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Antropofagia Brasileira

As armadilhas para o futuro do Brasil e o nosso destino comum enquanto povo.



INTRODUÇÃO

 


Confesso que demorei para compreender como iria iniciar este texto. Meu dilema interno pesava sobre o fato de que, pela minha avaliação, temos mais motivos para o pessimismo do que para o otimismo. Temia que, ao escrever fundamentalmente com base nas coisas que sei, o texto soasse deveras negativo, tolhendo os sonhos e esperanças de meus leitores (as). No entanto, enquanto me contorcia neste debate interno, lembrei que meu papel é apenas o de ser realista.

 

E nisto, há uma cilada. Pode parecer simplista ou até mesmo óbvio, mas muitas vezes somos pessimistas, enquanto dizemos que somos realistas. Ou somos muito otimistas, enquanto também nos escondemos por debaixo do manto do ‘realismo’. Por isso, não há aqui uma solução verissímil. Ser realista deve significar, a grosso modo, ter a capacidade de ver os fatos concretos da realidade sem, no entanto, determinar estes fatos como eventos proféticos. Há uma diferença entre análise e profecia, afinal.

 

Como profeta, eu não teria de me preocupar com as nuances da vida humana e natural na sua lógica perene. Não precisaria de levar em consideração a teoria dos jogos, ou então, os diversos ‘efeitos borboleta’ que podem mudar absolutamente tudo da noite para o dia. Se fosse profeta, diria o que acredito, não aquilo que analiso. E neste ponto, tenho aqui duas responsabilidades. A primeira é a de verdadeiramente oferecer ao leitor(a) um retrato realista do Brasil que temos. Segunda, a de oferecer uma visão analítica precisa e eficiente dos ‘futuros’ que podemos esperar, ‘Ceteris paribus’ (se tudo se mantiver constante).

 

Portanto, longe de oferecer uma imagem profética do futuro brasileiro, ofereço um quadro. Uma pincelada com base nas minhas observações e estudos, que até o presente momento indicam algumas tendências muito claras. Estando as premissas do que digo equivocadas ou não contemplando outros fatos da realidade, estão os leitores (as) deste texto convidados a contrapor o argumento. Com isso, ao invés de uma visão apocalíptica ou paradisíaca de Brasil, proponho um debate público sobre o futuro coletivo do país. Há diversas nações e povos neste mundo que, ao longo da história, apesar das dificuldades, conseguiram encontrar um ‘caminho’ pelo qual enveredar.

 

Sendo o povo brasileiro um povo novo, talvez ainda por fazer, me parece justo acreditar que o meu realismo pode servir de ponto de partida para as atuais e futuras gerações debater aquilo que queremos ser. No devir da história, rezo eu, poderemos encontrar mais respostas para as perguntas aqui suscitadas. E nisto, trataremos por fim de dar ordem ao caos, estrutura aquilo que é desestruturado, sentido ao que não tem sentido, e voz aos que não tem voz. Eis porque me devoto em ser um analista, e não um profeta. Não tenho certezas, a não ser uma… a de que um dia todas as perguntas encontrarão as suas respostas (mesmo as que não queremos encontrar).

 

Este texto está dividido em quatro partes. Primeiro, apresento as três principais armadilhas que, creio, são as mais importantes da vida brasileira desde sempre. Trata-se das armadilhas da geografia, da demografia e da consciência coletiva. Ao final, munido destes elementos, procuro apresentar quais futuros nos aguardam e como podemos impactar cada um deles a partir de hoje. Mais do que lamúrias, há de se fazer um chamado a ação.



PARTE I

A Armadilha Geográfica

 

 

A geografia é destino. Se você muda sua geografia, você muda seu destino.

(Napoleão Bonaparte).

 

 

Os seres humanos tem corpos. Alguns tem ossos mais largos, outros tem tendões mais elásticos, outros tem tendência a determinadas doenças, outros tem mais imunidade. Há ainda aqueles indivíduos que tem maior facilidade para a matemática, enquanto outros tem para a literatura. Nossa formatação é diferente. Ainda que, em natureza, sejamos todos da mesma espécie. Para as nações, o mesmo é verdadeiro. Só que ao invés de corpos biológicos ou cérebros, as nações tem territórios geográficos e povos. E estes territórios tem benesses e também desvantagens que determinam como os povos terão de lidar com os outros países e consigo mesmo.

 

A frase de Napoleão Bonaparte acima referida é um tanto determinista. Por ela, poderíamos imaginar que uma ilha como o Reino Unido jamais conseguiria alcançar o status de potência global, ou que a França (no meio da Europa e cercada de adversários históricos por toda parte), jamais teria sobrevivido por quase 1 mil anos. No entanto, ambos os exemplos estão ai até hoje, cada um com suas mazelas e suas glórias. Logo, o território nunca é fator determinístico para o sucesso ou insucesso de nenhuma nação. Esta armadilha, que chamo de ‘armadilha geopolítica’ ou ‘geográfica’, nos empurrou por muitos anos para a tese do ‘país do futuro’.

 

Afinal, olhe nosso território! Temos a maior floresta tropical do mundo, temos rios doces que podem saciar populações inteiras, temos um território fértil, temos uma das maiores costas do mundo e, não satisfeitos, estamos em cima de uma placa tectónica, o que nos afasta das ameaças de terremoto, ou de tsunamis. É como se fossemos uma alegoria da ‘terra prometida’, a terra bíblica que tudo dá e aonde tudo é possível.

 

Podemos agradecer tanto aos colonizadores portugueses que ignoraram o Tratado de Tordesilhas (que dividia o mundo entre Portugal e Espanha e cujo lado português se resumia, nas Américas, apenas ao Nordeste brasileiro). Ou podemos, também, agradecer aos Bandeirantes e sua própria ‘marcha para o Oeste’, abrindo e fazendo nossa fronteira se expandir mais e mais.

 

Contudo, independente dos ‘culpados’ desta conquista territorial, fato é que desde 1822 o Brasil é um país independente. Com governo próprio. Com organização própria. E tudo o que fazemos em nosso território nos diz respeito. Ou, pelo menos, assim deveria ser. Já aqui surgem algumas perguntas: como organizamos este território, afinal? Quais regras colocamos para nós mesmos? O que nos move quando pensamos a terra brasileira?

 

Para responder isso, temos de voltar um pouco na história. Assim que os portugueses chegaram na nova Terra de Vera Cruz, então nome do território recém-descoberto, logo ficou claro pelo menos três coisas: tratava-se de um território distante das demais potências europeias, tratava-se de um território rico em pedras preciosas e especiarias, e os povos originários (indígenas), não representavam grande ameaça ao controle europeu. Do ponto de vista do conquistador português, era como tirar a sorte grande. Mas somente 34 anos depois da chegada de Pedro Álvares Cabral, lá nos idos de 1534, é que o Rei D. João III resolveu organizar a terra descoberta.



Surge, assim, as ‘capitanias hereditárias’. Aqui, há de se compreender que, diferente dos colonos ingleses (e alguns holandeses) que foram para a América do Norte por conta própria (em sua maioria) e em busca de uma ‘terra nova’ para pregar em liberdade e viver longe das tensões políticas e religiosas da Europa, os colonos portugueses vieram para o Brasil num esforço de ocupação do território e para dele tomar posse.


No entanto, a coroa portuguesa não tinha fundos e nem gentes para isso, de modo que a solução mais fácil foi o de mandar fidalgos novos para a América e dar-lhes total liberdade para ‘manter’ o território com seus próprios recursos. O apoio da coroa seria mínimo, apenas dentro da esfera da defesa e do controle. A lei local ficava a cargo do capitão-mor e, talvez, das Igrejas.


Nas salas de aula de história Brasil afora é comum ouvirmos o termo ‘colonização de exploração’. Mas não me parece preciso. O objetivo da coroa, inicialmente, era primeiro o de tomar posse do território tendo poucas pessoas para povoar este território. E, segundo, garantir que dele se tirasse algum lucro (logo, sua exploração). Portanto, seria mais conveniente chamar de ‘colonização do domínio’, em contraste com a ‘colonização de povoamento’ engendrada na América do Norte. Sem o domínio do território, não haveria exploração de recursos.

 

A própria ideia de Brasil, na sua esfera política, nasce precisamente daqui. Desta lógica fidalga de controle da terra e exploração de seus recursos para povoar o território e dele tomar posse. É a partir desta semente que nascem todas as oligarquias brasileiras, e também da lógica do domínio surge as mazelas sociais históricas, que até hoje se fazem bastante presentes. O povo brasileiro desenvolveu uma mentalidade de escassez, de modo que não importa se se trata da classe alta ou da classe baixa, todos querem dominar a todos o tempo inteiro. Mesmo entre os pobres.

 

Exploraremos melhor isso nas próximas armadilhas. Aqui, centrando-nos na geografia, a lógica do domínio nos forçou a ter duas atuações. Uma imperial (em especial no período monárquico), e outra militar-ditatorial (na República). Nosso território é deveras extenso e pouco povoado. Somos uma nação cuja 54% da população vive na costa, e os que vivem no interior não estão integrados a metrópoles economicamente ativas como São Paulo ou Rio de Janeiro.

 

A seguir, apresento alguns mapas que retratam o que, realmente, é o Brasil territorial:


Mapa de elevação do Brasil



Distribuição populacional do Brasil




Mapa de rios e potenciais hidrovias brasileiras



Mapa de potencialidade agrícola natural das terras brasileiras




Infográfico acerca da distribuição das terras no Brasil



O que estes mapas revelam é um país com uma área interna de altos-relevos, o que dificulta e muito o transporte ferroviário entre estados e também a sua ocupação. Revela que não temos rios (hidrovias) suficientemente grandes e economicamente viáveis que possam escoar a produção do interior para os portos exportadores da costa (nomeadamente São Paulo e Rio de Janeiro, mas também no Nordeste e Sul). A título de comparação, uma barcaça que poderia escoar produção por hidrovias equivale a 15 vagões ferroviários ou 58 carretas (rodoviárias).



Também revelam que a ideia do ‘Brasil superprodutivo’ é uma meia-verdade (para não dizer um embuste). Temos sim terras boas para o cultivo (32% do total), mas elas estão concentradas no Norte e Centro-Oeste. Demais terras (cerca de 65%) demandam moderado ou muito elevado trabalho para tornarem-se produtivas. Por isso, 60% das propriedades rurais do país pertencem aos grandes latifundiários. Todas as áreas urbanas e de conservação do país representam apenas 27% de nosso território. Cerca de 40% do território brasileiro pertence a 1,4% dos imóveis rurais existentes.

 

Nossa realidade ainda é a da oligarquia que controla a terra (a mesma, com pouca mutação, das capitanias hereditárias). E o é por dois motivos: primeiro, devido ao arranjo político. Segundo, devido a realidade geográfica do país. Ambos entrelaçados. Nas nossas relações internacionais, nas nossas relações sociais, nas nossas relações culturais e mesmo nas nossas relações regionais, é esta lógica que determina o ponto de partida da discussão. É isso que nos torna um eterno ‘fazendão’.

 

Temos vocação para outras indústrias, com certeza, tais como a farmacêutica, a de moda e têxtil, a de cosméticos e produtos de beleza, de construção e engenharia e energias renováveis. No entanto, ainda não temos empresas capazes de competir de igual para igual com outras grandes empresas internacionais nestes setores. Nos destacamos no setor de aviação com a Embraer. De resto, todos os principais produtos brasileiros são commodities ou seus derivados.

 

O Brasil é um país pensado para, pelas e com as oligarquias. Sem elas, a própria ideia de Brasil fica enviesada, pois quem irá pagar a conta do domínio territorial brasileiro? Com quem e como iremos desenvolver o interior do país? Esta é a armadilha geográfica. Que nos impõe uma realidade socioeconómica altamente concentrada devido a impossibilidade da integração regional e do desenvolvimento de outros setores produtivos não-agrários que possam complexar a economia brasileira. Proponho uma solução para isso ao final do texto. Mas para já, é importante repensar o Brasil territorial.

 

Conclusão acerca da geografia brasileira

 

A construção de Brasília no governo Juscelino Kubitschek, a Zona Franca de Manaus no estado do Amazonas e a divisão dos estados brasileiros (nos seus diversos formatos ao longo dos séculos XIX e XX), tiveram como desculpa a tentativa de impulsionar o desenvolvimento regional. Afinal, estrategicamente precisamos de ter metrópoles no interior que distribuam recursos para as zonas locais. Assim como, que atraem investimentos (nacionais e internacionais) para a localidade. Estados como Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Tocantins, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá e mesmo estados do Nordeste (como Maranhão e Piauí) poderiam se beneficiar disso.

 

Com o desenvolvimento regional teríamos maior capacidade produtiva, projetando uma economia mais ativa e dinâmica, ao mesmo tempo em que combatemos entraves sistemáticos para a população: desenvolvimento de infraestrutura, saneamento básico, irrigação de regiões secas, produção suficiente de alimentos para a segurança alimentar dos brasileiros, inovação e centros universitários ligados a indústrias etc. Uma costa desenvolvida, com grandes portos e metrópoles, aliado a um interior igualmente desenvolvido e dinâmico, é a receita para um território rico e realmente potente.

 

O problema aqui é a falta de vontade política e, principalmente, a falta de incentivo. Com um território cheio de relevos, sem grandes hidrovias entre o interior e a costa, e com terras difíceis de produzir (grande parte da terra brasileira demanda trabalho e investimento para que se torne produtiva, o que encarece a produção), acabamos por legar a nossa sociedade uma tradição de oligarquia e semifeudalíssimo. Não chegamos propriamente na revolução industrial, pois o formato como o Brasil está organizado não é compatível com a industrialização. O problema dos altos-relevos e da diferença de bitolas entre estados e territórios nos impede de concretamente investir em malhas ferroviárias. E sem a capacidade de facilmente escoar a produção do interior para a costa ou de ligar a costa ao interior, o seu desenvolvimento fica comprometido.

 

Como nação costeira que somos, e com um território imenso concentrado em um diminuto número de proprietários latifundiários, a desigualdade é um dado geográfico, e não apenas social. A reforma agrária é importante, mas ela é efetiva para mudar a fisionomia do país? De que forma os pequenos proprietários poderiam contribuir para economia local? De que forma eles conseguiriam baratear os custos de seus produtos, se o manejo da terra em grande parte do país é cara? Se a maior parte dos ganhos económicos nacionais advém dos grandes latifúndios, qual é o incentivo real que a indústria possui? Ainda mais as indústrias urbanas! Quais são os incentivos que as elites agrárias possuem para investir em outros setores além dos seus próprios?

 

Não há. Então os deputados e senadores em Brasília, que representam os interesses de seus estados, acabam por também representar os interesses oligárquicos locais. Ainda que estados mais urbanizados como São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais elejam seus senadores e deputados (e muitos deles também comprometidos com os interesses oligárquicos), tem também de lidar com senadores e deputados do Norte, Centro-Oeste e de grande parte do Nordeste. O que rege a nossa política e a nossa economia é, portanto, a mentalidade do ‘domínio’ e da ‘escassez’. Primeiro, das oligarquias. Mas depois, espalhada por entre a sociedade. Pois nossas elites não partem do pressuposto do ‘dividir’, mas do ‘concentrar’. O Brasil é um arranjo político que os beneficia como classe, pois assim a geografia do país impõe.

 

Em comparação com os EUA, por exemplo, cuja região leste é fundamentalmente uma grande planície ligada a costa, através de ferrovias e também de grandes rios navegáveis (como o Mississippi), há aqui um interesse mútuo que liga os centros urbanos a produção agrícola do interior e vice-versa. E neste ínterim, é possível formar uma consistente política nacional de desenvolvimento que integre diferentes interesses. Afinal, o latifundiário americano quer escoar sua produção internamente (mercado doméstico) e também externamente. Mas o mais lucrativo e barato é o mercado interno. Se as cidades estão interligadas e desenvolvidas, então há gente por perto suficiente para consumir seus produtos, deixando o excedente para ser exportado.

 

No Brasil, devido a nossa geografia e o custo de produção, priorizamos a exportação, pois é mais lucrativo exportar e ganhar em moeda estrangeira do que escoar toda a produção interna para todos os nossos centros urbanos. Nosso latifúndio alimenta o Brasil, mas não com a prioridade que o latifúndio norte-americano alimenta o seu consumidor interno. Esta armadilha tem efeitos demográficos, socioculturais, geopolíticos, culturais e, naturalmente, económicos. É preciso endereçarmos este entrave de forma séria, incluindo aqui as elites agrárias, pois se conseguirmos encontrar meios de desenvolver o interior e liga-lo eficientemente a costa, teremos melhores condições de baratear custos e de impulsionar as vocações económicas do país.

 

Enquanto não tratarmos deste problema e procurarmos soluções, o destino geográfico do país será o de um país desigual, forjado pela mentalidade do domínio e controle da terra e da escassez de recursos, com uma sociedade urbana afastada do interior, com um interior pouco desenvolvido e com um estamento político que existe, fundamentalmente, para manter este sistema como ele é. Nossos bancos, nossas universidades, nossos incentivos ficam a mercê desta armadilha, e nos impõe um desafio que irá se refletir em entraves demográficos e de consciência coletiva. Como veremos a seguir.



PARTE II

A Armadilha Demográfica

 


Eu sempre tive a opinião de que o homem honesto que se casou e criou uma grande família prestou mais serviço do que aquele que permaneceu solteiro e apenas falou sobre população.

(Oliver Goldsmith)

 


A demografia é o estudo da dinâmica populacional de uma sociedade no tempo e no espaço, abrangendo diversos aspectos que fornecem insights valiosos sobre seu funcionamento e tendências futuras. Como consequência da natureza geográfica e da forma como esta natureza impõe uma organização ao território brasileiro, temos um conjunto de dados sociais que nos levam e compreender como a desigualdade se impõe, como a mentalidade do domínio e da escassez se apresenta, e como estes entraves, em conjunto, nos atrasam.

 

Entre os pontos centrais das demografias estão a análise da natalidade e da mortalidade, que permitem compreender como a estrutura etária da população está se modificando, refletindo-se na taxa de crescimento populacional. Uma pirâmide demográfica saudável equilibra o número de pessoas em idade ativa com o de idosos e aposentados, garantindo um sustentáculo econômico para o coletivo.

 

Além disso, aspectos como renda, divisão por gênero, localidade, etnia, ideologia política, padrão de vida, taxas de fertilidade, alfabetização, migrações, educação em diferentes níveis e indicadores socioeconômicos como pobreza e desemprego são fundamentais na formulação de políticas públicas e na previsão de tendências em diversos aspectos da sociedade, incluindo os econômicos, sociais, culturais, políticos e geopolíticos. A seguir, estão alguns dos dados mais recentes sobre nossa demografia:  


Referência

Dados

População total[1]

203 Milhões de pessoas (2022)

Divisão por gênero

Mulheres (51,48%) – Homens (48,52%)

Taxa de natalidade[2]

-11,4% (2024)

Taxa de mortalidade[3]

6,08% (2015)

Taxa de crescimento populacional

0,52% (anual)

População por região

41,7% (Sudeste), 26,8% (Nordeste), 14,7% (Sul), 8,5% (Norte) e 7,9% (Centro-Oeste)

População por etnia

43,4% (Brancos), 10,1% (Pretos), 45,3% (Pardos), 0,6% (Indígenas)

*População por renda[4]

Classe A (2,9%), Classe B (21,8%), Classe C (47,4%), Classe DE (27,9%)


Sobre a taxa de crescimento populacional



Uma informação que o leitor(a) deve considerar daqui para frente em todo assunto referente a pirâmide etária é o termo ‘taxa de reposição’. Ou seja, o número médio de filhos que as mulheres em idade reprodutiva no país alcançam. Na década de 1960 este número estava em 6,5 filhos por mulher. Hoje, está abaixo de 1,7 (estudos variam de 1,8[5] para 1,5[6], embora todos corroborem com a tendência de queda). Não entraremos no mérito das razões deste fenómeno. Importa saber que valores abaixo de 2,1 representa uma queda de natalidade, pois a taxa de reposição está em 2 filhos para 2 pais, numa equivalência 1 para 1.

 

Demógrafos concordam que o Brasil vive, hoje, as últimas décadas do seu boom demográfico. Ou seja, ainda temos mais pessoas em idade produtiva do que idosos, embora a tendência é a de inversão piramidal. Os estudos apontam que a janela de oportunidade perdurará até meados de 2040 a 2050, quando efetivamente o número de idosos passará o número de jovens em idade produtiva, invertendo, assim, a dinâmica populacional do país. Este tipo de fenómeno leva-nos a ter de considerar uma série de consequências de curto, médio e longo prazo.

 

Estamos em 2024, e 2040 não está tão longe (é daqui a 16 anos). A título de exemplo, 16 anos atrás estávamos em 2008. Portanto, o que deveríamos estar fazendo neste momento, para aproveitar estes poucos anos que nos restam de boom demográfico, são coisas básicas como investir em educação e capacitação, estimular a força de trabalho feminina, promover o empreendedorismo e a inovação, políticas eficazes de saúde familiar e reprodutiva, investimento em infraestrutura e principalmente, uma política de imigração seletiva (para atrair mais pessoas para o país, visando a ocupação de postos de trabalho essenciais e estratégicos).


Deste modo, o país poderia gerar mais renda, equilibrar as contas públicas, entrar num ritmo de crescimento sustentável no longo prazo e se preparar para quando a pirâmide inverter de vez e o boom demográfico chegar ao seu fim. No entanto, e creio que o leitor não precisa ser um especialista para perceber, estas coisas não tem sido feitas no país, nem nos últimos governos e nem no atual. Na verdade, nossos dados são o inverso do que deveria estar sendo feito.

 

Como vimos anteriormente, os investimentos que poderiam mudar a imagem económica do país em termos de infraestrutura seriam em hidrovias, ferrovias e saneamento básico (para tirar grande parte da sociedade brasileira da pobreza extrema). Isso, em conjunto com uma política de desenvolvimento de capitais no interior, faria com que a pressão demográfica sobre grandes centros urbanos fosse menor, o que aumentaria a demanda por postos de trabalho e, consequentemente, melhoraria nossas taxas de desemprego (atualmente nos 7,6%) e de qualidade de vida.

 

Investimos pouco ou quase nada em educação, especialmente na capacitação de nossos jovens e das nossas universidades no contexto da economia da informação (inteligência artificial, desenvolvimento de softwares, biotecnologia etc.). Não temos uma política nacional de patentes ou de centros de pesquisa. A grosso modo, não conseguimos manter os ‘cérebros’ brasileiros em nosso território, perdendo-os para potências estrangeiras que oferecem melhores condições para nossos pesquisadores. Sem centros universitários capazes de contribuir para a adaptação da nossa economia, tanto no sentido do avanço tecnológico (e verde), quanto no desenvolvimento do crescimento económico, fica muito difícil imaginar como conseguiremos pagar nossas contas.

 

A relação dívida-PIB do Brasil está, atualmente (2024) em 74,3%[7]. E não estamos conseguido fazer qualquer ajuste fiscal que nos permita superavits de qualquer natureza. Ao continuar assim, o governo Lula III chegará ao seu fim com um aumento concreto da relação dívida-PIB, aumentando a sensação de imprevisibilidade da nossa economia e complicando mais nossa capacidade de realmente gerar crescimento sustentável nos próximos anos. Neste contexto, ao não aproveitar o boom demográfico, as consequências a serem enfrentadas dentro de 16 a 20 anos são catastróficas.

 

I.             Pressão sobre o sistema de previdência social e saúde pública: com menos trabalhadores ativos capazes de sustentar a economia do país e sem setores produtivos adaptados para a economia tecnológica, o Estado terá um custo muito mais elevado com as aposentadorias públicas, o que pode pressionar nossos idosos a terem problemas na sua velhice, quer de ordem financeira, quer de ordem do seu bem-estar geral. Além disso, esta pressão fará com que o país precise gastar mais com previdência e demais serviços públicos, já estando neste momento numa trajetória de aumento da sua dívida pública.

 

II.                  Escassez de mão-de-obra qualificada: ao não investirmos apropriadamente em educação e inovação, estaremos legando ao futuro mercado de trabalho brasileiro a escassez de gente capacitada para a economia, o que criará grandes gargalos em diversas indústrias, gerando um peso extra sobre as empresas brasileiras e sobre nossa capacidade de gerar riqueza. A solução para isso seria uma política de imigração efetiva e capacitação da nossa juventude. Ambos, contudo, tem sido negligenciado.

 

III.        Potencial de aumento da carga tributária e estagnação económica: como consequência destes fatores acima mencionados, o país entraria (no melhor dos casos) em estado de estagnação completa, incapaz de reagir diante da falta de mão-de-obra qualificada, falta de jovens para ocupar postos de trabalho e falta de imigração. Com o aumento de idosos e de pessoas necessitando de cuidados de saúde, sem um estado capacitado para sustentar estes custos, teremos um natural aumento da carga tributária (que hoje já é grande), aliado a um país cujos centros urbanos tendem a cada vez mais se agigantar (cerca de 84%[8] da população vive em centros urbanos).


Disparidade de renda

 

Aqui vale a pena fazer uma ressalva sobre renda. Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), o salário mínimo ideal no Brasil (aquele capaz de sustentar as necessidades básicas de custo de vida no país), deveria ser de R$ 6.535. No entanto, em Janeiro de 2024 o salário mínimo real (aquele que os trabalhadores recebem) está em R$ 1.412. Quase cinco vezes menor do que deveria.

 

Neste paradigma, há de se compreender o que cada faixa de renda representa. A métrica abaixo estabelecida leva em conta a renda familiar (ou seja, o quanto as famílias brasileiras ganham em conjunto dentro de uma casa).


Renda

Classe

Divisão Populacional

R$ 21.827

A

2,9%

R$ 10.361

B1

5,1%

R$ 5.755

B2

16,7%

R$ 3.277

C1

21%

R$ 1.966

C2

26,4%

R$ 901

DE

27,9%

 

As classes C2 e DE representam 54% da população brasileira inteira. Já as classes C1, C2 e DE representam 75% da população. Mas se considerarmos o valor ideal do salário mínimo, temos basicamente 91% da população brasileira vivendo abaixo deste ganho ideal. Apenas cerca de 8% da população possui uma renda familiar capaz de sustentar todos os custos de vida no país e ainda sobrar para poupar, viajar, investir ou outros.

 

Portanto, esta sociedade cujo sistema político parece incapaz de endereçar os problemas sistemáticos da nossa dinâmica etária, já vive abaixo do rendimento necessário para garantir qualidade de vida e, ainda mais, sem capacidade de investimento interno ou de consumo sem dívida. Este cenário já é, virtualmente, um cenário de estagnação económica.

 

A seguir, apresento uma tabela com demais dados demográficos gerais, antes de concluirmos o que esta armadilha significa para o futuro do Brasil.


Referência

Dados

Índice de Analfabetismo (2022)[9]

6%

Taxa de abandono escolar (2022)

18% (entre 14 a 29 anos de idade)

Taxa de conclusão Ensino Médio (2022)

53,2%

Taxa de conclusão Ensino Superior (2022)

19,2%

Desempenho académico (PISA 2022)[10]

De um total de 81 países avaliados

Matemática (posição 62º a 69º), Leitura (posição 44º a 57º), Ciências (posição 53º a 64º)

Número de imigrantes no país

1,3 Milhão[11] (menos de 0% da população)

Falta de conexão à rede de esgoto[12]

35,31% dos domicílios sem saneamento básico

Índice de violência

19,4 (100 mil hab) - 2023[13]

Custo da Previdência Social

Cerca de 35% do Orçamento Público (2024)[14]


Conclusão acerca da Armadilha da Demografia

 

Há diversos diferentes tipos de estudos que podem ser feitos a partir dos dados demográficos de uma localidade. Neste texto, me concentrei em dois: a bomba da pirâmide etária e a questão da renda. Os dados confirmam, no entanto, o que vimos na armadilha geográfica. A alta concentração na costa e em centros urbanos no Sudeste, com o interior do país pouco desenvolvido. Em conjunto, estas informações representam o maior entrave para o desenvolvimento do país e para o seu futuro, no curto, médio e longo prazo. Como dito na armadilha anterior, com um território desafiador, temos de somar a isso uma população que envelhece, que não se adapta para este envelhecimento, que é desigual e cuja renda não é suficiente para sustentar o custo de vida com uma sobra para poupança ou investimento.

 

Num país que se endivida mais e mais sem concretizar o retorno deste investimento, num país cuja população não está equiparável às demais nações no seio da concorrência tecnológica e económica, temos de aceitar que talvez tenhamos já perdido o século. Faltam 16 anos para 2040 e 26 anos para 2050. Quando chegarmos no momento de completa inversão da pirâmide e fim do boom demográfico, estaremos dentro do inferno astral da espiral depressiva. A reforma da previdência de 2019 não solucionou o problema.

 

Isso significa, na prática, o seguinte:

 

1.      Aumento da desigualdade social causado pela já alta disparidade de renda, e piorado devido ao endividamento do Estado, com pressão inflacionária (devido a pouca demanda e elevados custos de produção e/ou importação), aumento dos custos de saúde e previdência, diminuição da capacidade produtiva e incapacidade de adaptar a matriz económica para o século XXI.

 

2.      Com o aumento da desigualdade social, a população (que já se concentra em centros urbanos), verá sua qualidade de vida cair drasticamente, potencialmente com aumento da violência e da instabilidade social e política. Isso levará o país a potencializar o nível de polarização política que já vimos no final da década de 2010 e que ainda estamos vivendo na década de 2020. Isso deve levar a fragmentação política, forçando o estamento burocrático e oligárquico a adotar práticas mais autoritárias. Não está descartado uma ditadura militar ou de outra natureza nos próximos 25 anos.

 

Os desafios da nossa demografia perpassam pelos elementos da infraestrutura, da educação e capacitação e, principalmente, do planejamento familiar e da imigração. Nenhum destes elementos parecem estar sendo tratados pelo governo atual ou sequer discutidos no Congresso Nacional ou nos órgãos decisores do país.

 

A falta de investimentos em infraestrutura pode intensificar ainda mais a concentração populacional nos grandes centros urbanos, exercendo uma pressão adicional sobre os serviços públicos e os recursos naturais. Além disso, a ausência de desenvolvimento regional pode perpetuar desigualdades socioeconômicas entre diferentes áreas geográficas, resultando no subaproveitamento de recursos locais e no aumento da migração para regiões já superpovoadas.

 

Prevê-se que a população brasileira continuará crescendo até 2040-2050 antes de começar a estagnar e, eventualmente, diminuir. Durante esse período de crescimento, é esperado um aumento significativo da migração para as cidades em busca de oportunidades de vida, uma vez que as áreas rurais muitas vezes carecem de desenvolvimento regional e enfrentam escassez de recursos. Sem investimentos adequados em educação e capacitação, a próxima revolução tecnológica, também conhecida como revolução 3.0, pode não ser capaz de atender à crescente demanda do mercado de trabalho.

 

Portanto, a preconcebida ideia de desenvolvimento regional a partir de trabalhos remotos online no ambiente rural não é uma aposta social adequada para um grande número de demandas. Pode-se esperar algumas migrações dos centros urbanos para os rurais entre os trabalhadores qualificados, mas não entre os não-qualificados. Isso significa que a pressão de uma economia em espiral depressiva fará com que a pobreza também aumente, tendo por consequência o aumento da desigualdade social e de todos os problemas já bem conhecidos pela sociedade brasileira.

 

Em suma, a demografia não está trabalhando a nosso favor. E cabe ao atual e a todos os governos futuros endereçarem recursos e prioridades no intuito de atender estas crescentes preocupações. Se não aproveitarmos os anos que restam do boom demográfico (cerca de 16 a 20 anos), corremos o sério perigo de entrar numa zona de irreversibilidade. Neste caso, o futuro seria um tanto sombrio e dantesco para o país. Com a piora de todas as métricas e a instabilidade política permanente, o país corre o risco de entrar também numa zona de irrelevância internacional e isolamento diplomático, devido a sua completa incapacidade de cuidar de si mesmo.

 

Restaria as oligarquias, aliadas com as forças armadas e repressivas do país, a imposição do poder pela força, e a manutenção da República e da União por meios antidemocráticos. Em suma, o reforço da mentalidade do domínio e da escassez.



PARTE III

A Armadilha da Consciência Coletiva

 

 

Sou um firme crente no povo. Se lhes for dada a verdade, podem enfrentar qualquer crise nacional. O grande ponto é trazer-lhes os fatos reais. (Abraham Lincoln)

 

 

O termo ‘consciência coletiva’ foi cunhado pelo sociólogo francês Émile Durkheim, em sua obra ‘A Divisão do Trabalho Social’, de 1893. Ele se refere ao ‘conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que forma um sistema determinado com vida própria’. Isto é, trata-se de uma mentalidade compartilhada por entre os membros de uma dada sociedade, que ‘pensa’ e ‘age’ de forma coletiva, com pouco ou nenhum intento consciente da parte do indivíduo. É o que nos leva a compreender a ‘brasilidade’, ainda que este termo não esteja completamente claro do ponto de vista académico e racional.

 

Vamos explorar um pouco o que é ser ‘brasileiro’, em termos de nossa construção histórica como povo e como coletivo. Esta armadilha é talvez a mais importante, pois ainda que tenhamos problemas de ordem ‘determinista’, como a geografia, ou ‘consequencial’, como a demografia, poderíamos driblar estes problemas se tivéssemos a atitude correta diante deles. Ao nos recusarmos coletivamente a tratar destas questões, torna-se fundamental compreender como pensamos nós mesmos e o país frente aos outros.

 

 

A consciência brasileira


 

O leitor deve ter percebido que ao longo do texto, cunhei dois termos que considero centrais na formação da mentalidade brasileira. A doutrina do ‘domínio’ e a mentalidade da ‘escassez’, ambos interligados. Primeiro, o colonizador precisava dominar a terra com poucos recursos, o que o levou a dividir o território de forma desigual na sua natureza, e hierarquizada na sua estrutura. Os capitães-mor junto as autoridades eclesiásticas constituíam a hierarquia, e através da violência e da escassez de recursos, fez-se o domínio da terra. Desde as elites até os mais comuns dos homens, foi a lógica do ‘ser dominado’ e ‘dominar’ junto a ‘falta’ que engendrou o seu pensamento, os seus sentimentos, os seus desejos, os seus princípios e valores, assim como, a sua psicose.

 

Somos um povo forjado pelo individualismo e competição, em contraposição a comunidade e a cooperação. Contrário ao que a crença faz parecer, as nações desenvolvidas (Inglaterra, EUA, Alemanha etc.), não se tornaram potências pelo individualismo, mas sim pela liberdade individual em comunidade. Aonde a ideia de cooperação é mais lucrativa do que a ideia pura de competição uns contra os outros. Pois o que forjou nações como os EUA não foi a mentalidade da escassez, mas da abundância, da terra prometida aonde uma nova vida poderia ser criada. O território não foi organizado com base apenas na violência (embora tenha estado presente), mas principalmente pelas comunidades cujos interesses partilhados fez com que a organização fosse (em si mesma) um bem comum.

 

O leitor deve pensar: mas e os negros norte-americanos? Foram eles incluídos na sociedade norte-americana? É claro que os EUA foi pensado por um grupo social (puritanos e brancos) em detrimento de outros grupos sociais (afrodescendentes, indígenas). Em todo caso, a organização estrutural criada pelos fundadores dos EUA foi pensado pela e para a comunidade, não pela e para o indivíduo. Isso permitiu que os negros se organizassem, eles próprios, entre comunidades. Permitiu que movimentos de direitos civis ganhassem espaço ao longo do século XX, ou ainda mais atrás, que Lincoln compreendesse a importância económica coletiva da abolição da escravatura. A mentalidade norte-americana levou a sociedade a ter de enfrentar estes desafios e soluciona-los, de uma forma ou de outra. O contrário do Brasil, que não quer sequer discuti-los.

 

No Brasil, a ideia de ‘bem comum’ sempre foi bastante rara. Todas as nossas relações sociais foram desenvolvidas a partir do interesse individualista, e nisto incluso a nossa ‘gentileza’ e o nosso ‘jeitinho’. O que queremos ganhar quando damos um ‘extra’ ao cliente? O que queremos ganhar quando somos extremamente simpáticos com potenciais compradores de um produto que queremos vender, ou com uma pessoa que nos parece deter algum status social? A forma de tratamento uns com os outros não é pautada no reconhecimento da humanidade do outro, mas fundamentalmente nas aparências, de modo que o preconceito racial é também um problema estético no Brasil, não étnico. Com uma maioria parda, não nos preocupamos muito com a origem genética de uma pessoa. Mas nos preocupamos em como ela se apresenta.

 

Por sermos competitivos desde a origem, devido a mentalidade de escassez, sabemos ‘inconscientemente’ que estamos neste mundo para lutar uns contra os outros. Logo, o meu interesse tem de ser saciado antes de saciar o interesse coletivo. Daí vem o ‘jeitinho’, que embora pode ser visto como uma forma criativa de driblar problemas, na verdade ela representa uma forma de ‘driblar’ empecilhos para o nosso interesse individual. Não temos um ‘jeitinho’ coletivo, para resolver o problema geográfico. Não temos um ‘jeitinho’ coletivo para desenvolver o interior do país. Temos o ‘jeitinho’ individual, para saciar a nossa necessidade pessoal de ganhar determinada vantagem.

 

Também por sermos forjados pela mentalidade do domínio, temos que as elites se organizam para dominar uns aos outros, como também as classes mais baixas. Toda a sociedade brasileira desconfia uns dos outros, pois não conhecemos o conceito de ‘bem comum’ ou de ‘interesse comum’, apenas o conceito de escassez e domínio, que nos leva a agir centrados na percepção superficial e no interesse momentâneo, quase que derivado da sobrevivência pura. É como se fossemos animais que não conhecem a ideia de abundância, apenas da falta. E por sermos tão carentes de tudo, desde a origem, adotamos como meio defensivo uma atitude ofensiva (ostentar ao invés de poupar).

 

O brasileiro, neste sentido, dificilmente se une a outros brasileiros para alcançar um ganho coletivo. Ele se une a outros brasileiros para alcançar um ganho superficial, de ego, de preconceito, de status. Como dito, nossas relações uns com os outros restringe nossa visão social, e forja o nosso pensamento estratégico acerca da sociedade e do território em termos contraproducentes. O que queremos alcançar como sociedade? Aonde queremos chegar? Qual é a mensagem que podemos oferecer ao mundo? O que nos diferencia fundamentalmente do discurso da sociedade chinesa e do discurso da sociedade norte-americana? Qual é o nosso ‘bem comum’ que queremos expandir para outros povos, incluindo-os de forma positiva?

 

Não temos tais respostas! Pois não sabemos o que é ter um bem comum. Não sabemos o que é ser uma sociedade. Não sabemos o que é organizar o território para todos. O que sabemos muito bem é que a falta de recursos é um dado da vida comum a todos, e que o domínio é a única forma de organizar as relações que temos com a falta de recursos. Esta mentalidade não é individualmente consciente, importante ser dito. É uma mentalidade coletiva, uma consciência coletiva. É um ponto de partida para a nossa psique, que se torna uma psicose coletiva pois é ilusória, falsa, inverídica, oriunda das relações históricas que temos com a terra e entre nós mesmos.

 

Mas por ser uma consciência, ela se torna um filtro de mundo. Se torna a nossa ‘cosmovisão’. Então tudo o que fazemos começa desta mentalidade. Tudo o que pensamos, parte deste princípio. O preconceito com o negro, ou o preconceito com o branco. Ou ainda, as relações de género, ou com os direitos LGBTQ. Nossa relação com o próprio sexo, com a comida, com a arte (música, dança, cinema, teatro, artes plásticas), com o esporte (e nossos heróis), com o trânsito, com o urbanismo, com a economia, com a academia, com a política e com a geopolítica.

 

Autores como Roberto da Matta, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Florestan Fernandes e tantos outros sociólogos brasileiros passaram por estes temas de uma forma ou de outra. Até Olavo de Carvalho, a ‘lenda’ da nova direita brasileira. Mas nenhum deles parece ter compreendido, à luz do conceito de consciência coletiva de Durkheim, o que forja a nossa brasilidade em termos tão claros. Talvez Da Matta tenha sido o que mais tenha se aproximado, a meu ver, em obras como ‘O que faz do Brasil, Brasil?’, de 1986, ou ‘O que é o Brasil?’, de 2004.

 

Fato é que nossa mentalidade é uma consequência de como entendemos o nosso território geográfico, como lidamos com a dinâmica demográfica e como nos desenvolvemos historicamente enquanto povo. Desde 1534 com as primeiras capitanias até o Lula III, de forma sistemática pautamos todas as nossas relações pela mentalidade do domínio e da escassez. Diria que nossa consciência coletiva pode ser chamada, neste sentido, de uma consciência antropofágica. Isto é, uma consciência na qual vemos uns aos outros (brasileiros), não como ‘parceiros’ que partilham de uma mesma nacionalidade. Mas como potenciais concorrentes para o nosso benefício individual. Antropofagia significa uma forma de canibalismo como ritual.

 

Nos sabotamos como povo, pois não reconhecemos nossos compatriotas como compatriotas, mas como ‘gentes’ que nasceram no mesmo território e que, portanto, competem pelos mesmos recursos. Logo, minha única alternativa é domina-los de alguma forma. Este domínio se apresenta em forma de preconceito, em forma de ódio entre classes, em forma de desprezo, em forma de violência e crime, em forma de sabotagem direta, em forma de reserva de mercado, em forma de oligarquia e clientelismo. São atitudes que podem ser reconhecidas entre os mais pobres contra eles próprios, ou até entre as elites contra eles próprios também. Nossa guerra civil não é étnica, não é religiosa, não é económica e não é sequer intelectual. Nossa guerra civil é de consciência.

 

 

Conclusão Geral

e uma

Proposta de um Humanismo Brasileiro

 

 

Como todos os povos na história da humanidade, nós temos um destino comum (nossa geografia), que nos forja uma dinâmica populacional (nossa demografia) e, no tempo, nos legou uma consciência coletiva (ou mentalidade nacional). A partir destes três elementos, temos um retrato bastante detalhado e crítico sobre o que somos, o que precisamos resolver e o que podemos ser. Apresentei até aqui todos os fatos que dizem respeito a nossa estrutura civilizacional. Nosso modus operandi. O próprio leitor pode confirmar tudo o que foi dito sobre nossa geografia, sobre nossa demografia e sobre nossa mentalidade, de modo que indiquei fontes públicas e autores suficientemente conhecidos que dedicaram a vida a falar do mesmo assunto.

 

É evidente que ainda somos uma nação por fazer. Mas somos uma nação, apesar de tudo. Nossos problemas, nossas armadilhas, dizem respeito a nossa formação nacional, e por isso mais vale assumi-las do que renega-las. Nosso território não é abençoado como dizem, embora possa ser se soubermos trabalha-la corretamente. Nossa demografia não é tão positiva como imaginávamos, mas podemos tratar de melhora-la. Nossa consciência não é tão amigável ou gentil como ficamos conhecidos lá fora, mas podemos também altera-la.

 

Se comecei a falar dos nossos problemas pela geografia, começo a propor soluções a partir da nossa consciência, no caminho inverso. Pois como diz Abraham Lincoln na citação da armadilha III, não há crise nacional que não possa ser resolvido por uma população disposta a resolve-la. Dou três exemplos de populações que, dada a mentalidade certa, conseguiram driblar problemas de cunho demográfico e geográfico.

 

Primeiro, o Japão. Apesar de sua geografia em ilhas e bastante acidentada, trata-se de uma sociedade organizada e focada em resolver seus problemas históricos. Do mesmo modo que o povo alemão, que possui uma geografia melhor, mas problemas demográficos e estruturais que dependem, muito, de como e o que decidem coletivamente. Por fim, embora criticados por todos os lados, cito o povo israelense. Num território disputado, cuja geografia é desafiadora e pouco produtiva, os israelenses conseguiram (antes mesmo de qualquer ajuda dos EUA ou de outas potências) aplicar tecnologia e união nacional para a defesa e desenvolvimento de seu território. Mostrando, assim, que é possível driblar os problemas, ainda que sejam complexos.

 

O povo brasileiro não é como o japonês, nem o alemão e nem o israelense. E nem precisa ser! Mas algumas lições podem ser tiradas destes e outros povos, na forma como lidamos com o território e conosco enquanto coletividade. Precisamos discutir abertamente o sentido de ser brasileiros, pois sem a compreensão de que temos uma responsabilidade comum para com o nosso território e sua organização, será impossível alterar a mentalidade antropofágica que nos consiste. Para um povo ser bem-sucedido, ele precisa de cinco fatores:

 

1.      Respeito a sua terra;

2.      Senso de comunidade;

3.      Reconhecimento dos símbolos nacionais;

4.      Perspectiva positiva de futuro conjunto;

5.      Compromisso com os quatro pontos acima mencionados;

 

O respeito a terra advém do entendimento de que o território aonde nascemos é a nossa casa, o lugar de origem de nossos antepassados e de nossa língua, nossa culinária, nossa forma de ser no dia-a-dia, nosso lugar de pertencimento e de identidade. Temos de nos identificar com a terra na qual nascemos (antes mesmo de nos identificar com a cultura desta terra, embora ambos possam estar interligados). Depois, há de surgir naturalmente um senso de comunidade. Pois ao reconhecer e respeitar a minha terra, eu reconheço que as pessoas que nasceram e vivem mesma terra são meus ‘irmãos’ de terra, meus compatriotas, pessoas que têm o mesmo respeito que eu tenho pela terra.

 

Disso vem o senso de comunidade. Não mais olho para a vida e a terra como lugar escasso, mas sim como lugar-comum, lugar que me pertence pois eu sou a terra (diferente do ‘estou’ na terra). Logo, se eu sou a terra e meus compatriotas também são a terra, é nosso dever organizar este território para que melhor possamos dela tirar proveito JUNTOS. Enquanto comunidade. Enquanto membros da mesma localidade. Da mesma geografia.

 

Ao reconhecer este sentido de comunidade entre meus compatriotas, os símbolos nacionais ganham importância por si só. E a isso me refiro não apenas aos símbolos de Estado (bandeira, hino nacional, brasão da República etc.), mas sim aos símbolos culturais (culinários, animais-símbolo, históricos, paisagísticos, esportivos etc.). São símbolos que, partilhados entre todos os membros da comunidade, se tornam elementos agregadores e unificadores da nacionalidade. Sagrados, num certo sentido. Pois representam o sentimento de pertencimento a terra e de compromisso com os demais compatriotas, comunidade a qual pertenço. Não mais quero competir e dominar, mas sim cooperar e conviver. Apesar das diferenças. Apesar das discordâncias.

 

Isso dá ao indivíduo uma perspectiva positiva de futuro. Não nos sentimos mais sozinhos numa terra escassa, mas sim unidos em torno de um mesmo sentimento. Ainda que seja difícil a vida no Brasil, aqui podemos ter esperança pois partilhamos dos problemas uns com os outros, e juntos buscamos as soluções para estes problemas. Um ajuda o outro. Um oferece o que sabe sobre agricultura, outro sobre indústria, outro sobre tecnologia, outro sobre leis, outro sobre proteção das leis, outro sobre organização do território, outro sobre exportação e importação. E dentro deste paradigma, forjamos uma NOVA política positiva. Dirigida para os interesses nacionais, não para os interesses oligárquicos ou clientelistas.

 

É diferente do tal ‘projeto nacional’ que os desenvolvimentistas tentam impor de cima para baixo. A conversa sobre nossos projetos nacionais comuns tem de começar do princípio número um: respeito a terra. Não da mente megalomaníaca de um político, ou de um partido. Ao termos uma perspectiva de futuro positiva, naturalmente nos sentimos impelidos a nos comprometer com os princípios supracitados. E este compromisso comum forja a nacionalidade. Forja uma nova forma das Forças Armadas entenderem o seu papel, dos cidadãos (ricos e pobres) entenderem a brasilidade. Nos forja uma nova forma de nos apresentar no mundo, quando imigramos para outros países. E forja, finalmente, uma nova forma de lidarmos com demais povos e países.

 

Portanto, quero terminar este texto convidando os leitores a refletir sobre os pontos acima mencionados. Pois esta é a única solução viável. Ao reformar nossa mentalidade, e compreender o Brasil por outro prisma, os problemas demográficos e geográficos se tornam problemas menores do que são atualmente. O contrário disso é relegar a nós mesmos um destino cruel e sombrio. Podemos admirar outros povos e culturas, mas sem com isso deslegitimar ou renegar a nossa. Ao reconhecer o valor da nossa terra, respeitamos também o valor que os outros dão a suas terras. O que ajuda a criar um senso de comunidade ainda mais alargado, mais humano e mais cosmopolita.

 

O que proponho aqui não é o nacionalismo enfadonho, que na verdade é uma corruptela oriunda da tentativa de se criar um senso de comunidade forçado. Eu me refiro a uma simples compreensão, a de que a mesma terra aonde nasci é a terra aonde o meu vizinho nasceu e que os problemas que eu tenho são os mesmos que ele tem. E, nesta solidariedade um com o outro, podemos (e devemos) crescer numa consciência coletiva positiva. Ao invés de antropofágica (ou seja, canibalesca), uma humanista! Uma consciência humanista brasileira, em seu esplendor absoluto.

 

Contrariando o que havia dito na introdução irei terminar este texto num tom mais otimista. Já temos razões suficientes para sermos pessimistas só com o realismo bruto da vida brasileira. Nossa geografia é complicada, nossa terra produtiva não é tão produtiva como se imaginava, nosso interior é pouco desenvolvido, nossa demografia está no final do boom demográfico e logo teremos de lidar com a bomba da inversão piramidal etária. E, juntando tudo isso, temos uma sociedade cuja consciência coletiva antropofágica é pautada pela mentalidade do domínio e da escassez, acirrando e aumentando os entraves geográficos e demográficos. Sob estes termos, estamos fadados a um futuro similar a de nações africanas destruídas internamente por problemas parecidos (como Zimbabué), ou, a nações latino-americanas que já enveredam por este caminho (como a Venezuela).

 

Apesar disso, se começarmos agora a construir esta nova mentalidade, a repensar o Brasil e a nós mesmos enquanto brasileiros, ainda que demore um pouco mais do que deveria, em algum momento da história teremos condições de reverter o quadro sombrio. A história dos povos é sempre dinâmica, pois a história é dinâmica. A tese do ‘se tudo se mantiver constante’ não se coaduna com a natureza da realidade, que é sempre mutável. A geografia é um dado da natureza, e a demografia também é um dado da realidade, conjuntamente com a nossa mentalidade histórico-cultural. Se podemos mudar pouco ou nada, hoje, sobre nossa geografia ou nossa demografia, podemos e devemos mudar a nossa consciência. Não tem custo físico algum.

 

Este texto, na verdade, já é um esforço neste sentido. O leitor, se for tocado pelas palavras e reflexões do texto, já estará iniciando individualmente esta mudança de consciência. E pode ser que seus amigos também comecem a refletir, seus parentes, e os parentes e amigos deles, e assim por diante, como numa onda. O quanto mais rápido for esta onda, mais rápido alcançaremos mudanças sociais, políticas, culturais, económicas e geopolíticas. Este é um chamado à ação. Pois, caso contrário, o único caminho é deixar-se absorver pelo ‘moedor de gente’ que é o Brasil, ou, imigrar, como tantos outros já fizeram, para a terra de um outro alguém.

 

A nossa terra ainda pode valer a pena.

 

Obrigado pela leitura!

 


 

Sasha van Lammeren

 

Jornalista, Mestre em Comunicação Política e Doutorando em Ciência Política

Liberal Clássico e promotor das ideias iluministas


 


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