Os EUA foi um dos primeiros países a reconhecer a independência do Brasil, assim como, a reconhecer a independência da Venezuela. Como vimos anteriormente, os norte-americanos também intervieram na questão de Essequibo em 1887. Essa presença ativa da diplomacia americana no continente é importante de ser compreendida, pois ela influencia de muitas formas a nossa diplomacia.

 

Durante o governo de Pedro I (1822-1831), o Brasil teve como maior desafio diplomático a estabilização de suas fronteiras com os novos países vizinhos (na década de 1820 várias ex-colónias espanholas tornaram-se independentes). O maior evento e que marcou a diplomacia no primeiro reinado foi a Guerra da Cisplatina, travada entre Brasil, Argentina e o Reino Unido. Neste conflito, que durou de 1825 a 1828, a Cisplatina tornou-se independente do Brasil, sendo mais tarde conhecido como Uruguai.

 

Ficará muito latente a influência do Reino Unido na região durante o século XIX, sendo ela a maior potência global na altura. Entre os anos de 1862 e 1865 (segundo reinado – Pedro II), o Brasil romperia relações diplomáticas com o Reino Unido naquela que ficou conhecida como ‘Questão Christie’, uma série de incidentes que levaram a uma distensão nas relações de ambos os países (a começar pela questão do tráfico negreiro, quando para evitar de ser subjugado pelo Reino Unido, o Brasil através da Lei Eusébio de Queiroz restringiu o tráfico por si mesmo). O naufrágio do navio Prince of Wales e o incidente do HMS Forte contribuíram para este rompimento.

 

Durante o século XIX, o desafio da diplomacia brasileira era o de se estabelecer como nação soberana e evitar a subjugação de potências estrangeiras (em especial as europeias). As boas relações que a monarquia brasileira possuía com as cortes europeias contribuiu para a soberania do país, como também as boas relações que Pedro II tinha com os norte-americanos. A Guerra da Cisplatina no primeiro reinado, a Questão Christie e a Guerra do Paraguai (1864-1870) no segundo reinado são exemplos de um Brasil altivo, autónomo e soberano. Um Brasil que não aceitava ser subjugado pelo Reino Unido, pelos Estados Unidos ou por quem quer que fosse.


Barão do Rio Branco (patrono da diplomacia brasileira)


No começo da República (1889-1930), a diplomacia brasileira contou com a genialidade do embaixador José Maria da Silva Paranhos Júnior (o Barão do Rio Branco) como o patrono de uma política externa austera, autónoma e profissional. Paranhos contribuiu na consolidação da soberania brasileira, no reconhecimento do Brasil no cenário internacional como um ator de importância regional e global, e ajudou a definir estrategicamente o território brasileiro e seu posicionamento geopolítico de longo prazo. Entre os ganhos que o Brasil teve com o Barão do Rio Branco, estão:





1.      Tratado de Petrópolis (1903): em negociação com a Bolívia, o Barão do Rio Branco negociou a questão do Acre, sedimentando a compra da região pelo Brasil e garantindo acesso do país a borracha, importante commodities na época.

 

2.    O tratado de limites Brasil-Peru (1909): o Barão do Rio Branco também negociou com o Peru as fronteiras brasileiras com aquele país, estabelecendo em definitivo os limites territoriais da região amazónica.

 

3.      Acordos Brasil-Guiana Francesa: o Barão do Rio Branco também negociou com a França (através da Guiana Francesa) um acordo que garantiu acesso do Brasil ao Oceano Atlântico através do rio Oiapoque.

 

Durante o período Vargas (1930-1945) até o Regime Militar (1964-1985), a diplomacia brasileira permaneceu essencialmente autónoma e soberana. Getúlio Vargas tentou manter-se neutro durante a maior parte da Segunda Guerra Mundial – mantendo relações comerciais com todos os lados. Decidiu pela declaração formal de guerra ao Eixo (formado por Alemanha, Itália e Japão) quando submarinos alemães afundaram navios mercantes brasileiros em 1942, no Nordeste. Embora os Estados Unidos tenham feito pressão por muito tempo para o Brasil entrar na guerra ao lado dos Aliados, somente o ato de hostilidade alemão foi o que levou a esta decisão.

 

No Regime Militar, num contexto de Guerra Fria, o Brasil alinhou-se com os Estados Unidos mas sem perder a sua soberania e autonomia. Houveram rusgas entre os militares e os norte-americanos, em especial na questão da energia nuclear. Os EUA era contra o Brasil desenvolver tecnologia que levasse ao enriquecimento de urânio (fator essencial para o desenvolvimento de uma bomba nuclear). Apesar do desacordo, o regime militar seguiu em frente com os planos. Durante o governo Geisel, o Brasil aproximou-se de países africanos, árabes e europeus, na tentativa de alterar o status de alinhamento automático com os EUA. Além disso, é importante salientar que o Brasil manteve relações comerciais com a União Soviética e com a China durante o período.


Palácio do Itamaraty - Brasília

Na redemocratização, a Nova República (1988-atualmente) procurou restabelecer a reputação do Brasil no cenário internacional frente a questão dos direitos humanos e estabeleceu a integração latino-americana como um preceito constitucional (Parágrafo Único do Artigo 4º da CF de 1988). Todos os governos pós-regime militar (a começar por José Sarney) apostaram nos organismos internacionais como fórum de participação ativa da diplomacia brasileira. Em especial a ONU e a Anistia Internacional. Destaca-se aqui dois períodos importantes: os governos FHC (1994-2002) e Lula (2003-2010). Os governos Dilma, Temer e Bolsonaro constituem um período a parte que integra uma mudança no cenário internacional, que podemos discutir mais a frente.

 

No governo FHC, o Mercosul (fundada em 1991), fortaleceu-se. O objetivo da diplomacia em seu governo (liderada pelo embaixador Luiz Felipe Lampreia) era a de fomentar maior integração regional, em especial no contexto comercial e civil. A crítica petista de que FHC promoveu uma política ‘subserviente’ aos EUA é falsa e uma pura propaganda política. Durante seu governo, o Brasil precisou bater de frente com os EUA em fóruns internacionais, em especial quanto a rusgas comerciais. Embora a diplomacia brasileira fosse mais positiva com os EUA (em especial no governo Clinton), isso não significa alinhamento automático.

 

Na era Lula, contudo, a partir de 2003, o Brasil começou a adotar uma postura mais abrangente. Através do chanceler Celso Amorim, o Brasil mudou a sua política de uma postura ‘negociar com todos de maneira igual’, para focar nas negociações Sul-Sul global. Embora não tenhamos nos afastado da Europa e dos EUA, a inclinação da diplomacia de Lula era claramente a de uma aproximação maior com a África, o Oriente Médio e a Ásia. Nesta aproximação, que ficou conhecida como ‘o Brasil sendo o primo rico dos países pobres’, aumentamos investimentos nestas regiões, assim como na América Latina, aonde tentamos promover ainda mais a integração regional.

 

Com o boom das commodities e o crescimento do Brasil, a imagem do país também se projetou internacionalmente, atraindo os benefícios desta projeção e o fortalecimento do soft power brasileiro. Contudo, esta projeção não foi suficiente para solidificar a liderança brasileira na América do Sul. Hugo Chávez (que liderou a Venezuela de 1999 a 2013) representava uma pedra no sapato da diplomacia brasileira na América Latina, que vivia a primeira onda vermelha no continente (quando muitos líderes de esquerda foram eleitos na mesma época). Após o governo Lula e durante o governo Dilma, esta ‘onda vermelha’ deu lugar a um ressurgimento das direitas em muitos países do Cone Sul. Soma-se a isso, mudanças na geopolítica internacional, com o Brexit (2016), a eleição de Donald Trump (2016), uma Rússia mais assertiva (a partir de 2007) e uma China mais expansiva (a partir de 2005). Sem falar, é claro, da pandemia do COVID-19 (2020) e da Guerra na Ucrânia (2022).

 

Chegamos a 2023 com Lula reeleito para o seu terceiro mandato depois de um governo desastroso de Jair Bolsonaro. Naquela que chamamos de ‘onda rosa’ da América Latina, que traz de volta ao poder uma série de líderes da esquerda latino-americana tradicional, há de se fazer uma análise compreensiva do contexto em que nos inseríamos agora. 2023 não é 2003. Num contexto aonde EUA precisa restabelecer sua própria reputação internacional pós-Trump e aonde Rússia e China se apresentam mais agressivas (junto a seus aliados, como o Irã), tentar restabelecer o Sul Global, que Lula e Celso Amorim desenvolveram nos dois primeiros mandatos do petista, é um equivoco. E, neste contexto, surge a crise Venezuela e Guiana.

 

NOTA: Sobre Essequibo em si, é importante salientar que a posição oficial do Brasil é de neutralidade, defendendo a autodeterminação dos povos e o uso dos mecanismos internacionais para a solução pacífica de conflitos (entre eles, o Tribunal Internacional de Justiça e a ONU). Reconhecemos, porém, a territorialidade das nações e temos relações diplomáticas plenas tanto com a Guiana quanto com a Venezuela.

 


A pergunta que surge naturalmente é: o que deveria o Brasil fazer neste contexto? E, estaria o governo Lula agindo corretamente?



Os princípios da diplomacia brasileira e o nosso posicionamento geopolítico


Mapa político da América do Sul

Em geopolítica, há um ditado que diz: ‘geografia é destino’. O posicionamento geográfico das nações imputa a ela oportunidades e desafios naturais que o Estado soberano daquele território terá de lidar. Nisso estão inclusas as relações fronteiriças com demais nações, assim como, os recursos naturais e potencialidades económicas a serem explorados. Na América do Sul, o Brasil é o maior país da região, fazendo fronteira com basicamente todos os estados a exceção de Chile e Equador. O nosso mar é um dos mais extensos do planeta, saindo do Arroio Chuí no sul e se estendendo até o rio Oiapoque.

 

Temos, portanto, um imperativo natural que nos é imposto: a de liderar a América do Sul. Em todos os contextos de contendas sul-americanas, a posição do Brasil importa e é ouvida pelas partes envolvidas. Somos naturalmente mediadores destes conflitos e atores essenciais para a estabilidade política, económica e social da região. Tudo o que ocorre na América do Sul tem, por prerrogativa geográfica, interesse nosso. Ao recordar a breve história da diplomacia brasileira suscitada acima, percebe-se que nosso maior desafio desde a independência foi a de evitar que potências exógenas a região estabelecessem presença militar por aqui. Seja o Reino Unido, os Estados Unidos ou qualquer outro. É precisamente nisso que reside a primeira a maior crítica aos governos recentes do Brasil.

 

Pelo lado da direita, a subserviência do bolsonarismo ao ex-presidente norte-americano Donald Trump e, ao final de seu mandato, ao ditador Vladimir Putin, indica uma postura diplomática contrária a história do Itamaraty. Pelo lado da esquerda, no entanto, não estamos melhores. O governo Lula ao tentar reeditar o Sul Global dos anos 2003-2010, ignorando as contendas geopolíticas internacionais entre EUA, China e Rússia, acaba por beneficiar o projeto russo-chinês no tabuleiro global e desguarnece o Brasil de sua natural liderança regional.

 

O enfraquecimento das nossas Forças Armadas nos últimos anos e a desindustrialização do Brasil nos coloca numa posição mais frágil regionalmente e, consequentemente, na esfera global também. Por termos o maior território da região (e um dos maiores do mundo), por termos o controle da maior parte da floresta Amazónica, por termos um mar extenso e também um espaço aéreo enorme, precisamos também de ter um Exército, uma Marinha e uma Força Aérea capaz de nos defender e de projetar hard power (ou seja, poder bélico). Isso não significa mudar nossa postura e nossos valores diplomáticos, mas sim, fortifica-los. Aqui é importante rememorar quais são estes valores.

 

Historicamente, a diplomacia brasileira sempre se baseou na soberania, na altivez e na independência das nossas relações internacionais. Mas além disso, sempre tivemos como interesse projetar o poder brasileiro como um ator global, não apenas regional. Ao faze-lo, nos igualamos em importância com nações europeias e demais potências estrangeiras. Somos, afinal, uma das 10 maiores economias do mundo (já fomos a sexta maior economia a alguns anos atrás).

 

Em 2009, ao sermos incluídos informalmente no grupo dos BRICS (grupo de países emergentes que lideram a multipolarização internacional), destacou-se algumas diferenças entre nós e os homólogos da sigla. O Brasil não possui a projeção de hard power da Rússia, da Índia e nem da China. Não temos o mesmo peso diplomático que nossos parceiros de ‘bloco’ emergente e nos esquecemos completamente de levar em consideração um projeto geopolítico nacional a sério. Rússia, China e Índia possuem claramente um projeto geopolítico de longo prazo, que inclui suas geografias e principalmente suas projeções económicas. O Brasil, não.

 

O soft power brasileiro (ou seja, o poder cultural, social e económico) eiva-se a partir dos princípios que constituem nossas relações exteriores, no Artigo 4º da Constituição de 1988. São eles:

 

Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:

 

I - independência nacional;

II - prevalência dos direitos humanos;

III - autodeterminação dos povos;

IV - não-intervenção;

V - igualdade entre os Estados;

VI - defesa da paz;

VII - solução pacífica dos conflitos;

VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;

IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;

X - concessão de asilo político.

 

Parágrafo único. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.

 

Repare que no Parágrafo Único está a estratégia de longo prazo da diplomacia brasileira (desde Pedro I até hoje). A de integração latino-americana, de liderança regional no Cone Sul, evitando que potências exógenas (no caso, em especial, os EUA através da Doutrina Monroe), influencia os ditames na nossa região. O Brasil assumiu esta responsabilidade devido a sua geografia e vocação geopolítica. E a ela não devemos e não podemos falhar.

 

Logo, ao responder as questões que nos fazemos neste texto referente ao conflito Venezuela e Guiana, é muito claro qual deveria ser o papel da diplomacia brasileira. O de líder e mediador do conflito. Devemos ser assertivos nas palavras, ao dissuadir Nicolas Maduro de tentar anexar ou agir em favor de uma anexação de maneira unilateral e violenta. Devemos assegurar a soberania e autodeterminação dos povos, ao ratificar que o território de Essequibo pertence a Guiana e que um acordo entre ambas as partes deve ser buscado para a exploração comercial da região (único ponto que realmente não foi definido claramente). Devemos aumentar exponencialmente a presença militar na fronteira e assegurar não apenas a nossa defesa, mas também, a estabilidade regional.

 

Neste sentido, fortalecer a cooperação de defesa do Mercosul é essencial, assim como, desenvolver uma política de integração militar e estratégica entre o Brasil e as nações vizinhas. O Mercosul (e a UNASUL, que se encontra em estado quase morto) está léguas distante de uma integração real, a exemplo da União Europeia ou da União Africana. A questão geopolítica brasileira nos obriga a olhar para as administrações federais e exigir de nossos mandatários uma estratégia de Estado. A briga ideológica entre governos, a polarização, nos impede de ter uma visão estratégica. E isso não apenas atrasa a solução de nossos problemas internos, como também nos impede de exercer a nossa vocação geopolítica. Na ausência do Brasil, outros atores irão ocupar o espaço vago. Em especial os EUA, a China e a Rússia.

 

O governo brasileiro na administração Lula se equivoca ao tentar fomentar uma aliança com potências que não são os nossos iguais. Não somos iguais a EUA, nem a União Europeia, nem a China e nem a Rússia. No melhor dos casos, podemos nos inspirar na Índia. E isso significa reconhecer a nossa estratégia geopolítica, buscar a integração sul-americana e latino-americana, fortalecer os mecanismos de mediação internacional e, finalmente, fomentar o diálogo entre blocos regionais. O acordo Mercosul e União Europeia não sai do papel por culpa nossa, pela falta de integração e pela falta de projeção de poder de nossa parte.

 

Durante o segundo mandato do Presidente Lula, em 2007, o então presidente da França Nicolas Sarkozy parecia um interessado aliado do Brasil. Ele defendia a presença do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e também via o nosso país como um parceiro de igual para igual em termos comerciais. Estávamos, naquele momento, no pico da projeção de soft power do Brasil (que mais tarde levaria o país a sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016). Tudo isso se perdeu nos governos Dilma, Temer e Bolsonaro. E agora que Lula está de volta, é preciso redobrar esforços para reconstruir nossa reputação como líder regional, como ator global e como uma nação emergente de verdade.

 

Não será com um discurso difuso e ideológico que alcançaremos isso. Lula tem de perceber que sua lealdade é primeiro ao Brasil, e depois as franjas identitárias. Ele foi eleito para governar um país que não tem afinidade ideológica com a Venezuela e nem com a China ou a Rússia. Um país comprometido com os direitos humanos desde a redemocratização e com a integração regional. Este é o Brasil que Lula governa. Ou ele entende isso, ou a sua diplomacia será a mais desastrosa de todos os governos petistas.



Obrigado pela leitura!


Sasha van Lammeren

Jornalista e Analista Político

Mestre em Comunicação Política

Doutorando em Ciência Política

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