O DIA DA INFÂMIA
- Harpia Network
- 8 de nov. de 2024
- 19 min de leitura
Como Donald Trump voltou ao poder nos Estados Unidos da América
07 de Novembro de 2024
INTRODUÇÃO
05 de Novembro de 2024. Donald Trump conquistava a maior parte dos votos necessários na Geórgia e na Pensilvânia, dois estados-chave para a Casa Branca, tendo ainda vantagem em todos os demais estados-chave. A realidade se impunha. Não havia mais o que fazer: Trump estava de volta. Foram quatro anos, desde que Trump perdeu a corrida de 2020 contra Joe Biden, para que este momento acontecesse. Depois de uma tentativa de insurreição contra o Capitólio em 06 de Janeiro de 2021, depois de ter sido condenado por fraude fiscal em Nova Iorque, depois de ter feito a campanha mais negativa e suja da história dos EUA e depois de ter levado um tiro, o homem consegue retornar ao cargo mais importante do planeta Terra e com o programa de governo mais autoritário possível.
O Partido Democrata fará agora o trabalho de procurar por culpados pela campanha malsucedida de Kamala Harris à presidência. Muitos dedos serão apontados e um sentimento de revolta tomará conta. Mas mais importante do que apontar dedos ou se revoltar pelo resultado final, precisamos compreender como, porque e de onde veio esta vitória que nenhum analista conseguiu ver. Sim, o pleito estava acirrado. Isso era reconhecido. Mas grande parte dos modelos estatísticos e estudos eleitorais indicavam que Harris tinha mais chances de ser eleita do que Trump. Foi o que disse Allan Lichtman, respeitado professor de história norte-americano e criador das 13 Chaves para a Casa Branca que previu corretamente 9 das últimas 10 eleições presidenciais no país. Para ele, não havia dúvidas, Kamala seria eleita.
James Carville, ex-diretor de campanha de Bill Clinton nas suas duas bem-sucedidas candidaturas e criador do mote ‘é a economia, estúpido’, também previa que Harris seria eleita. Ann Selzer, famosa pesquisadora eleitoral do estado de Iowa e conhecida por ser o ‘padrão ouro’ das pesquisas eleitorais por sempre ser certeira, errou as intenções de voto em seu estado. Nate Silvers, famoso estudioso de estatística eleitoral, realizou mais de 80 mil simulações e em pelo menos 50,5% delas Harris era vencedora. Eu mesmo, autor deste texto, que acertei em 2016 a vitória de Trump e em 2020 a de Biden, errei em 2024. Todos nós apostamos em Kamala Harris e de algum modo, Trump nos surpreendeu, vencendo não apenas no colégio eleitoral, mas também no voto popular.
O que aconteceu? É o que todos se perguntam. É o que eu me pergunto incessantemente desde o anúncio dos resultados. Neste texto, é precisamente isso que procurarei responder. Para tanto, iremos fazer uma análise do histórico eleitoral de Donald Trump em 2016, 2020 e agora, 2024. Iremos comparar com os modelos e as análises utilizadas na nossa própria previsão, publicada em 31 de Agosto de 2024, e buscaremos compreender a realidade entre os dados presentes e as teorias da ciência política contemporânea. Pois o que aconteceu, na verdade, está acontecendo. Terá ramificações nas próximas eleições dos EUA (2026 e 2028). E terá impacto na brasileira.
PARTE I
O Eleitorado de Trump
Historicamente, se lembrarmos do pleito de 2016 quando Trump venceu Hillary Clinton no colégio eleitoral, grande parte de seus votos foram puxados pelos trabalhadores de fábrica (os ‘Blue-collar worker’) do Cinturão da Ferrugem (o Rust Belt States). Trabalhadores que perderam seus empregos ou estavam com eles ameaçados nos estados de Michigan, Wisconsin e Pensilvânia. Foi o que fez toda a diferença. Se Hillary tivesse mantido estes estados com o Partido Democrata, ela teria sido eleita. A seguir, vamos analisar os mapas eleitorais e as demografias entre os pleitos de 2016 até 2024.
O mapa eleitoral de 2016:


Portanto, em 2016 ficou claro que o eleitorado masculino, branco, acima dos 50 anos de idade e menos escolarizado foi o que votou em peso no republicano Donald Trump. Em 2016, votaram um total de 136 milhões (2) de norte-americanos.
Vejamos agora como isso se reproduziu em 2020.


Em 2020, embora Trump tenha perdido para Joe Biden, observa-se um ganho considerável entre os eleitores hispânicos, mulheres e jovens (dos 18 aos 29 anos de idade). A pequena perda frente aos homens pode ter favorecido Biden, numa eleição que teve um recorde de eleitores: um total de 158 milhões. A recuperação do Rust Belt States e o ganho na Georgia e Arizona foi o que coroou Joe Biden como presidente.
Agora, o que podemos dizer que mudou entre 2020 e 2024? Um consórcio de empresas de comunicação norte-americanas fizeram um levantamento com os dados mais recentes da eleição deste ano nos estados-chave. Os resultados preliminares estão abaixo. Mas antes, aqui está o potencial mapa eleitoral final de 2024:


Como observado, se o eleitor de Trump diversificou-se em 2020, com grandes ganhos entre os hispânicos, mulheres e jovens, a tendência manteve-se para 2024, incluindo os ganhos entre os negros. O eleitor de Trump, portanto, é ainda mais diverso do que era em 2020, embora mantenha a base de homens, brancos, acima dos 50 anos de idade e pouco escolarizados. Estudos preliminares sugerem que o número total de eleitores presentes nesta eleição foi de 140 milhões de eleitores. Bem menos do que em 2020, mas ainda superior ao total de eleitores de 2016.
Vale ainda considerar o número total de votos por candidato:

Como se observa, Donald Trump nunca ‘perdeu’ eleitorado, mas vem aumentando sua base eleição após eleição. Em 2020, ele foi o presidente em exercício mais votado da história, perdendo para Joe Biden, que no mesmo ano foi o presidente eleito mais votado da história. Em 2024, os resultados preliminares sugerem que Trump manteve a mesma base de eleitores, diversificando-a mais, ao mesmo tempo em que Kamala Harris teve muito menos voto do que Joe Biden (13 milhões a menos).
Para aonde foram estes 13 milhões de votos, é um mistério. Em 2020, estavam registrados para votar um total de 168 milhões de eleitores (e compareceram as urnas um total de 158 milhões). Em 2022 (eleições legislativas gerais), o número de eleitores registrados nos EUA era de 161 milhões [6] (8 milhões a menos do que 2020). Mas em 2024, sugeriu-se que haviam novos 18 milhões [7] de eleitores que somaram-se aos de 2022. Portanto, um total de 179 milhões de eleitores registrados e aptos a votar. Neste sentido, se apenas 140 milhões até agora votaram e considerando que cheguemos até, no máximo, 145 milhões, então 34 milhões de eleitores não compareceram as urnas.
Isso nos revela que, enquanto Donald Trump foi capaz de manter sua base e diversifica-la ainda mais, o Partido Democrata não foi capaz de aumentar sua base e, ainda pior, acabou perdendo o que Joe Biden havia conquistado em 2020. Isso revela uma verdadeira crise de sustentabilidade política por parte do Partido Democrata e um fortalecimento do trumpismo e do Partido Republicano nacionalmente, algo que não estava sendo observado pelas pesquisas de intenção de voto.
Soma-se a isso outra interpretação válida. Talvez o Partido Democrata não tenha perdido eleitores frente a 2020, mas mantido o que já tinha organicamente desde 2016 sem ter tido sucesso, em 2024, de engajar novos eleitores como Biden conseguiu em 2020. Isso revelaria que enquanto Trump aumenta o seu poder e influência, os Democratas lutam muito para conseguir expandir sua base eleitoral. A narrativa e o discurso do partido não tem surtido o efeito necessário, e a falta de candidatos ‘totem’, carismáticos o suficiente para representar uma nova visão de futuro, pode ser considerado também um outro problema estrutural por entre os Democratas.
OBS: Outro elemento importante de ser citado é o modo como o Partido Democrata descartou Joe Biden depois do fatídico debate entre ele e Trump em Junho de 2024. Se eles não tinham confiança em seu candidato, o ideal seria ter feito primárias e deixar o Partido escolher um nome competitivo. Mas não, esperaram até o último momento, o apoio a Kamala não foi imediato mas construído ao longo de uns dias e ela teve muito menos tempo para organizar uma mensagem de campanha do que Biden, que era o candidato desde o começo do ano. Isso pode ter afastado potenciais eleitores do Partido, que perderam confiança na chapa e na sigla, neste ciclo.
PARTE II
O que aconteceu?
Há muitas razões para se explicar o que aconteceu. Uma delas, a mais falada desde o dia 05 de Novembro, foram as pautas dos eleitores norte-americanos. Segundo pesquisas de boca de urna (as Exit Polls [8]) entre os eleitores registrados, os quatro temas mais importantes para o eleitor eram, nesta ordem: democracia (34%), economia (31%), aborto (14%) e imigração (11%). Números que sugerem temáticas pró-democrata mais importante do que temáticas pró-republicanos.
No entanto, uma pesquisa realizada em Outubro deste ano, indicou algo diferente: Economia era extremamente importante para 52% dos eleitores, Estado da Democracia extremamente importante para 49%, Terrorismo e Segurança Nacional (para 45%), escolha de novos ministros da Suprema Corte (45%), Imigração (41%), Educação (38%), Saúde, política de armas e aborto (37% cada) e finalmente, impostos (36%).[9]
Destes temas principais, Donald Trump era favorecido em economia, imigração e segurança nacional. Enquanto Kamala Harris era favorecida em democracia, suprema corte, política de armas e aborto. Na comparação, os temas da economia, imigração e segurança nacional eram mais importantes de modo geral aos eleitores do que os demais. Isso explica, em parte, porque Donald Trump venceu este ciclo eleitoral. As exit polls criaram uma ‘miragem’ pró-Democrata que não era verídica.
Mas mais do que isso, se juntarmos a pouca adesão dos eleitores em favor de Kamala Harris, veremos que nos estados-chave ela teve muito menos impacto do que Joe Biden quatro anos atrás. Por exemplo, na Pensilvânia, Biden obteve um total de 3.459.923 votos, contra Harris que obteve este ano (até agora) um total de 3.342.938. Uma diferença de 116.985 votos. Diferença essa tirada nos centros urbanos. Na Filadélfia (metrópole do estado) Biden teve 81% dos votos, e Kamala obteve menos, 78%. Em números de eleitores, isso representa uma diferença de menos 51.248 votos (até a escrita deste artigo). Ou seja, só na cidade de Filadélfia ela perdeu metade dos votos necessários para bater Donald Trump num estado-chave, que daria a ela 16 votos do colégio eleitoral. Coisa parecida aconteceu em Michigan, Wisconsin, Geórgia e Carolina do Norte. A tabela a seguir mostra a diferença em percentagem de 2020 para 2024:

O que diziam as pesquisas na véspera da eleição?

Como pode ser observado, os estados da Carolina do Norte e Geórgia tendiam bem a Trump, indicando uma variação positiva acima de 1%. Mas todos os estados do ‘cinturão da ferrugem’, os Rust Belt States aonde Joe Biden venceu em 2020, indicavam empate técnico. Com vantagem ligeira para Harris em dois destes estados.
Considerando a taxa de rejeição nacional, Trump era rejeitado por 54% dos eleitores e Harris por 50%. Neste sentido, ela era mais ‘elegível’ do que Trump. Este elemento, somado ao histórico Democrata em 2020 e as pesquisas de intenção de voto, sugeriam que Kamala Harris tinha maiores chances de manter os Rust Belt States com ela do que Trump virar os estados para si. Era o que Nate Silvers sugeria em seus modelos.
A força da incumbência
Allan Lichtman em seu famoso sistema das ‘Treze Chaves para a Casa Branca’, formulou um processo de análise que leva em consideração dados históricos das eleições norte-americanas e os pontos cruciais que impactam na escolha final do eleitor. Ele chegou a conclusão de que há treze elementos que, quando analisados como um referendo do Partido ou Presidente incumbente, podem revelar se o eleitor irá favorecer a estabilidade ou se irá pedir por uma mudança (tremor) no sistema.
Quando cinco ou menos chaves são falsas, o partido incumbente vence. Quando seis ou mais são falsas, o partido opositor prevalece. As treze chaves (ou premissas) são:
1. Ganho do partido incumbente nas eleições de metade de mandato no Congresso;
2. Não há disputa interna pelas primárias eleitorais no partido incumbente;
3. O Presidente incumbente procura por reeleição;
4. Não há um terceiro partido desafiador; (Terceiro candidato com mais de 10% de votos)
5. Forte economia em curto prazo; (Sem recessão no ano da eleição)
6. Forte economia em longo prazo; (Crescimento real acima da inflação no mandato do presidente)
7. O presidente incumbente fez grandes mudanças políticas em seu governo; (Quando comparado ao governo anterior)
8. Sem revoltas sociais durante o mandato incumbente; (Revoltas como as de 2020 ou anos 1960)
9. Não houve grandes escândalos referente ao presidente; (Ex: Watergate).
10. Não houve grande falha militar ou internacional da parte do presidente;
11. Houve grande vitória militar ou internacional da parte do presidente;
12. O candidato é carismático; (Ou seja, possui grande reconhecimento público ou o status de herói, como JFK, FDR, Lincoln etc.).
13. O candidato opositor não é carismático;
Estas chaves, quando analisamos o governo Biden, ficaram assim:

Placar: cinco chaves falsas. Significando vitória do Partido incumbente (Democrata).
Se juntarmos os dados estatísticos, históricos e a força da incumbência neste pleito de 2024, tudo sugeria uma vitória de Kamala Harris. Portanto, o que pode ter dado errado? Porque Lichtman errou em sua previsão e porque os dados criaram uma ‘miragem azul’ no mapa eleitoral norte-americano?
PARTE III
Compreendendo o que deu errado
Vamos começar pelas chaves do Prof. Allan Lichtman. Ainda que a classificação de todas as chaves seja objetiva, em 2024 é possível que a percepção do eleitor, mais do que a realidade, tenha tido um impacto na interpretação das chaves. Em especial nas referentes a política internacional e a economia de curto-prazo. Os EUA possui, de fato, uma inflação elevada, porém bem controlada. Entre 2020 e 2024, a inflação subiu cerca de 21,8% no acumulado (o equivalente a 0,36% ao mês). Mas isso foi em todos os países, especialmente devido ao pico causado pela guerra da Ucrânia. Por exemplo, os EUA [9] conseguiu baixar do pico de 9,1% em Junho de 2022 para 2,4% em Setembro de 2024. Comparando com o Reino Unido [10], cujo pico foi de 9,4% no último trimestre de 2022, hoje está em 2,9% temos que os EUA tem uma inflação menor do que a britânica. Observe a tabela abaixo na comparação com outros países:

Afirmar que a inflação tornaria a chave da economia de curto prazo em falso não condiz com a definição da chave, pois objetivamente ela diz respeito a recessão, não a inflação. Logo, como podemos explicar o comportamento do eleitor norte-americano frente a economia neste cenário?
O eleitor de Trump não se resume aos trabalhadores de fábrica e suas famílias. Ele vai (muito) além disso. Em ‘Cultural Backlash’ (2019), Pippa Norris e Ronald Inglehart explicam que os movimentos de Trump em 2016, do Brexit no mesmo ano e das demais direitas representam uma reação cultural do neoconservadorismo as pautas identitárias progressistas. Ou seja, as sociedades ocidentais ricas, tendo avançado nas pautas materialistas (como bem-estar social, segurança, saneamento básico etc.), agora voltavam-se cada vez mais a aspectos de costumes e comportamentos. A revolução cultural dos anos 1960 representou o primeiro processo deste movimento (progressista). Hoje, estaríamos vivendo o seu segundo processo (antiprogressista).
Isso é importante em nossa análise porque diz respeito a ‘percepção’ da realidade, em detrimento da realidade em si mesma. Se um eleitor latino (hispânico, pela classificação norte-americana) sente que o seu salário não rende tanto quanto no passado, e que ao mesmo tempo Trump representa os seus valores mais conservadores (família tradicional, cristão etc.), então mesmo que ele esteja ganhando e pagando as contas, a percepção da inflação vai fazer com que ele rejeite o incumbente e que vote no candidato que mais representa a sua identidade cultural. O mesmo se verifica na arena internacional. Se o eleitor acredita que Biden é responsável pela guerra da Ucrânia e pelo temor de uma guerra de larga escala, então essa percepção (ainda que não baseada na realidade), implicará que a chave da política externa se torne verdadeira para a falha.
Portanto, a questão identitária cria um véu pós-materialista que enviesa a interpretação da realidade e faz com que os dados objetivos da política concreta não tenham o mesmo efeito que deveriam ter. É como se fosse uma ‘segunda’ política em cima da primeira. Não importa o que Trump diz ou faz, importa apenas o ‘totem’ que ele representa para uma camada da população que se identifica com os valores daquela narrativa.
A economia pode estar objetivamente em bom estado, mas se ela não é percebida assim, isso terá impacto. Em 2020, a pandemia teve grande impacto pela forma como a crise foi tratada pelo governo Trump, que foi punido eleitoralmente por isso. Em 2016, Hillary iria perder porque a incumbência estava enfraquecida (sem vitória nas eleições de meio de mandato, sem grandes mudanças em termos de política pública e sem grandes vitórias internacionais).
Neste sentido, pode-se afirmar que a vitória de Trump em 2024 possui um elemento pragmático e um elemento identitário interrelacionado. Dizer que o ex-presidente voltou a Casa Branca apenas por conta da economia seria um erro. O eleitorado de Trump nunca diminuiu de tamanho. Manteve-se sempre crescente. Desde 2016 Trump aumenta o apoio que recebe entre os latinos, negros, mulheres e jovens. Em 2020, Trump facilmente venceria o pleito, se não fosse o engajamento causado pelas grandes manifestações dos direitos dos negros (Black Lives Matters) e pela corrosão económica causada pela pandemia. Tirando isso, o eleitorado de Trump fortaleceu-se de 2016 para 2020. Neste ano, 2024, Trump buscou o apoio dos homens mais jovens através do podcaster Joe Rogan e do apoio de Elon Musk, popular entre entusiastas do espaço e das tecnologias futuristas.
Logo, o que ‘deu errado’ nas análises de todo mundo foi que existia de fato uma miragem pró-Partido Democrata e pró-Kamala Harris que sugeriu uma realidade falsa. Se Trump cresceu pouco em relação a 2020, então foi o Partido Democrata e sua candidatura que não engajou o público a ponto de contrabalançar a força do trumpismo. Em 2024, Kamala Harris teve uma performance pior do que Hillary em 2016 e infinitamente pior do que Biden em 2020. E desconfio que Biden não venceria em 2020 se não fosse a pandemia e as crises de direitos civis. O que deu errado foi a compreensão de que a força de Donald Trump transcende as questões materiais e está embasada, fundamentalmente, em questões imateriais (identitárias), que no contexto certo, garantem o sucesso eleitoral. Mas isso por conta dele, da figura Donald Trump.
PARTE IV
Conclusão e o Futuro Eleitoral Norte-Americano
Vamos, antes de tudo, resumir o que descobrimos nesta investigação:
1º. Trump tem como base eleitoral homens brancos, acima de 50 anos e pouco escolarizados.
2º. Trump manteve esta base e a expandiu, alargando sua influência entre mulheres, negros, latinos, eleitores com ensino superior e jovens até os 29 anos de idade.
3º. Seu movimento (o MAGA) mantém-se unido e forte independente do que Trump diz, promete ou sugere. O importante é que as pautas identitárias estejam em consonância com as pautas pragmáticas (que foi o que aconteceu em 2024). São pautas identitárias:
a). A família tradicional;
b). A cosmovisão cristã-conservadora;
c). Alguns elementos de xenofobia moderada a radical misturada com segurança;
d). Nacionalismo Ufanista;
e). Unilateralismo internacional;
4º. O eleitor norte-americano escolheu, conscientemente, punir Trump e seu movimento em 2020 por conta da questão dos direitos civis, da pandemia e da errática liderança do presidente frente a um problema de caráter global. Mas esta punição foi naquele momento. Não significou um rompimento.
Em 2016, 2020 e 2024, uma considerável parcela da sociedade norte-americana apoiou Trump e seu movimento por uma razão simples. A globalização criou uma percepção generalizada de que os EUA estava perdendo os seus valores, tornando-se uma sociedade roubada pelas elites políticas e internacionais. Trata-se de um sentimento de traição e ressentimento, como se as elites mediáticas, políticas e estrangeiras se aproveitassem do trabalhador norte-americano. Essa percepção é a base, o coração e o espírito do trumpismo, que é em essência um movimento de ‘resgate’.
Considerando o fato identitário forte do trumpismo e sua intersecção com o pragmatismo percebido, concluímos que o que levou Trump a vencer é a transformação cultural que seu movimento representa no seio da sociedade norte-americana. Os EUA é, fundamentalmente, uma sociedade muito ressentida. E Trump representa, como um totem, este ressentimento. Quando ele diz que irá ‘limpar Washington’ da influência dos Democratas, é isso mesmo que o eleitor quer. Quando ele diz que irá ‘favorecer as empresas nacionais frente as estrangeiras’, com tarifas de importação, é isso que os eleitores querem. Quando ele diz que irá trazer paz ao mundo usando o poderio norte-americano, é também isso que os eleitores querem. Ele foi eleito precisamente pelo que representa, pelo que promete e pelo que tende a fazer.
O sucesso do Partido Democrata em 2020 e parcialmente nas legislativas de 2022 se deu unicamente pelas circunstâncias. A adesão do norte-americano ao trumpismo não é por causa de Donald Trump em si, mas sim pelo que ele lidera. Em 2020, Joe Biden foi capaz de liderar uma grande coalizão que rejeitou a liderança de Trump frente a pandemia e a questão dos direitos civis, demonstrando que quando o eleitor quer punir ou rejeitar Trump, ele o faz. Isso sugere, também, que o eleitor norte-americano não está preso ou inteiramente dependente de Donald Trump.
Há, realmente, um ‘culto’ a personalidade por parte de alguns membros do movimento. O que é relativamente novo na política norte-americana. Mas a grande maioria não segue Trump como ‘líder messiânico’, mas sim como ‘o líder que se tem’. Há uma diferença fundamental nisso. Sim, ele está associado a um conjunto de valores tipicamente conservadores dos EUA. Ele imbui em si esta capa. O problema do Partido Democrata é que eles não tem um ‘Trump’ para chamar de seu. Um ‘Trump’ que represente valores mais progressistas, mas ao mesmo tempo, nacionalistas.
Bernie Sanders é talvez a melhor representação do que o Partido Democrata poderia utilizar como fórmula para o seu totem. Enquanto os Democratas procurarem candidatos tradicionais, establishment, continuarão a sofrer pesadas derrotas a partir do movimento MAGA (com ou sem Trump). A escolha consciente dos americanos por Biden em 2020 foi um recado a Trump, mas não uma rejeição. Do mesmo modo, se nos próximos quatro anos Trump não conseguir entregar aos seus eleitores a ‘América grande’ que propõe, e se o Partido Democrata tiver um candidato competitivo e que entende o que está por trás do movimento, ai sim poderemos ter um pleito com maior participação, com maior engajamento e com competitividade além dos estados-chave.
O que ficou fora do radar dos analistas – eu incluso – foi esta fundamental transformação politico-cultural dos EUA, cujo movimento MAGA e Donald Trump são os primeiros (mas não últimos) representantes. Se interpretarmos a cena política norte-americana pelo olhar tradicional, dos Republicanos estilo Reagan e Bush e dos Democratas estilo Clinton e Obama, iremos sempre ver meia verdade. É claro que as visões tradicionais de ambos os partidos, imbuídos na sociedade americana, ainda existem de diferentes formas. Porém, o que emergiu com o trumpismo a partir de 2016 foi um reclame cultural profundo.
Se os EUA do pós-Guerra Fria era uma América aberta ao mundo, engajada nas instituições internacionais e preocupada em expandir sua influência multilateral, esta América sofreu um primeiro ‘baque’ com o 11 de Setembro de 2001, que veio lembrar que eles não são o ‘fim’ da história (como sugerido por Fukuyama em seu livro de 1992, The End of History and the Last Man). O segundo ‘baque’ veio na crise dos subprimes de 2008, que marcou o fim do governo Bush e o começo do governo Obama. Para o americano médio, estes dois eventos significaram que o mundo os rejeitam ou os fazem de bobos, e que as elites internas também os rejeitam ou os fazem de bobos. Daqui vem o sentimento de abandono, de ressentimento e de rejeição a tudo o que é vendido como ‘moderno’.
Culturalmente falando, isso se transferiu para uma visão conservadora de sociedade que busca trazer de volta uma América não submissa, nem as elites internacionais e nem as elites internas. As comunicações verticais (isto é, que saem do emissor para o receptor diretamente), como a TV, cinema ou as rádios, serviram bem para manter a estrutura pós Segunda Guerra até o fim da Guerra Fria. Mas com o advento da Internet e das redes sociais (ou seja, das comunicações horizontais, não hierarquizadas), o ressentimento pode ganhar tração e voz. E foi esta estrutura que deu vazão ao trumpismo como o conhecemos. Obama foi o primeiro presidente que usou a Internet de forma profícua. Mas Trump foi o primeiro que surgiu, enquanto ideia, da Internet. Embora Trump em 2016 estivesse em guerra com as redes sociais mais progressistas, a compra do Twitter por Elon Musk e a fundação da sua própria rede social, a Truth Social, mudou esta relação. Agora, a ‘liberdade de expressão nas redes’ é parte do seu discurso.
Trump sempre foi um homem ambicioso e sempre teve a intenção de ser presidente dos EUA. Para ele, isso é um jogo de ego, um jogo comercial e também um jogo de poder. Aproveitando o vácuo de liderança deixado no Partido Republicano pós-Bush, e percebendo a necessidade deste ressentimento ser direcionado, Trump construiu a sua plataforma inteiramente como representante desta mentalidade cultural que busca uma maior altivez social e individual. Os americanos não querem ser reféns dos bancos, ou das ‘medias fake news’, ou das elites estrangeiras que ‘aproveitam’ o Dólar para seu próprio benefício. Não, eles querem a América para eles, os americanos. Do mesmo modo, eles não querem que decidam o género de seus filhos, ou que a escola ensine sobre racismo a suas crianças. Eles querem ter a liberdade de ensinar a seus filhos os seus próprios valores e interpretações de mundo.
Biden, em sua plataforma económica, utilizou muito das propostas e discurso de Trump para reindustrializar os EUA. Do ponto de vista económico, o Partido Democrata espelhou o Partido Republicano. Do mesmo modo, na política externa, muito das pautas Republicanas e Democratas se assemelham. A única diferença é na realização do objetivo. Se os Democratas acreditam nas alianças internacionais, os Republicanos tendem a dar prioridade a liderança isolada dos EUA (podendo, ou não, atuar com as alianças). Se os Democratas enviam dinheiro para a Ucrânia visando impedir que Putin avance, os Republicanos preferem resolver o problema antes de ter de enviar dinheiro, armas ou tropas para qualquer lugar. Essa é a visão ‘pacifista’ dos Republicanos.
Essencialmente os Democratas e Republicanos se diferem no discurso social e cultural. E é por isso que Trump está tão mais forte do que os Democratas. Pois o lado progressista está dividido entre pautas. Abandonaram os trabalhadores, focam em discursos identitários pouco abrangentes e não conseguem fazer as pazes com a tecnologia e o futurismo. Em outras palavras, os progressistas americanos (de centro até o mais esquerdista), não estão em sintonia com os EUA do Século XXI. Por isso, concluindo, temos diante de nós uma dinâmica bastante evidente.
Temos Trump e seu movimento, que quer alterar o establishment por inteiro e ‘retornar’ a um ponto de origem quando os EUA não era humilhado ou subserviente as ‘elites’ estrangeiras e internas. E temos os Democratas, que querem manter o establishment e as elites, pois isso os garantiu por muitos anos controle do discurso e da narrativa. O problema é que sem uma reforma ou inovação no modus operandi, os Democratas só voltarão a Casa Branca quando os Republicanos falharem. Ou seja, ao contrário de John F. Kennedy, Franklin Roosevelt e Bill Clinton que representaram um Partido Democrata propositivo, hoje temos um Partido Democrata reativo aos Republicanos. E isso tende a se manter nas próximas eleições, até, pelo menos, 2032.
Porque embora os Democratas tenham propostas: o Green New Deal, a luta pela questão climática, pelos direitos das mulheres, pelo multilateralismo internacional, pela defensa de valores como a democracia etc., estas pautas não estão ‘aglutinadas’ numa visão de mundo coesa. O MAGA oferece uma ‘visão de mundo’ clara. Os Democratas, ainda não. Este 5 de Novembro foi o dia da infâmia, pois foi o dia em que Donald Trump, depois de ter ferido a Constituição dos EUA no 6 de Janeiro, retornou ao poder com ampla vantagem. Mas este dia é também o marco zero para o começo de um novo entendimento acerca da política norte-americana e sua dinâmica interna e externa. Que o Partido Democrata tenha a capacidade e competência de compreender o que está acontecendo e se adaptar as mudanças culturais de sua sociedade.
E que os analistas agora vejam de forma mais clara que os métodos tradicionais de análise só funcionam quando há um ímpeto de punição ao movimento MAGA. Quando não há este ímpeto, o MAGA tende a ser favorecido por ‘default’ dos Democratas. Para que o jogo eleitoral norte-americano volte a ser compreensível por métodos tradicionais, será preciso um ‘MAGA’ democrata para contrabalançar o ‘MAGA’ republicano.
Obrigado pela leitura!
Sasha van Lammeren
Jornalista, Mestre em Comunicação Política, Doutorando em Ciência Política
Consultor e Analista Político Especializado
REFERÊNCIAS:
https://www.presidency.ucsb.edu/statistics/data/voter-turnout-in-presidential-elections
https://www.pewresearch.org/politics/2021/06/30/behind-bidens-2020-victory/
https://www.statista.com/statistics/273743/number-of-registered-voters-in-the-united-states/
https://www.cbsnews.com/video/what-voter-registration-data-says-about-2024-election-turnout/
https://news.gallup.com/poll/651719/economy-important-issue-2024-presidential-vote.aspx
https://www.bls.gov/charts/consumer-price-index/consumer-price-index-by-category-line-chart.htm
https://www.ons.gov.uk/economy/inflationandpriceindices/timeseries/l55o/mm23
https://www.statista.com/statistics/276319/monthly-inflation-rate-in-brazil/
BIBLIOGRAFIA:
Carville, J., & Greenberg, S. (2013). It's the middle class, stupid!. Plume Books.
Lichtman, A. J. (2024). Predicting the next president. Rowman & Littlefield Publishers.
Norris, P., & Inglehart, R. (2019). Cultural backlash: Trump, Brexit, and authoritarian populism. Cambridge University Press.

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