ALERTA GLOBAL - Os sinais da Terceira Guerra Mundial
- Harpia Network
- 18 de jan. de 2024
- 18 min de leitura
Por Sasha van Lammeren
Recentemente foi divulgado que o governo alemão projetou, dentre diversos cenários, o mais dantesco de todos. Neste cenário, a Rússia aumenta sua ofensiva contra a Ucrânia, vence a guerra e logo a seguir (2025) começa uma série de ciberataques contra países bálticos e da União Europeia, precipitando um conflito entre a OTAN e a Rússia. Outro fato relevante recente são os ataques do Irã contra alvos israelenses no Iraque, alertando para o aumento de tom no Oriente Médio e do patamar do conflito Israel-Hamas, tornando-o mais global.
Diante destes fatos, fica cada vez mais latente a possibilidade dos conflitos globais se exacerbarem a tal ponto que poderá ser dito, cabalmente, de que estamos na temida terceira guerra mundial. Mas, até que ponto isso é realmente possível e até que ponto trata-se de alarde da grande imprensa? É esta pergunta-chave que tentaremos responder neste texto-análise, dividindo o texto em sub perguntas base.
Primeira questão: como guerras mundiais se desenvolvem;
Ao longo da história, a humanidade viveu diversos conflitos que poderiam ser chamados de ‘mundiais’, ainda que não tenham ficado famosos com este nome. As guerras napoleónicas, por exemplo, podem ser considerados um tipo de guerra global visto que o planeta era o teatro de guerra, não apenas a Europa. Foram conflitos que tiveram consequências na África, nas Américas, no Oriente Médio e até na Ásia, para além da Europa. Contudo, ficaram conhecidas como ‘guerras napoleónicas’, apenas.
Outros conflitos de caráter global foram as guerras colonialistas do século XVI ao XIX. Quando as potências europeias guerreavam entre si pela posse de colónias na América, África e Ásia, isso foi um tipo de guerra global também. Neste sentido, podemos nos perguntar, porque apenas a Primeira e Segunda Guerra Mundial ficaram assim conhecidas? O que desencadeou este entendimento pela historiografia mundial?
Historiadores como Sir Michael Howard (1992) e Sir Basil Liddell (1970) esclarecem que, devido a escala da primeira e segunda guerra mundiais, elas poderiam ser consideradas ‘globais’ de fato, pois ambas atingiram todas as potências europeias e também potências de outros continentes (como EUA e Japão). Além disso, em comparação com guerras de larga escala do passado, as guerras mundiais imprimiram mudanças estruturais, quer económicas, políticas, ou socioculturais (Hobsbawm, 1994).
Outro ponto relevante a ser observado, como indica John Keegan (1993), é o esforço nacional de guerra capaz de promover avanços industriais e tecnológicos de larga escala em pouco tempo. Grande parte das tecnologias modernas começaram a surgir na Segunda Guerra Mundial e foram aperfeiçoadas durante a Guerra Fria. Nenhum outro conflito, além da Primeira e Segunda Guerra Mundial, foram capazes de repetir este feito. Por isso, entender como as guerras mundiais se desenvolvem é fundamental.
Segunda questão: o que foram as primeiras duas guerras mundiais?
Barbara Tuchman (1962) ilustra de forma didática como que a falha de comunicação entre as potências levou a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Estávamos em 1914 e o mundo havia entrado no Século XX vendo o Império Britânico atingir o seu auge durante a Era Vitoriana (1837-1901) e o Império alemão (a partir de 1871 na era Bismarck) e Austro-Húngaro (a partir de 1867 com a união das monarquias dos Habsburgo) entrarem no teatro das nações como grandes concorrentes da hegemonia inglesa (ou da Pax Britânica). A Rússia vivia momentos de tensão, com o crescimento do movimento bolchevique e a inépcia do Czar Nicolau II. A França vivia sua acidental República (desde 1870), tendo de lidar com colónias e a concorrência dos impérios em seu entorno.
Uma rede de alianças havia sido estabelecida entre todas estas potências. A Itália, que vivia desde sua unificação em 1861 a sua experiência como nação, ainda precisava assegurar sua integridade territorial e sua expansão. Neste cenário, estabeleceu-se a Tríplice Entende (França, Reino Unido e Rússia) e a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália). No curso da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Itália mudaria de lado em 1915 (esperando com isso ganhar territórios que os aliados da Entende haviam oferecido) e a Rússia sairia da guerra devido a Revolução de 1917. Sobraria, portanto, Reino Unido e França contra Alemanha e Áustria-Hungria.
Tais impérios, com colónias (na África e Ásia) e uma rede de interesses económicos (industriais e bancários) intrincados, não possuíam nenhum fórum internacional na qual pudessem se comunicar diretamente e resolver suas contendas de forma pacífica. A Liga das Nações (antecessora da ONU) só seria criada em 1919, justamente como resultado da Primeira Guerra Mundial. Portanto, o que fez eclodir a primeira grande guerra foi este cenário de potências concentradas num mesmo continente (Europa) e com interesses partilhados em todo o mundo com grandes falhas de comunicação entre si.
Como resultado, a Tríplice Entende venceu o conflito, impondo o fim do Império Austro-húngaro e uma grande perda territorial e política para a Alemanha (Tratado de Versailles, 1919). A Rússia, engolfada na sua revolução, viu a família imperial ser assassinada e os comunistas assumirem o poder. Os EUA, por sua vez, participaram da primeira guerra apenas a partir de 1917, ao lado dos aliados da Entende.
Entre os anos de 1920 a 1939, a configuração do planeta mudaria como efeito da Primeira Guerra Mundial. Nos anos 1920, a primeira década pós-guerra, viu-se uma certa euforia ocasionada pela alavancagem económica das nações. Sem ter de gastar com armas e tropas, as potências envolvidas puderam desenvolver suas economias, criando assim um tempo de otimismo e reconstrução. No entanto, com a Grande Depressão a partir da quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929, viu-se na década de 1930 em todo o mundo um declínio das condições de vida destas mesmas nações.
Ao mesmo tempo que as crises aprofundavam feridas internas e externas, cresceu o número de regimes autoritários. Na Alemanha, Adolf Hitler assume o poder em 1933. Na Itália, Benito Mussolini assume em 1922, mas torna-se comandante supremo em 1938. Na Espanha, emerge o General Franco após a Guerra Civil Espanhola (em 1936). Em Portugal, António de Oliveira Salazar institui o Estado Novo (a partir de 1932) e, na Rússia (como já referido) desde 1922 Stalin era o líder do país. Nas Américas a situação era atípica também. No Brasil, vivíamos a ditadura getulista (a partir de 1937) e, nos EUA, embora ainda mantendo sua democracia, Franklin Delano Roosevelt tornava-se presidente em 1932 (sendo o único presidente na história do país a ser reeleito seguidamente, em 1936 e em 1940). Vale ressaltar que o Império do Japão iniciaria o seu processo imperialista em 1931, com a invasão japonesa de Manchuria (China).
Neste mundo de feridas abertas e expostas entre as potências e grande acirramento ideológico entre as nações, aquilo que não ficou resolvido na primeira guerra mundial acabaria por fazer eclodir a segunda edição do mesmo conflito. Com a invasão da Polónia em 1º de Setembro de 1939 pelos nazistas, Reino Unido e França responderam à agressão com uma declaração de guerra dois dias depois. Inicialmente, a União Soviética de Stalin era aliada da Alemanha, tendo invadido a Polónia em 17 de Setembro, em acordo com os nazistas (Pacto Molotov-Ribbentrop, 1939). As relações Soviéticas e Nazistas só mudariam com o lançamento por parte dos alemães da Operação Barbarossa (1941), devido a interesses territoriais conflituantes no Leste Europeu.
Dois blocos se formaram, novamente. O chamado ‘Eixo’, na qual Alemanha e Itália faziam frente na Europa e o Japão na Ásia. Já os ‘Aliados’ se uniram em torno de Reino Unido e França, sendo posteriormente incorporado os EUA e União Soviética também. Como vimos, a União Soviética entra ao lado dos aliados em 1941, depois do ataque alemão. No caso dos EUA, formalmente ela entraria no conflito também em 1941, depois do ataque a base de Pearl Harbor pelos japoneses. Até então, os norte-americanos mantinham uma política militar de neutralidade, embora economicamente apoiassem os aliados.
Terceira questão: o que mudou depois da Segunda Guerra Mundial?
Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a história do mundo mudou de forma nunca antes vista. Com a vitória dos aliados e a derrota do Eixo, duas coisas ficaram evidentes: primeiro, que os grandes impérios europeus haviam chegado ao seu fim, e agora o esforço seria o de reerguer seus países no pós-guerra. Segundo, o mundo viu emergir duas grandes novas potências em escala imperial: os EUA e a União Soviética. Começava, assim, a Guerra Fria.
Peter Zeihan (2022) indica que após o fim da Segunda Guerra, os EUA se posicionou de tal modo que poderia ter feito emergir um dos maiores impérios da história do mundo, a exemplo do Império Romano. No entanto, os custos demográficos, económicos e militares de manter uma ocupação territorial global eram demasiadamente elevados para este intento. Além disso, os EUA não precisariam de manter ocupação para assegurar o seu domínio. Foi estabelecido de imediato uma aliança económica entre os norte-americanos e seus aliados. O Plano Marshall (iniciado em 1948) tinha como objetivo financiar as nações europeias em seu processo de reconstrução, enquanto os EUA tornava-se grande credor destas potências.
Mas foi o Acordo de Bretton Woods (1944) que estabeleceu as bases da Nova Ordem Mundial pós-guerra. Neste encontro (ocorrido no estado norte-americano de New Hampshire), ficou estabelecido a criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, ambas entidades que teriam por função organizar o sistema financeiro internacional e financiar as nações que dela precisassem (desde que seguindo certas condições). Aqui, o dólar foi estabelecido como o novo padrão monetário internacional. Este sistema, junto ao Plano Marshall, fez com que países europeus (que possuíam das maiores reservas de ouro do mundo), tivessem de pagar os EUA com estas reservas, contribuindo para os norte-americanos aumentassem (numa época de padrão ouro) o valor da moeda norte-americana.
Estima-se que em meados dos anos 1950 os EUA chegou a ter 25 mil toneladas de ouro, tornando-se a maior reserva de então. Além disso, com Bretton Woods e o Plano Marshall, também inaugurava-se um outro momento da história: a era Nuclear. Tendo sido a primeira nação a desenvolver e usar ogivas nucleares no Japão em 1945, os EUA tornava-se também a maior potência militar do mundo, tendo bases na Ásia, na Europa, nas Américas e uma Força Naval presente em todos os oceanos do planeta.
A União Soviética, grande adversária dos EUA, manteve sua influência devido a sua localização. A conquista do Leste Europeu e o Pacto de Varsóvia (1955), criado como resposta ao surgimento da OTAN (em 1949), sedimentou o orbe soviético, assim como o desenvolvimento das suas próprias ogivas nucleares. Embora economicamente os soviéticos não tivessem condições de competir diretamente, eles possuíam em sua vantagem um grandioso exército e território, equiparando-se militarmente com os EUA em pouco tempo nesta área.
A Alemanha, derrotada na Segunda Guerra, foi dividida entre Alemanha Ocidental (sob ocupação da França, Reino Unido e Estados Unidos), e Alemanha Oriental (sob ocupação da União Soviética). Berlin, capital da Alemanha, também ficou dividida (Berlin Ocidental, ocupada pelas mesmas nações que ocuparam a Alemanha Ocidental) e Berlin Oriental (ocupada pelos soviéticos). O Muro de Berlin (construído em 1961 para impedir alemães da Berlin Oriental de se mudarem para a Ocidental) ficou marcada como símbolo do mundo dividido entre os blocos capitalista (liderado pelos EUA) e comunista (liderado pela União Soviética).
Muitos estudiosos (entre eles John Lewis Gaddis, 2007; Archie Brown, 2011; e Martin Malia, 1994) argumentam que o que levou a União Soviética (URSS) ser derrotada na Guerra Fria foi a capacidade do sistema de Bretton Woods asfixiar os países fora do sistema economicamente. O avanço tecnológico e as demandas demográficas (aumento populacional, imigrações e custos do Estado) fizeram com que a União Soviética visse suas capacidades internas (bem-estar) e externas (forças armadas) entrarem em conflito. Para manter o seu império e influência, era preciso manter a paridade de poder militar com os EUA. Mas isso dilacerava o orçamento soviético, impedindo-os de investir nas necessidades domésticas.
Com uma sociedade mais irritadiça devido às tensões económicas, fome e pobreza, o bloco soviético viu sua estrutura se desfazer aos poucos, dissolvendo-se em definitivo quando em 8 de Dezembro de 1991 os principais países do bloco (Rússia, Ucrânia e Bielorrússia) assinaram um acordo que declarou o fim da União Soviética. A partir de então, os EUA imperou absoluto. Tornava-se a única superpotência militar do planeta, a única superpotência económica e também a mais proeminente potência social e cultural (tendo influenciado desde a cultura pop até as tendências tecnológicas). Começava a chamada ‘Pax Americana’.
Este novo arranjo global fez com que alguns autores, como Francis Fukuyama (1992), refletisse sobre o ‘fim da história’, visto que além do capitalismo e do superpoder dos EUA, não havia qualquer outro horizonte de mudança e a ‘história’ como a conhecíamos haveria de ter chegado a um fim. Os EUA representariam o auge que qualquer nação moderna poderia chegar. No entanto, esta ‘euforia’ ideológica com o fim da dicotomia da Guerra Fria não perduraria por muito tempo. Rapidamente ao longo da década de 1990 e no começo do século XXI, na década de 2000, o superpoder dos EUA seria testado e todas as feridas não saradas da Guerra Fria eclodiriam novamente mundo afora.
Quarta questão: que mundo temos hoje?
Se uma grande guerra é resultado das consequências da última, seria correto afirmar que uma eventual Terceira Guerra Mundial seria consequência do fim da Segunda Guerra e da Guerra Fria? Com o fim da União Soviética e o ‘renascimento’ da Rússia, uma questão ficou sem resposta: como uma nação pobre e nuclear lidaria com o mundo desenvolvido? E como as demais nações comunistas do planeta viveriam no sistema americano?
Os ataques de 11 de Setembro de 2001 fizeram parecer que a Pax Americana havia terminado e que os EUA tinha mais inimigos do que imaginava. Esta sensação, respondida com a Guerra ao Terror e seguidamente com a Guerra do Iraque (criando uma nova política externa norte-americana, conhecida como Doutrina Bush) fez emergir no cenário geopolítico uma série de questionamentos, tanto acerca do sistema americano, como também acerca do futuro das nações e da humanidade (em meio a um contexto de crise climática, aumento populacional, mudanças tecnológicas etc.).
Considera-se aqui ‘sistema americano’ a ordem criada no pós-guerra e durante a Guerra Fria, isto é, uma globalização baseada no poder do Dólar enquanto reserva monetária, baseada na presença militar naval dos EUA e a segurança das rotas comerciais marítimas (favorecendo assim o comércio global), e os avanços tecnológicos, que aprofundaram aquilo que ficou conhecido como ‘globalização’. Esta nova era foi formalmente estabelecida do ponto e vista diplomático nas Nações Unidas (herdeira da Liga das Nações), cujo Conselho de Segurança reflete o mundo pós-Segunda Guerra, com os seguintes membros permanentes: EUA, França, Reino Unido, China e Rússia. A OTAN, por sua vez, seria um braço desta conjuntura (EUA, França e Reino Unido como membros).
A Europa triunfou neste sistema, visto que uma vez reerguidos economicamente, voltaram a ‘recomprar’ o ouro que haviam vendido para os EUA, aumentando assim suas reservas. Além de terem se beneficiado da ‘destruição mútua dos impérios’, criando um arcabouço impositivo de negociação e paz por entre as potências europeias. Este ambiente favoreceu diversos acordos que culminariam na formação da União Europeia, sob a égide protetiva da OTAN. A Alemanha, em especial, beneficiou-se destes acordos, tornando-se uma grande potência económica após sua reunificação em 1990.
A Rússia, no pós-Guerra Fria, precisou se adaptar de muitas formas. Boris Ieltsin, primeiro presidente russo pós-URSS, era considerado um líder pró-Ocidente, e manteve relações amistosas com os líderes europeus e norte-americanos até a sua renúncia em 1999. Seu primeiro-ministro, o desconhecido Vladimir Putin, se tornaria Presidente da Rússia no ano seguinte (2000). Putin tentou aproximar-se do Ocidente, mas com uma postura menos subserviente a de Ieltsin. Rejeitado, sua política externa mudaria a partir do famoso discurso de Munique, em 2007, aonde anunciava uma nova matriz geopolítica para a Rússia (nem ocidental e nem soviética, mas ‘nova’ e ‘soberana’).
A China, tendo vivido sua revolução comunista em 1945, não ficaria incólume durante a Guerra Fria. Próxima da União Soviética até os anos 1960, os chineses começaram a mudar de postura a partir de 1972, quando a visita do presidente norte-americano Richard Nixon inaugurou um novo capítulo nas relações China-EUA (sobre pretexto de tentar afastar a influência soviética da China). O mesmo Presidente Nixon colocaria fim ao padrão-ouro um anos antes (em 1971), transformando o Dólar numa moeda lastreada apenas na economia norte-americana (criando assim a economia do crédito). Esta normalização de relações China-EUA, junto a Revolução Cultural (1966) e suas implicações económicas, fizeram com que o líder chinês Deng Xiaoping desenvolvesse uma política de ‘Reforma e Abertura’, em 1978. Foram estas políticas que fizeram da China a nação que conhecemos hoje: aberta ao mercado, mas ainda comunista.
Todas as nações e regiões do mundo sofreram o impacto do ‘sistema americano’. Não haveria uma China forte economicamente sem a globalização financiada pelos EUA, como também não haveria uma Rússia soberana e altiva sem uma economia mais ou menos arrumada (ao invés da desgraça soviética). Do mesmo modo, não existiria União Europeia sem o guarda-chuva de segurança e apoio financeiro dos EUA. Outro catalisador importante foram as mutações pós-Segunda Guerra nas ex-colónias das potências europeias, que foram adquirindo suas independências ano após ano, levando o Oriente Médio, Ásia e África a seus contextos e complexidades pós-colonialistas.
Neste sentido, para responder a pergunta que mundo temos hoje, temos de levar em conta que o mundo não possui ‘sistemas’ diferentes, como na Guerra Fria. O mundo de hoje se assemelharia mais ou menos ao mundo pré-Primeira Guerra Mundial. Temos novas potências que prosperaram e vivem debaixo do sistema americano. Com a melhora do status militar e económico destas potências, suas antigas feridas voltam a ser exploradas, como ocorre na Rússia e sua invasão da Ucrânia, ou da constante ameaça da China invadir ou anexar Taiwan (reclame que remonta desde a guerra civil chinesa em 1947).
Os BRICS (sigla que engloba Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) representam, na verdade, um projeto geopolítico em torno dos interesses chineses (ou russo-chineses). A China quer criar um sistema paralelo ao sistema americano, com um novo FMI, um novo Banco Mundial e assim por diante. O ‘Novo Banco de Desenvolvimento’ (NBD) seria a versão chinesa do Banco Mundial, estando em discussão um novo ‘FMI’ sem o padrão dólar. O problema aqui é que a China não possui o mesmo escopo militar, económico, financeiro ou sociocultural que os EUA possuem. Sequer as mesmas alianças.
A estratégia chinesa versa sobre países em desenvolvimento, tanto na Ásia, quanto na África e América Latina. Ao financiar projetos nestes países, os chineses querem criar sua própria versão do Plano Marshall americano na Europa. Além disso, o alinhamento geopolítico da China com a Rússia e seus aliados satélites como o Irã e Venezuela faz com que tais empreendimentos sejam vistos como belicosos ou perigosos por muitos analistas. Contudo, devemos nos perguntar: seria a agressão russa na Ucrânia e a ousadia dos aliados chineses e da própria China sintomas de um novo potencial conflito mundial? A estratégia chinesa vai dar certo e, fatalmente, levará o país a um conflito de larga escala com os EUA?
Conclusão: os cenários mais prováveis segundo Sasha van Lammeren
A bem verdade, embora o cenário seja parecido em estrutura com o mundo pré-Primeira Guerra Mundial, não temos potências capazes de comprar conflitos armados de larga escala. Nem mesmo os EUA, que é a maior potência militar do mundo, teria interesse em grandes conflitos militares. Do mesmo modo que o ‘império’ americano não foi formado via ocupação devido a impossibilidade logística do mesmo, as forças norte-americanas não tem condições de sustentar diversos teatros de guerra no planeta que incluíssem tropas de chão contra grandes potências, como China e Rússia. Militarmente falando, os EUA preferiria agir mais pelas suas Força Aérea e Naval e como força auxiliar dos aliados do que pelas suas Forças Expedicionárias (Exército e Fuzileiros Navais).
No caso da Rússia, muito embora ela seja uma potência militar e nuclear, seus desafios na Ucrânia demonstraram que os russos são incapazes de sustentar campanhas longas e dispendiosas em vários territórios ao mesmo tempo. Ainda que houvesse a hipótese, como aventado pelo Estado-maior Alemão, da Rússia após vencer a Ucrânia empreender ataques contra os Bálticos e países membros da União Europeia, isso só faria a já escassa capacidade expedicionária russa se dividir ainda mais em várias frontes. Tal evento poderia catalisar uma mudança de sistema na Rússia, ameaçando inclusive a própria Federação Russa. Putin sabe disso e para ele mais vale uma Rússia isolada, porém unida, do que uma Rússia expansionista mas com o mesmo destino da União Soviética.
Rússia e China, inclusive, não possuem formal aliança militar um com o outro ou com seus vizinhos. A Rússia conta com o apoio da Bielorrússia, mas somente isso. A China, por sua vez, embora tenha vários acordos de cooperação militar com países do mundo todo, não possui uma aliança militar que seja capaz de puxar outros povos para um conflito armado (a exemplo da OTAN). A China, embora tenha condições de construir uma força naval poderosa, precisará pesar os prós e contras de manter um grande gasto militar para tentar competir com os EUA, tendo de ao mesmo tempo satisfazer as diversas demandas domésticas (com uma economia que descresse ano após ano, com uma sociedade que envelhece cada vez mais e num sistema produtivo que não tem condições de prosperar sem a sua matriz exportadora para mercados europeus e norte-americano).
A China tem a ambição de tornar-se referência global, mas vivendo dentro do sistema americano. Isso significa que a China ainda depende do Dólar, ainda depende dos mercados internacionais, ainda depende da matriz energética fóssil (petróleo), ainda depende da segurança das rotas marítimas financiadas pela Força Naval norte-americana. A China, sem o mercado norte-americano, sem os investimentos norte-americanos, perderia grande parte de sua força produtiva e financeira. E esta perda repentina poderia gerar um tremendo caos social e uma potencial mudança de regime. Xi Jinping e seu partido sabem disso. E, portanto, não é trivial considerar que os chineses ‘querem’ uma guerra de larga escala. A China não é, portanto, candidata ideal para ‘suplantar’ os EUA enquanto referência económica ou militar planetária.
A União Europeia, por sua vez, também não é concorrente nem dos EUA e nem do bloco Russo-Chinês pois ela vive num espectro próprio. Por ter se beneficiado da segurança norte-americana (via OTAN), a União Europeia pôde nas últimas décadas investir grandemente no seu estado de bem-estar social. Mantendo uma relação neutra e difusa com a Rússia (devido aos acordos económicos da Alemanha com os Russos) e estremecida com os EUA (especialmente durante o governo Trump e a ameaça do fim da OTAN), os europeus se encontram hoje numa situação de grande fragilidade e dependência. Num cenário de fim da OTAN, os europeus seriam obrigados a criar uma força armada europeia da noite para o dia, algo que não é trivial e nem prático no curto prazo. Portanto, seriam obrigados a negociar com a Rússia de igual para igual e fazer muitas concessões.
Já num cenário aonde a OTAN permanece unida e forte, os europeus precisarão pressionar Washington por mais apoio e intervenção, uma vez que sozinhos os europeus não tem interesse ou condições de financiar intermináveis guerras com a Rússia. Logo, ficará a cargo dos EUA decidir o que irá acontecer.
Como pode perceber, os norte-americanos ainda dão todas as cartas no mundo contemporâneo. Ainda vivemos no sistema americano. E isso se percebe de muitas formas. A Guerra na Ucrânia poderia ter sido evitada se Joe Biden tivesse se reunido com Vladimir Putin para estabelecer um acordo de boa vontade. Os únicos que tentaram negociar um acordo foram o Chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, e o Presidente da França, Emmanuel Macron. Os EUA nunca tentaram fazer um acordo e apenas incitaram Moscow a agir. Ainda que esta seja uma opinião controversa, os fatos dizem por si.
Por omissão, os EUA permitiu que a Guerra da Ucrânia tivesse início e, com isso, conseguiu dois feitos: primeiro, unir a OTAN depois dos anos Trump. E, segundo, isolar a Rússia de tal modo que mesmo que ela vença esta guerra, ela estará incapacitada de tentar aventuras maiores (tanto militarmente quanto economicamente). A Guerra da Ucrânia serviu como uma guerra de contenção da Rússia.
Quanto a China e seus satélites, os EUA conseguem controlar através da ameaça económica. Ainda que sanções pesadas contra Venezuela, Irã e China causassem para os EUA grande empecilho e pudessem gerar até mesmo uma depressão económica planetária, isso não afetaria no longo prazo os EUA. Primeiro, porque se trata de um país autossuficiente em petróleo. Segundo, porque os EUA tem uma das maiores reservas de água doce do mundo e de terras férteis. Terceiro, porque ao ‘forçar a quebra’ da China, os EUA teria condições de num esforço nacional reestruturar sua economia de tal modo que tudo que se produz hoje na China, voltaria a ser produzido nos EUA. Além disso, os EUA conta com equilíbrio populacional e grande imigração, de modo que mão-de-obra para sustentar sua economia não será um problema neste século para eles.
Então, em que cenário teremos uma Terceira Guerra Mundial? A resposta para esta pergunta está na própria premissa da mesma. Uma ‘Guerra Mundial’ precisa de potências capazes de combate-la e de impor derrota a seus inimigos. Muito embora se tema uma ‘terceira guerra nuclear’, gerando o fim da humanidade ou da civilização como a conhecemos, há de se colocar nisso um cálculo económico. Maquiavel já dizia que a natureza do poder é a sua própria preservação. Logo, genocídios domésticos causados pela pobreza, pela fome ou até mesmo pela violência são mais tolerados do que a perda total do poder num cenário de destruição absoluta e caos.
O mais provável é que os EUA perceba no século XXI que a melhor forma de conter o avanço chinês, russo, ou até mesmo o desenvolvimento da Índia e demais países emergentes seja o de ‘frear’ ou ‘acabar’ com o sistema americano como o conhecemos. Isto é, tirar os navios das rotas comerciais marítimas, centrar o Dólar numa economia mais robusta, retirar investimentos nos países emergentes e ‘deixar’ o mundo se virar sem os EUA. Se parar para pensar bem, é uma estratégia um tanto genial.
Se os EUA tem condições de se autossustentar, produzindo basicamente tudo em casa e importando apenas de seus aliados ou de países menos belicosos, se os EUA tem condições de se defender dada a sua geografia (limitado pelos Oceanos Atlântico e Pacífico e, por terra, com Canadá ao norte e México ao sul), dificilmente correriam o risco de serem invadidos por potências estrangeiras. Considerando ainda sua grande força militar e económica, enquanto o mundo entra em convulsão em diversos conflitos uns com os outros (Índia e Paquistão, China e Índia, Rússia e Europa) ou entre si mesmos (crises institucionais e guerras civis no Brasil, Argentina, Venezuela, Irã, África do Sul, Rússia, China etc.), os norte-americanos prosperam.
E aqueles desesperados que quiserem procurar um refúgio para viver sua vida, terão dificuldades para entrar nos EUA, que poderá escolher a dedo quem entra e quem não entra. Os americanos terão a prerrogativa da escolha, situando-se em condição suficiente para negociar um novo ‘Plano Marshall’ global e um novo Bretton Woods global depois que o período de conflitos levar o mundo emergente e desenvolvido fora dos EUA a chegar num termo.
Isso significa que uma política mais isolacionista, restritiva e menos intervencionista por parte dos EUA, embora pareça contraproducente e contraintuitivo pois abriria espaço para novas potências emergirem, poderá ser, na verdade, a única estratégia vencedora.
A Terceira Guerra Mundial, portanto, já começou. Estamos vivendo os primeiros conflitos dela. Mas as chances das grandes potências se digladiarem diretamente, são extremamente baixas, se não, nulas. As chances de Guerra Nuclear, considero extremamente baixa. Não veremos os EUA invadir Rússia ou China, ou vice-versa. E dificilmente veremos a Rússia invadir um país nuclear da União Europeia. O que teremos são um conjunto de guerras híbridas (comunicacionais, económicas e culturais), junto de alguns conflitos militares localizados (como a Guerra da Ucrânia ou a do Oriente Médio). O mundo entrará num declínio económico agudo, podendo entrar em Depressão Económica, e somente as nações preparadas para este novo mundo terão algum tipo de sucesso. Quais? Eu conto num próximo artigo.
Obrigado pela leitura!
Sasha van Lammeren
Jornalista e Analista Político
Mestre em Comunicação Política
Doutorando em Ciência Política
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Brown, Archie. (2011). Ascensão e queda do comunismo. Record.
Fukuyama, Francis. (1992). The End of History and the Last Man. Penguin Books.
Gaddis, John. L. (2007). The Cold War: A New History. Penguin Books
Hobsbawm, Eric. (1994). Era dos Extremos - O breve século XX: 1914-1991. 2ª Edição. Companhia das Letras, São Paulo.
Howard, Michael. (1992). The Lessons of History. Yale University Press
Keegan, John. (1993). The Face of Battle: A Study of Agincourt, Waterloo, and the Somme. Penguin Books
Liddell, Basil. (1970). History of the Second World War. Konecky & Konecky
Malia, Martin. (1994). The Soviet Tragedy: A History of Socialism in Russia, 1917-1991. GoldBooks.
Tuchman, Barbara. (1962). The guns of August. Scribner
Zeihan, Peter. (2022). The end of the world is just the beginning. Harper Business.







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