Eleições Argentinas - Quem será eleito?
- Harpia Network
- 13 de nov. de 2023
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Ao passo que nos aproximamos do dia 19 de Novembro, quando se realizará o segundo turno das eleições presidenciais argentinas, aumenta-se a expectativa quanto ao futuro do país sul-americano, nesta que pode ser a mais consequencial eleição para os argentinos. Considerando esta importância, faremos a seguir uma pequena análise do atual cenário eleitoral e tentaremos vislumbrar um possível desfecho.

Sergio Massa (da coalizão peronista e progressista Unión por la Patria) é o atual ministro da economia da Argentina, o que para muitos significa uma desvantagem. O país amarga uma inflação na casa dos três dígitos, em torno de 138%. Além disso, o peso argentino desvalorizou-se 22% frente ao dólar norte-americano, com 1 dólar equivalendo 350 pesos. Quase metade da Argentina vive na linha da pobreza (40%), enquanto indicadores como o PIB sugerem recessão (queda de 4,9% no 2º trimestre de 2023).
Em termos de propostas, Massa aposta na indústria argentina e nas commodities como forma de incrementar a economia e expandir o nível de riqueza bruta no país. No entanto, sendo ele o atual gestor da economia argentina, fica difícil emplacar um discurso positivo no meio de resultados tão negativos.
Javier Milei, deputado desde 2021 e membro da coalizão de direita e libertária La Libertad Avanza, é considerado um candidato 'outsider'. Vindo do setor privado ao invés da vida política, Milei tem propostas radicais para resolver os problemas argentinos. Segundo ele, caso seja eleito, iniciarão um processo de 35 anos de reformas que irão mudar a Argentina para sempre. Entre as medidas estão as seguintes:
Diminuição drástica do setor público e um forte ajuste fiscal;
Reforma do sistema de pensões aos aposentados (geracionais), assim como, reformas nos sistemas de saúde, educação e segurança.
Acabar com o Banco Central Argentino e Dolarizar a economia do país (ou seja, acabar com o peso e adotar o Dólar como moeda nacional). Milei já anunciou Emilio Ocampo como futuro 'último' presidente do Banco Central, caso seja eleito. Emilio é conhecido por defender a dolarização da Argentina.
Milei também defende propostas similares as de Bolsonaro quanto a segurança pública, como a liberação do porte de armas e a militarização das prisões do país.
Visto com desconfiança por boa parte do establishment argentino e mundial, Milei representa uma ruptura maior do que Macri foi em 2015. Mauricio Macri, candidato da direita liberal, venceu Daniel Scioli com 51% dos votos, encerrando um ciclo de 12 anos de kirshnerismo na Argentina. No entanto, ao perder em 2019 para Alberto Fernandes (peronista e cuja vice era a própria Cristina Kirchner), a 'ruptura' parecia ter chegado ao fim.
Nos últimos anos, o governo progressista de Fernandes gerou uma das mais calamitosas situações económicas no país, de modo que dentro deste contexto a candidatura de Milei representaria uma ruptura muito maior do que Macri representou em 2015. Seria uma ruptura de sistema, não de programa económico.
Situação eleitoral - Contexto

Javier Milei tem ligeira vantagem, rondando uma média de 45,2% das intenções de voto. Já Sérgio Massa ronda uma média de 43,1%. A diferença entre ambos é de 2,1 pontos percentuais.
Quanto a rejeição, Milei é o mais rejeitado com 57,3% dos eleitores argentinos tendo uma opinião negativa sobre ele, enquanto Massa é rejeitado por 56,4% (também bastante elevado). Neste sentido, embora Milei seja razoavelmente mais rejeitado, fato é que as duas opções parecem não ser aquilo que os argentinos gostariam de ter.

Vale considerar também que para os argentinos, o tema mais importante é a inflação (para 78% dos argentinos), seguido por corrupção (46%), insegurança (37%), situação económica (23%), educação (18%), impunidade (14%) e fraqueza da democracia (12%) – dados da Atlas Intel. No entanto, de acordo com a CB Consultora, quando perguntados em quem os argentinos 'nunca' votariam, 48% responderam Massa e 43% responderam Milei.

No primeiro turno argentino, a candidata Patricia Bullrich (do PRO, mesmo partido de Mauricio Macri) ficou em terceiro lugar, recebendo 23,8% dos votos (ou 6 milhões de votos). Milei recebeu 8 milhões de votos (29%) e Massa recebeu 9.8 milhões de votos (36%). Em quarto lugar ficou com o peronista Juan Schiaretti (6,7%) e no quinto lugar a socialista Myriam Bregma (2,69%).
Análise e Projeção
Entre os eleitores de Bullrich, 24% indicaram apoio a Milei no segundo turno (em torno de 1 milhão e 440 mil eleitores), contra 14% que sugeriram apoio a Massa (840 mil votos). Outros 19% dos eleitores de Bullrich estão indecisos (universo de 1 milhão e 140 mil votos), enquanto 42,1% indicam que votarão branco ou não irão comparecer as urnas (universo de 2 milhões e 526 mil eleitores).
Entre os votos brancos e nulos do primeiro turno (cerca de 500 mil eleitores), 22% indicam voto em Massa e 16% em Javier Milei, estando 10% indecisos. Isso nos deixa com a seguinte conta:
a). Votos potenciais para Milei: 1.520.000 eleitores já declarados
b). Votos potenciais para Massa: 950.000 eleitores já declarados.
c). Votos indecisos: 1.190.000 eleitores
Se Massa recebeu 9.8 milhões de votos no primeiro turno, ele pode subir para 10.750.000 votos entre os potenciais já declarados. Milei, por sua vez, pode subir dos seus 8 milhões para 9.520.000 votos potenciais. Se todos os indecisos gerais e da Bullrich votarem em Milei, ele pula para 10.710.000 votos. Ainda não sendo suficiente, contudo, para bater Sérgio Massa, que já teria uma base sólida de 10.750.000 votos.
Considerando que a plataforma de Milei é o que mais radicalmente aposta em mudanças na economia, na segurança pública e no combate a corrupção estatal, não é de se surpreender que seu apoio seja massivo. No entanto, uma vez que todo o establishment argentino se unificou contra Javier Milei, e considerando que Sergio Massa possui apoio do atual governo (e da máquina estatal), também não é surpresa que o mesmo tenha conseguido (a despeito dos resultados económicos) ir para o segundo turno com chances de ser eleito.
Em minha análise, portanto, tendo em vista os votos convertidos de Patricia Bullrich e dos indecisos, parece que Sérgio Massa será eleito presidente da Argentina no dia 19 de Novembro de 2023. No entanto, Javier Milei representa uma grande força política opositora e que poderá absorver forças conservadoras e liberais nos próximos anos (em especial se a economia argentina piorar). Tendo em vista que no compilado de pesquisas eleitorais Milei aparece com ligeira vantagem sobre Massa (45% x 43%), não é possível dar a certeza da vitória do Ministro da Economia argentina. Se Milei conseguir mais votos indecisos e brancos totais, é possível que consiga superar a base declarada de apoio de Massa.
Logo, numa margem de votos que rondam os 10.710.000 e 10.750.000 votos, fica evidente que a disputa será voto a voto. O que podemos fazer é procurar algum paralelo nas eleições anteriores (em especial a de 2015, quando Mauricio Macri saiu vitorioso).
Resultado do segundo turno de 2015, onde Macri (amarelo) saiu vencedor

Resultado do primeiro turno em 2023, onde Massa (azul), Milei (roxo) e Bullrich (amarelo) foram os mais votados

A batalha eleitoral se dará, de acordo com os mapas acima, na região de Buenos Aires (destacado abaixo).

Se tudo se mantiver constante, considerando que Macri e Milei teriam a mesma base eleitoral, é em Buenos Aires que o pleito será decidido. A província de Buenos Aires é a mais populosa da Argentina (38% da população inteira do país vive nesta região) e, não por acaso, ela foi decisiva na vitória de Macri em 2015 e na de Fernandez em 2019.
Me parece que esta eleição será tão ou mais acirrada quanto foi a brasileira de 2022. O vencedor terá de vantagem ao segundo colocado no máximo 3% dos votos, podendo na verdade ser eleito numa margem menor do que 1%. Ainda faltam 6 dias para o dia da eleição, e tudo pode mudar. Neste momento, não é possível bater o martelo e afirmar quem será eleito. Mas eu diria que, considerando o contexto eleitoral, as pesquisas e o histórico, Javier Milei tem uma ligeira vantagem sobre Sérgio Massa. Se ela vai se converter em vitória ou não, só o tempo dirá.
Obrigado pela leitura!
Sasha van Lammeren
Jornalista
Mestre em Comunicação Política
Doutorando em Ciência Política

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