O Novo-Velho Mundo
- Harpia Network
- 23 de jan.
- 20 min de leitura
O redesenho da geopolítica internacional no século XXI
Por Sasha van Lammeren
Cientista político e membro do IPRI (Instituto Português de Relações Internacionais)
23 de janeiro de 2026
INTRODUÇÃO
A guerra é a continuação da política por outros meios. (Carl von Clausewitz)
Geopolítica é, em termos simples, o exercício do poder no espaço, envolvendo território, recursos, demografia e posição estratégica. Apesar dessa definição relativamente clara e concisa, muitos comentadores televisivos, articulistas e influenciadores de Internet frequentemente confundem geopolítica com relações internacionais ou com diplomacia. Trata-se de um erro conceitual comum que conduz, quase sempre, a análises equivocadas.
A arena internacional é complexa. As Relações Internacionais constituem um campo académico amplo, dedicado ao estudo do sistema internacional como um todo, abrangendo Estados, organizações internacionais, normas, guerras, cooperação, economia política internacional, identidades, crises e discursos. A diplomacia, por sua vez, refere-se à dimensão prática e operacional da política externa, isto é, ao conjunto de instrumentos e práticas por meio dos quais os Estados negociam, comunicam e defendem seus interesses no plano internacional.
A geopolítica condiciona, em grande medida, as possibilidades de ação de um Estado no sistema internacional, influenciando tanto a formulação de sua política externa quanto a sua prática diplomática. Neste sentido, o campo das Relações Internacionais existe precisamente para analisar como essas ações ocorrem, por que ocorrem e quais consequências produzem no teatro internacional.
Feita essa diferenciação e explanação, é fundamental que o leitor(a) tenha em mente alguns conceitos centrais. O primeiro é o de território. O mundo é marcado pela escassez relativa de recursos e espaços estratégicos, o que torna o controle territorial um elemento essencial do poder político. Esse controle pressupõe coerção e, consequentemente, a existência de um Estado capaz de exercê-la. Tal Estado pode assumir diferentes formas institucionais, democráticas, autoritárias, monárquicas ou republicanas. Em todo caso, o regime político não determina a existência do poder, mas influencia a forma como ele é exercido, legitimado e percebido internamente e externamente.
Dentro dos territórios controlados pelos Estados vivem sociedades compostas por indivíduos, culturas, identidades, línguas e trajetórias históricas diversas, cujos interesses nem sempre coincidem com os das elites governantes. É dessa tensão permanente entre poder, território e sociedade que emergem muitos dos conflitos centrais do sistema internacional contemporâneo.
No campo das Relações Internacionais, diferentes escolas teóricas oferecem distintos filtros de interpretação da realidade. Um mesmo evento pode assumir significados variados a depender do enquadramento analítico adotado. Por exemplo, a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, em 03 de janeiro de 2026, pode ser interpretada diversamente conforme a tradição teórica mobilizada, seja ela realista, liberal ou construtivista. Por isso, antes de avançar para a análise proposta neste artigo, é necessário compreender essas lentes interpretativas e o desenho da ordem global que se finda, tarefa à qual me dedicarei a seguir.
Parte I
Escolas de Relações Internacionais
O filtro interpretativo usado por um comentador público ou por um político não é, na maior parte das vezes, conhecido do leitor ou ouvinte. Por isso, apresento a seguir as escolas mais conhecidas das relações internacionais e quais são as suas principais linhas de pensamento. Deste modo, o leitor terá melhor capacidade de diferenciar as posições dos comentadores, como também aprofundar-se nas diversas teorias.
a). Escola Institucionalista (Liberal / Neoliberal)
A escola liberal, em sua vertente clássica e institucionalista, parte do pressuposto de que os Estados-nação, entendidos como a articulação entre território, população e autoridade política, são atores racionais inseridos em um sistema internacional composto por interesses dos Estados. Embora tais interesses possam ser conflituosos, essa tradição teórica sustenta que a cooperação entre Estados é possível e, em determinadas circunstâncias, racionalmente vantajosa, especialmente quando mediada por instituições internacionais. É a escola que favorece meios multilaterais de mediação, como a ONU, blocos regionais (União Europeia, Mercosul etc.) e grupos de interesse (G20, G7, BRICS etc.).
O neoliberalismo institucional, seguindo a lógica do liberalismo clássico, mas incorporando uma visão mais pragmática baseada em incentivos concretos, argumenta que instituições, regimes e normas internacionais reduzem incertezas, custos de transação e problemas de informação, tornando a cooperação mais estável mesmo em um sistema internacional anárquico. Nessa perspectiva, a cooperação não elimina conflitos, mas pode mitigar seus efeitos, favorecer a previsibilidade das interações internacionais e reduzir incentivos ao uso da força.
Hoje, a escola neoliberal é a mais mainstream entre as diplomacias do mundo ocidental e em muitas regiões da Ásia e do Pacífico. Considera-se que os organismos internacionais constituem os fóruns concretos e legítimos onde conflitos podem ser resolvidos pacificamente, via negociação e compromissos mútuos.
b). Escola Realista e Neorrealista
A escola realista considera os Estados-nação como atores soberanos, autônomos e motivados primordialmente pela sobrevivência e pelo poder. O controle do território, a segurança e a posição relativa em relação a outros Estados são suas principais preocupações. A cooperação entre Estados não é descartada, mas ocorre apenas quando serve aos interesses estratégicos e à manutenção do equilíbrio de poder.
O neorrealismo, desenvolvido posteriormente por Kenneth Waltz, mantém a centralidade do poder, mas enfatiza que o comportamento dos Estados é moldado principalmente pela estrutura do sistema internacional. Em um sistema anárquico, onde não há autoridade acima dos Estados, cada ator busca maximizar sua segurança e posição relativa, e os conflitos emergem de forma previsível dessa configuração estrutural, independentemente de intenções individuais ou de regimes específicos.
Ao contrário da escola liberal/neoliberal, os realistas e neorrealistas consideram que os fóruns internacionais são meios, não fins, para a cooperação entre Estados. Podem representar espaços de interação positiva para os interesses de determinados atores, mas não constituem, para eles, espaços naturais ou centrais de negociação. Nesse sentido, o realista sempre colocará maior ênfase no hard power (isto é, capacidade de coerção militar ou econômica) em comparação ao soft power, o poder de influenciar.
c). Construtivismo
A terceira escola mais conhecida entre operadores de RI é o construtivismo, que parte da ideia de que os Estados-nação não são determinados apenas por fatores materiais, mas também por dimensões imateriais, como história, símbolos, normas e identidades coletivas. Um exemplo ilustrativo dessa lógica é o Estado do Vaticano.
O poder do Vaticano não se apoia no território ou em interesses econômicos e geopolíticos tradicionais, mas em sua autoridade simbólica e influência normativa global. Sua função é intermediar relações humanas e religiosas em escala mundial, representando 1,4 bilhão de católicos. A Santa Sé, enquanto representação do Estado, coincide com a liderança da Igreja Católica, encarnada pelo Papa.
O construtivismo não é opositor ao institucionalismo liberal e tampouco ao realismo, mas um complemento importante. Serve para enriquecer a leitura da realidade com base em parâmetros muitas vezes ignorados em negociações políticas e económicas. Em si mesmo, contudo, ele não é suficiente para explicar relações entre estados-nação complexos. Mas contribui na formulação de uma comunidade internacional mais aberta e mais desenvolvida.
d). Teorias críticas
Por fim, há também as chamadas “teorias críticas”, grande parte delas derivadas do marxismo enquanto filtro interpretativo das relações de poder. Fundamentalmente, tais teorias (que incluem o pós-estruturalismo, o neocolonialismo, o feminismo e a escola de Frankfurt aplicada a RI) partem do pressuposto de que há elites que determinam os interesses do Estado-nação e que estas elites não representam inteiramente as massas domésticas dos países.
O foco das teorias críticas, portanto, não é prever comportamentos ou otimizar cooperação, é revelar estruturas ocultas de poder, injustiça e dominação, muitas vezes ignoradas pelas abordagens tradicionais. Por exemplo, um realista vê o poder militar; um neoliberal, instituições internacionais; um construtivista, normas e identidade; já uma teoria crítica questiona quem se beneficia das regras, quem é marginalizado e como o discurso oficial sustenta hierarquias globais. O governo Lula, neste momento, advoga de boa parte das teorias críticas internacionalistas (como a lógica Sul-Sul e o do anticolonialismo), embora ainda seja profundamente institucionalista liberal.
Hoje, essas teorias são particularmente importantes em debates sobre:
o Relações Norte–Sul e desigualdade global
o Impacto histórico do colonialismo e imperialismo
o Questões de gênero, raça e representação política em escala internacional
o Crítica às narrativas dominantes sobre segurança, democracia e desenvolvimento
Qual é a minha posição enquanto estudioso e analista:
Como estudioso, é preciso ser capaz de fazer diferentes leituras a partir das diversas escolas. Ficar preso a apenas uma seria empobrecedor para o campo de estudo. Contudo, como analista e consultor, tenho minhas preferências teóricas que uso para interpretar a realidade. Tais escolhas não desvalorizam as demais escolas; pelo contrário, denotam uma escolha consciente de filtro analítico para interpretar o complexo xadrez internacional. Como o objetivo deste artigo é apresentar uma leitura analítica precisa e didática, passo a explicar a base da minha interpretação.
Fundamentalmente, sou um institucionalista neoliberal, pois acredito que o direito internacional e a cooperação existem como meios e fins de regulação das relações entre Estados-nação. Não ignoro que as Relações Internacionais são essencialmente anárquicas, isto é, sem uma autoridade suprema que coordene todos os países. Mas a ausência desse comando não significa desorganização; significa apenas que os atores se autorregulam por meio de tratados, interesses econômicos, fóruns internacionais, think tanks e lobbies diversos. Essa leitura constitui meu ponto de partida.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que, em um mundo cada vez mais frágil institucionalmente, as regras internacionais muitas vezes retornam à lei do mais forte. O autointeresse autônomo, centrado na sobrevivência e na maximização do poder, funciona como o principal racional por trás da lógica dos Estados, especialmente das grandes potências, como os EUA sob Donald Trump, a Rússia de Vladimir Putin e a China de Xi Jinping. Por isso, também utilizo o neorrealismo como filtro analítico, já que o institucionalismo neoliberal sozinho não explica o comportamento de certos atores no tabuleiro internacional. É esse prisma que trarei na análise a seguir.
Parte II
O que é a ordem internacional
Para entendermos o mundo do século XXI, é preciso compreendermos o mundo de ontem. Quando se fala em “nova ordem mundial”, crê-se mais em teorias da conspiração do que em fatos históricos objetivos. Toda ordem surge quando uma outra acaba. Mas quando uma ordem termina, ela deixa vestígios de si na próxima que se inicia. Neste sentido, é preciso que retornemos um pouco no tempo para entender onde nos encontramos.
O século XIX foi marcado pela primazia dos grandes impérios europeus. Numa era em que não existiam mecanismos multilaterais ou fóruns internacionais capazes de mediar os interesses dos Estados (muitos deles ainda em formação), a única ordem existente era a da força, típica do realismo clássico. O Império Britânico, sendo o mais poderoso na época, impôs a ordem global, que ficou conhecida como Pax Britannica, uma paz sustentada pelo poder bélico do Reino Unido. Mas isso não impediu a crescente concorrência de outros impérios, especialmente do alemão e do Austro-Húngaro.
Em 1914, este regime internacional entrou em convulsão na chamada Primeira Guerra Mundial (1914-1918), um conflito que levou os grandes impérios europeus ao embate direto. Após o conflito (que ceifou cerca de 20 milhões de vidas), acreditava-se que uma guerra de grande escala não se repetiria, dado o nível de desgaste e destruição que a mesma causou. Por isso, em 1919 surge a Liga das Nações, predecessora da ONU, criada para manter a paz e a segurança por meios diplomáticos, como parte do Tratado de Versalhes. No entanto, a organização não conseguiu impedir o crescimento do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália, o que culminaria na Segunda Guerra Mundial.
Após a Segunda Guerra (1939-1945), conflito este que conseguiu matar cerca de 70 milhões de pessoas, emergiu um mundo bem diferente ao do século XIX e da Primeira Guerra. A Europa estava devastada, os antigos impérios desgastados, e duas novas potências globais se destacaram: os Estados Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Neste novo contexto, surge a sucessora da Liga das Nações: a Organização das Nações Unidas (ONU). Criada pelos vencedores do conflito (EUA, Reino Unido, França, União Soviética e China), a ONU tinha os mesmos objetivos da Liga (manter a paz e a segurança internacional), mas com mecanismos institucionais mais sólidos e participação mais ampla de países.
Dentro da lógica de um mundo mais institucionalizado, surgiram também outras instituições fundamentais:
o Fundo Monetário Internacional (FMI, 1945)
o Banco Mundial (1946)
o Organização Mundial do Comércio (OMC, sucessora do GATT, 1947)
o OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte (1949)
o Organismos especializados da ONU: UNESCO (1945), OMS (1948), UNICEF (1946)
Além disso, ao estabelecer o Conselho de Segurança da ONU com membros permanentes dotados de direito de voto e veto (EUA, Reino Unido, França, União Soviética e China), criou-se uma arquitetura institucional de mediação de conflitos voltada a favorecer o comércio internacional, o desenvolvimento e os direitos humanos, a solução diplomática de contendas e o desestímulo ao avanço do imperialismo clássico entre as grandes potências.
Foi no âmbito da ONU, e especialmente do Conselho de Segurança, que esse novo arranjo enfrentou seu grande teste histórico: a Guerra Fria. Com EUA e URSS como potências globais e nucleares, o risco de um conflito direto colocava em jogo a própria sobrevivência da humanidade. Nesse sentido, o período entre 1945 e 1989 representou o maior desafio à ordem internacional do pós-guerra. Mas mesmo neste momento, apesar da bipolaridade que dividia o mundo em uma esfera americana e outra soviética, também emergiram, entre potências médias e menores, estruturas embrionárias de um multilateralismo funcional. Sinal de que a ordem internacional liberal era mais resiliente do que a ordem pós-primeira guerra.
Com o fim da Guerra Fria e o colapso da União Soviética em 1989, os EUA emergiram como a única potência com capacidade de projeção global plena, inaugurando a chamada Pax Americana, ou ordem unipolar. Nesse contexto, o sistema institucional criado no pós-Segunda Guerra passou a operar sob o patrocínio quase absoluto do hegemon norte-americano. Sendo os Estados Unidos responsáveis por parcela significativa do orçamento da ONU e das operações de manutenção da paz, além de deterem superioridade militar incomparável, os mecanismos de mediação internacional passaram a depender, em maior ou menor grau, da chancela de Washington.
Este período, que historiadores ainda debatem se se estendeu de 1990 a 2001 (com os atentados de 11 de setembro) ou até 2008 (com a crise financeira global), foi marcado pelo auge da ordem liberal internacional sob hegemonia norte-americana. Tratou-se de um momento unipolar no qual a democracia liberal, o livre mercado e o multilateralismo institucional foram projetados como modelos universais. Nessa seara, a União Europeia aprofundou seu processo de integração, culminando na adoção do euro como moeda comum; a Rússia, sob a liderança de Vladimir Putin, iniciou um processo de recentralização estatal e recuperação de capacidade geopolítica; e a China emergiu como potência econômica global, em grande medida impulsionada pelo investimento ocidental e pela inserção estratégica nas cadeias globais de manufatura.
Ao mesmo tempo, esse período foi marcado por uma globalização assimétrica, que produziu ganhos significativos, mas também profundas desigualdades internas nas sociedades ocidentais, além de tensões geopolíticas latentes. A crença de que o mundo havia ingressado em uma era pós-conflito, na qual a economia substituiria a política e as grandes disputas de poder haviam sido superadas, revelou-se ilusória. Assim, há pelo menos três grandes marcos da história recente que modificaram a ordem global liberal:
1. A tomada da Crimeia pela Rússia em 2014.
2. A pandemia do COVID-19 entre 2020 e 2022.
3. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
Poderíamos também incluir a eleição de Trump em 2016 e 2024, mas Trump é mais resultado de um sistema do que causa dele. Os primeiros 25 anos do século XXI já indicaram algumas tendências que permanecerão ao longo do século:
a). O fim da unipolaridade norte-americana e o surgimento e um mundo multipolar (onde há mais de duas potências importantes).
b). A erosão do institucionalismo liberal estruturado no pós-1945.
c). O retorno a uma lógica realista clássica onde as potências agem como impérios, num “retorno” assimétrico da ordem do século XIX.
Neste espírito, após compreender as escolas internacionalistas existentes, a por mim usada como filtro de análise, e após fazer uma leve e rápida leitura contextual do sistema internacional moderno, podemos procurar nos estabelecer no século XXI.
Parte III
O Novo-Velho Mundo do Século XXI
É imprescindível, neste momento do artigo, que o leitor compreenda a dimensão dos Estados Unidos na ordem global construída após 1945 e, sobretudo, após 1989. Os EUA não são apenas uma grande potência militar e económica. Eles são os principais patrocinadores e fiadores do sistema internacional contemporâneo. Trata-se de uma ordem que tem no dólar norte-americano a principal moeda de reserva internacional, na Marinha dos EUA a garantidora central das rotas marítimas globais, e na capacidade industrial, científica e tecnológica americana um dos principais motores da inovação e da disrupção tecnológica. O mundo em que vivemos foi, em grande medida, construído e sustentado sob a liderança norte-americana.
Quando se fala no crescimento chinês, indiano, na consolidação da União Europeia ou em uma Rússia mais assertiva no plano internacional, fala-se, na realidade, de dinâmicas que ocorreram dentro do sistema liberal internacional. Sem cadeias globais de produção e comércio, a China dificilmente teria alcançado o nível de integração econômica atual. Sem o amparo institucional e político oferecido pelos Estados Unidos no pós-guerra (especialmente com o Plano Marshall), a União Europeia dificilmente teria se consolidado como projeto de integração regional. Sem a centralidade militar norte-americana, a OTAN não teria se afirmado como a maior aliança militar do mundo, tampouco teria contribuído, de forma indireta, para a estabilidade que permitiu o desenvolvimento do Estado de Bem-Estar Social europeu. Mesmo processos políticos relevantes no Sul Global, como a redemocratização brasileira e a projeção internacional da Índia, ocorreram em um ambiente moldado por essa ordem liberal liderada pelos EUA.
Esse esclarecimento é fundamental porque compreender o século XXI exige entender, simultaneamente, a magnitude do poder norte-americano e os limites crescentes dessa hegemonia. É nesse contexto que a China emerge como competidora sistêmica real dos Estados Unidos, enquanto a Rússia se reposiciona como potência revisionista e interventora, tensionando os alicerces da ordem construída na pós-Segunda Guerra Mundial. Nesta cronologia histórica que nos leva a 2026, é preciso compreender, também, as mudanças que a política externa americana passou nos últimos tempos.
Se assumirmos que os Estados Unidos se mantiveram como potência unipolar entre aproximadamente 1990 e 2008, tendo como marco simbólico de encerramento a crise financeira global, estamos a falar de um período que abrange os governos de George H. W. Bush, Bill Clinton, George W. Bush e o início da administração Barack Obama, eleito em 2008 e empossado em 2009. O governo Obama, inclusive, pode ser interpretado como um momento de transição, no qual os primeiros sinais do enfraquecimento relativo da unipolaridade norte-americana tornam-se mais evidentes, com uma China economicamente mais competitiva e uma Rússia progressivamente mais assertiva no plano geopolítico.
O que isso significa, em termos práticos?
Significa que, ao longo desse período, a política externa norte-americana operou sob a premissa de que os Estados Unidos não enfrentavam um competidor sistêmico capaz de desafiar diretamente sua hegemonia global. Essa percepção moldou decisões estratégicas, intervenções militares, a expansão de alianças e o próprio funcionamento das instituições multilaterais.
George H. W. Bush (Bush pai) manteve fundamentalmente a mesma linha estratégica herdada do final da Guerra Fria, marcada pela contenção soviética e pela centralidade das alianças tradicionais. Seu governo foi responsável por gerir a transição do mundo bipolar para o nascente momento unipolar, buscando legitimar a liderança norte-americana por meio de amplas coalizões internacionais e do respaldo institucional da ONU. A Guerra do Golfo (1991) simbolizou esse momento: uma demonstração clara de poder militar, exercido dentro de um enquadramento multilateral, que reforçou a percepção dos EUA como árbitro central da segurança internacional no pós-Guerra Fria.
Bill Clinton, por sua vez, governou durante o auge da unipolaridade norte-americana. Seu mandato coincidiu com o momento de maior confiança na ordem liberal internacional, quando se acreditava que a globalização econômica, a expansão das instituições multilaterais e a difusão da democracia liberal seriam processos irreversíveis. A política externa de Clinton aprofundou a integração econômica global, promoveu a expansão da OTAN para o Leste Europeu e legitimou intervenções militares sob o argumento humanitário, como nos Balcãs. Trata-se do período em que a hegemonia americana se expressa menos pela coerção direta e mais pela normatização do sistema internacional segundo valores liberais.
O governo George W. Bush (Bush filho) marca uma inflexão importante nesse percurso. Embora os Estados Unidos ainda operassem como potência unipolar, os atentados de 11 de setembro de 2001 alteraram profundamente a percepção de segurança e legitimidade internacional. A chamada “Guerra ao Terror”, especialmente a invasão do Iraque em 2003, representou um uso mais unilateral do poder militar, frequentemente à margem do consenso multilateral. Esse período expôs contradições entre o discurso liberal da ordem internacional e a prática estratégica norte-americana, contribuindo para o desgaste da legitimidade dos EUA como líderes incontestáveis do sistema global.
Já o governo Barack Obama pode ser interpretado como o primeiro momento explícito de gestão do declínio relativo da hegemonia norte-americana. Embora os EUA permanecessem como a principal potência global, o contexto internacional já era marcado pela ascensão econômica da China, pelo ressurgimento da Rússia como ator revisionista e pelas consequências da crise financeira de 2008. A política externa de Obama buscou reduzir o custo das intervenções diretas, reforçar instrumentos diplomáticos e multilaterais e reorientar a atenção estratégica para a Ásia-Pacífico. Trata-se menos de um abandono da liderança global e mais de um reconhecimento tácito de que a unipolaridade plena já não era sustentável.
Em 2016, quando Donald Trump foi eleito sob o lema MAGA (Make America Great Again), através de um movimento renovador dentro do Partido Republicano e vencendo nomes do establishment do partido, como Jeb Bush (irmão de Bush filho e caçula de Bush pai), a mutação do sistema internacional já estava a todo vapor. Como vimos, em 2014 Putin anexou a Crimeia, violando o direito internacional unilateralmente e projetando o poder russo sobre a Europa e a OTAN. A China ainda crescia a taxas exponenciais, ameaçando em poucos anos a hegemonia norte-americana. O sentimento geral do americano médio era o de declínio, de perda de liderança e da necessidade de “virar a mesa”. Tanto domesticamente quanto internacionalmente.
Entre os anos de 2017 a 2021, o primeiro mandato de Trump foi marcado por intensos ruídos entre os EUA e a aliança militar da OTAN, além da ONU, da OMS (especialmente na época da pandemia), como também por um discurso hostil contra a China (embora amena ou até positiva sobre a Rússia). Esta mudança de plataforma assustou o planeta, que ainda esperava dos EUA a postura de líder do sistema internacional liberal. Trump I rompeu esta premissa, tornando a multipolaridade um lugar-comum na política externa.
Com a ascensão ao poder de Joe Biden (2021-2025), democrata e ex-vice-presidente de Barack Obama, os EUA buscou retomar a confiança internacional dos tempos pré-Trump, ainda numa estratégia de “contenção de danos”, e menos de vilipêndio total da ordem liberal. Biden precisou não apenas restabelecer a ordem que Trump fez tremer, como também lidar com o fim da pandemia, impor-se diante da invasão da Ucrânia em 2022, evento-chave que marcou o mandato do mesmo, e uma crise de confiança interna devido a sua idade avançada. Apesar de ter realizado mudanças importantes frente ao primeiro mandato de Trump, Biden não conseguiu impedir o retorno do republicano, que foi reeleito em 2024 e reassumiu a presidência em 2025.
Desde então, as principais mudanças no teatro internacional têm vindo do segundo e atual mandato do presidente americano. Não porque Trump, em si mesmo, seja um grande presidente. Mas sim porque seu governo representa uma tendência crescente entre estrategistas norte-americanos que não acreditam mais num equilíbrio de poder através da ordem liberal instaurada no pós-1945.
Não se trata aqui de Democratas versus Republicanos. Boa parte das políticas de Donald Trump já foram defendidas por Hillary Clinton (ex-primeira-dama de Bill Clinton e ex-candidata Democrata à Casa Branca), assim como por Barack Obama e mesmo pelo próprio Bill Clinton. Gerações de Democratas e Republicanos convergiram num mesmo discurso crítico e bélico, muito embora o tom e a forma deste discurso sejam feitos diferentemente com Donald Trump.
CONCLUSÃO
Afinal, em que mundo estamos?
Se Trump é um sintoma e não a causa da mudança estrutural da política externa norte-americana, então precisamos compreender qual é esta política. Ao observar a tendência dos últimos presidentes (de George W. Bush até Trump II), vemos uma continuada diminuição da unipolaridade e o crescimento (dentro da ordem liberal internacional) de concorrentes económicos e sistêmicos ao poder norte-americano.
A União Europeia, embora seja aliada histórica dos EUA, é também uma competidora pelo soft power ocidental e pela estabilidade monetária, com o euro. A China, na sua ambição asiática e na sua projeção de poder global, é também uma competidora dos EUA nas arenas que dominavam nos anos 1990. A Rússia, por sua vez, embora tenha uma economia mais precária, é ainda a maior potência nuclear do mundo e possui uma força armada capacitada para intervir e projetar-se, ainda que residualmente.
Para compreender a mentalidade da política externa dos EUA, é sempre fundamental olhar para a National Security Strategy (NSS), publicada pela Casa Branca a cada início de administração presidencial. Desde 2015 (Obama) até 2025 (Trump II), gradativamente a China foi saindo de adversária em segundo plano para potência rival. O que a segunda administração Trump parece sugerir, com maior ênfase e sem filtro retórico, é que para impedir o crescimento e domínio chinês no século XXI é preciso, de forma mais radical e abrupta, romper com a ordem liberal que permitiu a China crescer.
Em outras palavras, a mentalidade do establishment norte-americano não é mais a de financiadora da ordem liberal internacional pós-1945, mas sim de ruptura com esta ordem e o surgimento de uma ordem multipolar onde o excepcionalismo norte-americano confronta-se com as demais potências rivais. Entre elas a europeia, unificada em torno do projeto europeu, como também a chinesa e a russa. No entanto, há gradações distintas nesta competição.
O dólar ainda é a moeda de reserva internacional, a Marinha dos EUA ainda é uma das maiores fiadoras de segurança marítima entre rotas comerciais internacionais (em especial do petróleo), e existe ainda engajamento multilateral em fóruns específicos. O que se pode afirmar é que os EUA iniciaram um “desacoplamento” da globalização e um “desalinhamento” seletivo da ordem liberal internacional. Mas não total (ainda).
O objetivo é enfraquecer rivais, principalmente a China, mas também a Rússia e as tentativas europeias de maior autonomia comercial frente aos EUA. A NSS 2025 não coloca a Europa como adversária central, mas há um crescente incómodo da parte do establishment norte-americano frente ao fortalecimento do Euro e à expansão da EU a novos membros. Entende-se que a Europa é ainda uma aliada importante para os EUA, mas numa relação de poder assimétrico (os europeus seguem, não lideram).
Os três marcos supracitados (Crimeia, COVID e Ucrânia) representam o fim da globalização, o fim absoluto da unipolaridade e o fim da Pax Americana. Dentro deste contexto, o que temos é uma política externa americana que reconhece o fim da unipolaridade e que precisa resignificar a sua liderança no mundo. Podemos batizar este novo mundo de “neoimperialismo normativo”, onde a ideia de impérios se funde com a estrutura normativa do pós-guerra em sua multilateralidade. Os cenários futuros que este novo mundo abre são diversos e tema para outro artigo.
Mas algumas coisas são tendências gerais:
I. Maior número de conflitos militares;
II. Menor segurança jurídica globalmente;
III. Maior número de crises imigratórias;
IV. Menor cooperação internacional nos temas mais importantes globalmente;
V. Maior instabilidade em nações médias ou pequenas sem alinhamento claro;
Implicações para o Brasil
Para encerrar, não podia deixar de refletir sobre o papel do Brasil neste contexto. Prometido como uma potência emergente, membro dos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), esperava-se que o país fosse um dos mais importantes players globais do século XXI. Podendo influenciar acordos comerciais e também tratados de interesse multilateral.
Apesar da boa fama da diplomacia profissional brasileira, conhecida por ter sido fundadora da ONU, ativa voz nos fóruns internacionais, como a OMC, a Anistia Internacional, o Tribunal de Haia, o Mercosul, o G20 e os próprios BRICS, isso não significa que a posição do Brasil seja, de fato, a de uma potência média. Explica-se isso de forma simples. Nossa matriz econômica não é tão complexa e com tanto valor agregado como a de outras economias mais internacionalizadas. Não temos tanta competência industrial em escala global (com raras exceções, como a Petrobras, Embraer e telecomunicações). Somos, antes de tudo, um país dependente do ciclo das commodities, com um Estado cronicamente gastador e fiscalmente frágil.
Somam-se a isso a grande desigualdade social e pobreza no país, o que cria uma desfasagem intelectual considerável num mundo cada vez mais dependente da inteligência artificial e da tecnologia da informação. O problema brasileiro não é apenas ensinar a ler e escrever, mas ensinar a interpretar o mundo. Num sistema destinado ao centralismo e ao compadrinho, fica muito difícil imaginar uma saída desta situação no curto ou médio prazo. Além disso, o sequestro ideológico, seja pela esquerda ou pela direita, das pautas geopolíticas e estratégicas, faz com que não se possa aventar a hipótese de uma mudança estrutural no longo prazo também.
As Forças Armadas não são financiadas como deveriam (e nem preparadas estruturalmente para a defesa nacional), o Estado brasileiro não possui plena soberania sobre seu território (tendo de disputá-lo com facções criminosas e mafiosas), e a corrupção sistémica (grande em todos os poderes) engessa a capacidade de ação ponderada do país. Tudo isso posto na balança torna o Brasil uma nação grande, rica, mas destinada a ser o local de disputa das potências, não uma potência em si. Tratando-se de um país latino-americano, sul-americano e presente no Hemisfério comandado pelos Estados Unidos da América, a verdade é que estruturalmente nunca sairá da esfera de influência norte-americana.
Washington não se preocupa se o Brasil fizer acordos comerciais com a China, Rússia, Europa ou qualquer outro império. Desde que, no setor de defesa e alinhamento geopolítico estratégico, continue dependente dos EUA. Se em algum momento o governo brasileiro ameaçar dispensar o uso do dólar como moeda de reserva ou procurar alinhar-se militarmente com a China ou a Rússia, é certo que alguma interferência americana terá lugar em Brasília. Seja ela política, económica ou até mesmo de cunho jurídico-militar.
Esta realidade implica que a autonomia brasileira é condicionada. Pode-se sonhar, sim, com uma nação rica, próspera e que entregue uma boa qualidade de vida. Pode-se sonhar, também, com uma nação poderosa e forte. Mas nunca poderosa demais para dispensar o alinhamento estrutural com os Estados Unidos da América. Não enquanto este último for um dos grandes impérios da humanidade. O destino comum do Brasil é o de uma potência média, alinhada com os EUA e autónoma no soft power. Em um século neoimperialista, reconhecer esse destino e saber operá-lo com inteligência estratégica já constitui, por si só, uma vantagem competitiva decisiva.
Obrigado pela leitura,
Sasha van Lammeren
BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA Mearsheimer, J. J. (2001). The tragedy of great power politics. New York, NY: W. W. Norton & Company.
Waltz, K. N. (1979). Theory of international politics. New York, NY: McGraw-Hill.
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