Triunvirato da Balbúrdia
- Harpia Network
- 21 de jul. de 2024
- 34 min de leitura
As Eleições Municipais brasileiras de 2024
Panoramas e Previsões
INTRODUÇÃO
Neste ano de 2024, realizar-se-á mais uma eleição municipal no Brasil. Muitos costumam se preocupar mais com a eleição geral, na qual se elege o Presidente da República, Senadores, Governadores e Deputados. Mas as eleições municipais são tão importantes quanto, especialmente em termos de análise política. Enquanto a maioria olha para o palco principal, são nos palcos estaduais e locais aonde o jogo político realmente acontece.
Nos EUA, por exemplo, enquanto de quatro em quatro anos há a eleição geral para a Presidência e assentos no Congresso, há também as ‘mid-terms’, eleições que acontecem no meio do mandato presidencial e que renovam parte do Congresso norte-americano. Estas eleições são muitas vezes vistas como um termómetro para o presidente, visto que os eleitores tendem a apoiar mais o partido incumbente nas mid-terms caso este esteja fazendo um bom governo. No Brasil, dado a periodicidade das municipais ocorrerem no meio do mandato presidencial, conseguimos também vislumbrar tendências de acordo com os seus resultados.
Segundo o TSE, o Brasil tem um total de 5.570 municípios com 156.454.011 eleitores (2022) registrados e aptos a votar. Considerando que o último ciclo eleitoral foi em 2022 e que estes são os dados mais recentes disponíveis, é com isso que iremos trabalhar para o ciclo de 2024. Como não seria possível fazer uma análise de cada um dos municípios brasileiros, optei por fazer aqui uma análise mais abrangente.
Primeiro, falaremos do cenário político nacional pós-2022. Depois, trataremos dos cenários estaduais (de acordo com os eventos deste ano). E, finalmente, avaliaremos de acordo com os resultados de 2020 (último ciclo municipal), de 2022 (geral) e com as pesquisas mais recentes até a data deste texto, quais são as tendências para as principais capitais do país (com mais de 1 milhão de habitantes), tanto para prefeituras quanto para as Câmaras dos Vereadores.
Embora isso não responda a todas as questões que alguns eleitores tenham em seus municípios, certamente ajudará a ter uma ideia do que está acontecendo e de quais são as tendências que irão impactar a sua cidade. Longe de ser um almanaque, este texto visa ser informativo e também educativo para todos aqueles que anseiam por compreender melhor o pleito deste ano e o nosso processo eleitoral e político.
O texto está dividido da segiunte forma:
Parte I – O cenário nacional pós-2022
Parte II – Os cenários estaduais em 2024 e as principais capitais
Parte III – Conjunturas, Estratégias e Tendências
Parte IV – Reflexão Final
PARTE I
O Cenário Nacional Pós-2022
Existem pelo menos quatro métricas que utilizo para classificar um partido como ‘grande’ no Brasil. São elas: número de filiados, governadores, parlamentares (senado e câmara) e prefeituras. Trata-se de um retrato, uma forma de compreender qual partido possui capilaridade nacional, capacidade de influência e também acesso ao fundo partidário em grande escala. Dito isso, abaixo estão os partidos que, no cenário nacional atual, podem ser considerados grandes (ou médio-grandes).

Em destaque estão aqueles com mais de 1 milhão de filiados, com mais de 2 governadores, com mais de 50 parlamentares e com mais de 400 prefeituras. Tendo o Brasil um total de 5.570 municípios, estes partidos controlam cerca de 71% das prefeituras de todo o país. Portanto, são partidos que tradicionalmente conseguem ter bastante influência no jogo municipal e regional, tendo, por isso, também grande participação parlamentar (o que influencia a política de verbas em anos eleitorais).
Dentre estes partidos, eu destaco ainda alguns principais. O MDB, fundamentalmente, é o partido mais antigo em atividade permanente e a sua capilaridade é extremamente alta, como pode ser observado pela tabela (quase 800 prefeituras). O PT é o partido governista a nível federal e também é um grande partido a nível nacional, mas a nível local, não possui grande capilaridade (o que o faz depender muito das alianças regionais). Para efeitos de comparação, o Solidariedade possui 137 prefeituras, enquanto o PT possui apenas 183. O PT compensa isso tendo quatro governadores.
O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, possui um total de 345 prefeituras. A nível regional, é mais forte do que o PT, enquanto a nível nacional é também um dos partidos mais bem posicionados da atualidade. Por ter uma grande representação parlamentar, o PL tem também o maior fundo partidário (tabela a seguir), o que lhe dá vantagem no pleito de 2024. Por fim, destaco também outros três partidos que devem ser considerados muito importantes no jogo político brasileiro: União Brasil, Progressistas e PSD.
Todos estes possuem mais de 500 prefeituras, relevante número de parlamentares e também grandes fundos partidários. Portanto, são também partidos bem posicionados para as municipais de 2024 e também para o palco nacional nos anos vindouros.

O Fundo Partidário funciona da seguinte forma: 5% do total do Fundo Partidário são destacados para entrega, em partes iguais, a todos os partidos políticos que tenham seus estatutos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os demais 95% do total desse fundo são distribuídos aos partidos na proporção dos votos obtidos na última eleição geral para a Câmara dos Deputados. (Agência Senado).
De todos os grandes partidos, o PSDB é aquele que mais minguou nos últimos tempos. Ele ainda é um partido considerado grande devido a seu impacto regional e número de filiados: com 520 prefeituras e três governadores. Mas trata-se de um partido que está em processo de perda de influência (em especial para os quadros do PSD), o que pode afetar sua performance em 2024 e em 2026. Isso será reavaliado ao longo deste texto com algumas capitais e candidaturas importantes.
Portanto, em resumo, o cenário nacional possui sete partidos de grande relevância e participação política: MDB, PT, Progressistas, União, PL, Republicanos e PSD. Destes, apenas um é de esquerda (o Partido dos Trabalhadores). O MDB e PSD podem ser considerados de centro, o União de centro-direita e o Progressistas, PL e Republicanos de direita.
No entanto, faço a ressalva de que para alguns destes partidos, a ideologia não possui um papel tão relevante quanto em outros. Partidos como o União Brasil, MDB, PSD e mesmo Progressistas podem ser considerados partidos pega-tudo, ou seja, que tem pouca ênfase ideológica e são mais pragmáticos, podendo se aliar com candidatos de esquerda ou de direita a depender da conveniência. O PT, no entanto, possui uma identidade bastante clara com a esquerda, podendo ser considerado um ‘MDB’ da esquerda. Um ‘pega tudo’ da esquerda. Já o PL e Republicanos possuem grande identidade com o bolsonarismo e o evangelismo brasileiro, o que o torna mais ideológico do que os demais de centro-direita e direita.
PARTE II
Os Cenários Estaduais em 2024
Para avaliar o cenário político estadual, temos de considerar o governo do Estado, como também a distribuição partidária nas Assembleias Estaduais e nas prefeituras pós-2020. Uma vez que este relatório e análise não terá condições de avaliar cada prefeitura e cada estado em suas minúcias, iremos abarcar o cenário nacional a partir de estados-chave, aqueles que possuem grande impacto no país como um todo. Neste sentido, os critérios de escolha dos estados analisados são: a). População; b), Poder económico; c). Poder político, e, d). Representação na Câmara dos Deputados.
Com base nestes critérios, os seguintes estados foram escolhidos para a análise da Parte II:
São Paulo (70 deputados), Minas Gerais (53 deputados), Rio de Janeiro (46 deputados), Bahia (39 deputados), Rio Grande do Sul (31 deputados), Paraná (30 deputados), Pernambuco (25 deputados) e Ceará (22 deputados). Fonte Câmara dos Deputados.
Portanto, eis os retratos políticos dos estados acima mencionados:
Rio de Janeiro

Com as alterações partidárias pós-2020, o PL passou a ter 27 prefeituras, seguido por Solidariedade com 15, PP com 8, MDB com 8, PSD com 6, União com 5 e Republicanos com 4. Demais partidos grandes ficaram com menos prefeituras, como o PT (3), Cidadania (3), Podemos (3) e PDT com 2.
No estado do Rio de Janeiro, portanto, pode-se afirmar que os principais partidos são o PL (partido com maior bancada na Assembleia estadual, com o governo do Estado e com 10 prefeituras), União (com grande bancada e 10 prefeituras), PSD (igualmente com razoável bancada e número de prefeituras, incluindo a capital com Eduardo Paes) e Progressistas (com 5 deputados e 10 prefeituras). Demais partidos possuem menos representação. Avaliações parecidas podem ser feitas tendo em vista os demais estados, como veremos a seguir.
2. São Paulo

Após as mudanças partidárias, em 2023, o cenário colocava o PSD com 329 prefeituras, o MDB com 70, o PL com 56, o Republicanos com 50, o PSDB com 41, o PP com 27, o União com 24 e o Podemos com 19. Demais partidos obtiveram menos de 10 prefeituras ou nenhuma.
3. Minas Gerais

Considerando as mudanças partidárias pós-2020, a atual representação por prefeituras em Minas Gerais está da seguinte forma: MDB tem 97, União tem 92, PSD tem 89, PSDB tem 80, PP tem 76, Avante tem 69, PRD (antigo Patriota e PTB) tem 50, PSB tem 47, Republicanos tem 41 e PL tem 39. Demais partidos tem entre 30 a menos prefeituras.
4. Bahia

Com as mudanças, a nova configuração partidária entre as prefeituras ficou da seguinte forma: PSD (111), PP (70), Avante (38), União (37), PT (36), PSB (24) e PL (16). Demais partidos ficaram com menos de 15 ou nenhuma prefeitura.
4. Rio Grande do Sul

Com as alterações partidárias, em 2023 a distribuição de prefeituras entre partidos no Rio Grande do Sul estava do seguinte modo: PP (142), MDB (134), PDT (67), PSDB (32), PRD (junção de PTB e Patriota) 25, PT (23), PL (20), União (16), PSB (12) e Republicanos (11). Demais partidos ficaram com menos de 10 prefeituras ou nenhuma. Para informações sobre a Assembleia Estadual do Rio Grande do Sul, acesse este link.
5. Paraná

Com as mudanças partidárias, a distribuição de prefeituras no Paraná passou a ficar do seguinte modo em 2023: PSD (150), PL (39), União (37), Podemos (35), PP (26), MDB (25), Cidadania (15), PSDB (14), PSB (11), PDT (10). Demais partidos ficaram com menos de 10 ou nenhum prefeito. Para mais informações sobre a Assembleia Legislativa do Paraná, acesse este link.
7. Pernambuco

Considerando as reestruturações partidárias, em 2023 as prefeituras de Pernambuco estavam divididas da seguinte forma: PSB (52), PP (24), MDB (20), Republicanos (14), PSD (13). Demais partidos possuem menos de 10 prefeituras ou nenhuma.
8. Ceará

Tendo em vista as alterações partidárias subsequentes, a distribuição de prefeituras por partido no Ceará hoje se encontra da seguinte forma: PDT (54), PT (29), PSD (23), PSB (18), PP (15), MDB (14). Demais partidos ficaram com menos de 10 prefeituras ou nenhuma. Para mais informações sobre os deputados do Ceará, acesse este link.
Observações acerca dos cenários estaduais:
Como pode ser observado nas tabelas acima, os partidos mais importantes regionalmente tendem a ser o PSD, o PSDB, União, PP, MDB, PT e PL. O que corrobora a avaliação nacional anteriormente feita, na qual estes partidos são também os com as maiores bancadas, número de governadores, fundo partidário e prefeituras no país. Isso significa que tais partidos tendem a ter vantagem nos pleitos municipais deste ano, uma vez que possuem mais ‘poder de fogo’ do que seus adversários.
A seguir faremos uma análise das capitais de cada estado mencionado acima. Logo depois, faremos uma conclusão geral com algumas tendências observadas, tanto a nível eleitoral como a nível político no país (já tendo em vista o pleito presidencial de 2026).
O cenário nas capitais
1. São Paulo (São Paulo Capital)
Na cidade de São Paulo, temos uma disputa acirrada entre o atual prefeito Ricardo Nunes (do MDB), ex-vice de Bruno Covas do PSDB, morto em 2021, e o deputado Guilherme Boulos (do PSOL). De seguida temos outros nomes como Datena (PSDB), Marçal (PRTB) e Tabata Amaral (PSB).
Se fizermos uma avaliação das eleições municipais de São Paulo nas últimas décadas, veremos que por padrão sempre há um candidato à direita e um à esquerda, de forma bem definida. Em 2020, Bruno Covas (PSDB) venceu Guilherme Boulos (PSOL). Em 2016, João Dória (PSDB) venceu Fernando Haddad (PT). Em 2012, Haddad (PT) venceu José Serra (PSDB). Em 2008, Gilberto Kassab (então do DEM) venceu Marta Suplicy (do PT). Em 2004, José Serra (PSDB) venceu também Marta Suplicy (PT). EM 2000, foi Marta Suplicy (do PT) que venceu Paulo Maluf (do então PPB).
Portanto, tendo em vista o histórico, a cidade é dividida claramente entre eleitores mais conservadores e mais progressistas. Nos últimos 20 anos, os candidatos da direta ou centro-direita tiveram melhor aproveitamento (das seis eleições, venceram quatro). Eleitores de regiões como centro, centro-sul, oeste, nordeste e sudeste da cidade tendem a votar na direita. Já os eleitores das demais regiões (sul, leste 1 e 2 e noroeste) tendem a votar na esquerda.
Deste modo, entre os candidatos mais bem colocados, temos uma disputa clara entre o prefeito Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL). Neste cenário, aonde ambos possuem cerca de 25% do eleitorado, os votos dos demais candidatos tendem a se dispersar mais, evitando assim que o segundo turno seja disputado com elementos diferentes a ambos os citados. Datena, Marçal e Tábata não parecem ter tração suficiente para chegar ao segundo turno, de modo que seus votos vão favorecer as pretensões ou de Nunes ou de Boulos.

Considerando os três institutos de pesquisa selecionados acima, temos que Ricardo Nunes (candidato formalmente apoiado por Jair Bolsonaro) possui entre 24% a 29% dos votos, basicamente empatado com Boulos (candidato formalmente apoiado pelo Presidente Lula) que possui entre 23% a 29%. Datena (que se coloca como centrista pragmático) possui entre 8% a 11%, enquanto Marçal (que disputa o voto bolsonarista na cidade) aparece melhor posicionado entre 10% e 12%. Tecnicamente, contudo, ambos estão empatados. Tábata (que se coloca como uma centro-esquerda alternativa) aparece na lanterna, entre 7-8% dos votos. Sendo Datena e Marçal candidatos que mobilizam eleitores mais ao centro ou à direita bolsonarista, e Tábata mais à esquerda ou centro-esquerda, temos que o cenário de potencial segundo turno (entre Nunes e Boulos) fica do seguinte modo:
O potencial de votos de Nunes é bem maior, entre os 42% aos 52%. Já Guilherme Boulos tem um potencial entre 30% até 37%. Neste sentido, é seguro afirmar que Nunes tem cerca de 60% de chances de vitória, enquanto Boulos tem 40%.
2. Rio de Janeiro (Rio de Janeiro Capital)
Eduardo Paes (atualmente do PSD) está em seu terceiro mandato à frente da prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Nos últimos 20 anos, Paes tem sido figura central na política e na máquina municipal. Embora tenha vencido três das últimas seis eleições (desde 2000), o prefeito não foi capaz de emplacar um sucessor de seu grupo político no pleito de 2016, o que o obrigou a retornar para a prefeitura em 2020. Eis o histórico dos pleitos mais recentes:
2020: Eduardo Paes (então do DEM) vence Marcelo Crivella (do PRTB)
2016: Marcelo Crivella (PRTB) vence Marcelo Freixo (então do PSOL)
2012: Eduardo Paes (então do PMDB) vence Marcelo Freixo (então do PSOL)
2008: Eduardo Paes (então do PMDB) vence Fernando Gabeira (do PV)
2004: César Maia (então do PFL) vence Marcelo Crivella (então do PL)
2000: César Maia (então do PTB) vence Luiz Paulo Conde (do PFL)
Em contraste com a cidade de São Paulo (aonde vê-se claramente uma divisão do eleitorado entre progressistas e mais conservadores, muitas vezes partidarizados entre PSDB e PT ou afins), não há uma divisão muito clara no Rio de Janeiro. De modo geral, a cidade parece convergir para os centros (mais centro-direita do que esquerda), o que favorece o grupo político do atual prefeito. Paes teve como padrinho político César Maia (também considerado de centro e pragmático), que foi prefeito por três mandatos (o primeiro em 1992). A derrota de Paes em 2016 indicou que, quando os centros não estão em disputa, são os grupos mais radicalizados que dominam o cenário.
Na eleição de 2024, temos como principais candidatos o atual prefeito, Eduardo Paes, seguido de Tarcísio Motta (PSOL) e Alexandre Ramagem (PL). Demais candidatos não chegam nem a 5% das intenções de voto. De acordo com as pesquisas mais recentes, as intenções de voto estão assim distribuídas:

Alexandre Ramagem (PL) é um ex-delegado de polícia, apoiado formalmente por Jair Bolsonaro. Sua candidatura é considerada a principal entre as oposições ao prefeito Eduardo Paes. Tarcísio Motta tomou o lugar de Marcelo Freixo como representante da esquerda pesolista na capital fluminense. Portanto, pode-se afirmar que Ramagem é o candidato da direita evangélica miliciana enquanto Motta é o candidato dos progressistas cariocas. Como dito, Paes se destaca tanto por ser o atual prefeito (o que lhe dá vantagem devido ao uso da máquina pública), mas também pelo seu perfil moderado e pragmático (que tende a ser mais bem visto na cidade de forma geral).
Para vencer uma eleição à prefeitura do Rio de Janeiro, é preciso ter grande tração de votos nas Zonas Oeste e Norte, aonde há maior concentração de gente. Embora a Zona Sul seja importante, ela sozinha não é capaz de eleger um prefeito (como ficou claro em 2008 e 2016). Neste sentido, a vantagem do grupo político de Paes é que ele possui grande tração nestas Zonas, rivalizando, portanto, com os grupos políticos mais radicalizados da região.
A tendência é que Paes vença já no primeiro turno. Mas se houver segundo turno, os votos de Motta tendem a migrar para Eduardo Paes, de modo que o potencial de voto do prefeito é muito superior ao de Ramagem. Atualmente, as chances de vitória de Eduardo Paes no primeiro turno estão em 65%. Ramagem e Motta tem chances muito menores, na casa dos 15% e 12% respectivamente. Num eventual segundo turno entre Paes e Ramagem, o atual prefeito teria 85% de chances de ser eleito, enquanto o candidato de Bolsonaro teria 15%.
3. Minas Gerais (Capital Belo Horizonte)
Em 2020, a cidade de Belo Horizonte elegeu Alexandre Kalil (PSD) ao seu segundo mandato à frente da prefeitura. No entanto, em 2022 ele renunciou à prefeitura para disputar o governo do Estado de Minas Gerais (na qual saiu derrotado). Neste sentido, o atual prefeito é o seu ex-vice, Fuad Noman (PSD). O mesmo é candidato a reeleição, mas não é o preferido dos eleitores.
Historicamente falando, os prefeitos de BH orbitam a esquerda ou a centro-esquerda, raramente estando ligados a partidos ou grupos políticos de direita. Em 2020 Kalil foi o mais centrista dos prefeitos dos últimos anos a ser eleito, vencendo Bruno Engler (PRTB). Em 2016, Kalil (então no PHS) venceu João Leite (do PSDB). Em 2012, Márcio Lacerda (do PSB) venceu Patrus Ananias (do PT). Em 2008, Márcio Lacerda (PSB) venceu Leonardo Quintão (PMDB). Em 2004, Fernando Pimentel (PT) venceu João Leite (então do PSB). E em 2000, Célio de Castro (PSB) venceu João Leite (então do PSDB).
Contudo, em 2024, este cenário parece estar se alterando. Os principais candidatos a prefeitura são nomes conhecidos do eleitorado belo-horizontino e alguns novos. Mas o que realmente surpreende é a força dos candidatos de direita ou ligados a Jair Bolsonaro. Os principais candidatos são Mauro Tramonte (Republicanos), seguido por Bruno Engler (do PL), João Leite (PSDB), Duda Salabert (PDT), o atual prefeito Fuad Noman (PSD), Carlos Viana (Podemos) e Rogério Correia (do PT). Demais candidatos estão abaixo dos 5% das intenções de voto.
Neste cenário, que parece bastante pulverizado, destaca-se os três candidatos melhor colocados. Bruno Engler (PL) é o candidato bolsonarista deste pleito. Mauro Tramonte (Republicanos) é conhecido como o apresentador de um programa de TV na Record local, e foi o segundo deputado estadual mais bem votado do Brasil, perdendo apenas para Janaína Paschoal (então do PSL). Ele pode ser considerado um nome novo na política mineira, e de centro-direita (não ligado ao bolsonarismo). João Leite, que já foi candidato outras vezes, parece não estar com intenções de concorrer. No entanto, aparece bem nas pesquisas entre os pré-candidatos. Duda Salabert (PDT) e Rogério Correia (do PT) são os representantes da esquerda na cidade.
O prefeito Fuad Noman (PSD) e o senador Carlos Viana (Podemos) aparecem basicamente empatados, demonstrando que o eleitor parece estar inclinado a mudar de prefeito. Eis os resultados das mais recentes pesquisas na cidade:

De acordo com este compilado de pesquisas, as chances de vitória de cada candidato no primeiro turno das municipais de Belo Horizonte são:
Mauro Tramonte: 28.7%
Bruno Engler: 14.4%
João Leite: 14.8%
Duda Salabert: 12.2%
Fuad Noman: 9.6%
Carlos Viana: 10.4%
Rogério Correia: 10%
É seguro afirmar que, havendo segundo turno, a tendência é que seja disputada entre Mauro Tramonte (Republicanos) e entre Bruno Engler, ou João Leite ou Duda Salabert. Se João Leite realmente não concorrer no pleito, então Bruno e Duda disputarão a segunda vaga no segundo turno da eleição municipal contra Mauro Tramonte. Advirto, porém, que como todos os candidatos abaixo de Tramonte estão tecnicamente empatados, este cenário pode mudar. Atualmente o candidato mais bem colocado para vencer no segundo turno é Mauro, que se distancia dos demais pré-candidatos na atual conjuntura da eleição.
4. Rio Grande do Sul (Capital Porto Alegre)
A cidade de Porto Alegre é, em grande medida, uma cidade que tende a centro-esquerda (tanto quanto Belo Horizonte). Isso se destaca pelos resultados eleitorais dos pleitos mais recentes (desde 2000). O atual prefeito, Sebastião Mello (MDB), compõe o grupo político dos mais pragmáticos e centristas, estando no seu primeiro mandato. Este grupo é também o mais bem-sucedido eleitoralmente na cidade, indicando que embora a esquerda tenha grande tração no município, o centro (e até mesmo centro-direita) possui muita força de modo generalizado.
Em 2020, a disputa foi entre Sebastião Mello (MDB) e Manuela Dávila (PCdoB), sendo Mello o vencedor. Em 2016, foi entre Marchezan Júnior (PSDB), que venceu o candidato Sebastião Mello (do então PMDB). Em 2012, José Fortunatti (do PDT) venceu a candidata Manuela Dávila (PCdoB). Em 2008, José Fogaça (do então PMDB) venceu Maria do Rosário (do PT). Em 2004, José Fogaça (então do PHS) venceu Raul Pont (do PT). Em 2000, Tarso Genro (do PT) venceu Alceu Collares (do PDT).
Historicamente falando, nos anos 1990, o PT também teve sucesso em outras eleições, tanto com Tarso Genro (em 1992) quanto com Olívio Dutra (em 1988). Portanto, a esquerda petista e afins (PCdoB), assim como o legado brizolista (via PDT) são bem fortes na cidade. As elites políticas, no entanto, são capazes de mobilizar mais o eleitorado centrista e, portanto, rivalizar com as forças progressistas.
No pleito de 2024, os principais candidatos são: Sebastião Mello (MDB), o atual prefeito, seguido por Maria do Rosário (do PT) e Juliana Brizola (do PDT). Em quarto lugar aparece Any Ortiz (Cidadania) e em quinto lugar aparece Dr. Thiago (União). Outros nomes como Comandante Nádia (PL) e Felipe Camozzato (NOVO) aparecem em algumas pesquisas, mas ainda não foram confirmados como pré-candidatos. As mais recentes pesquisas indicam a seguinte tendência de voto:

Aparentemente há uma clara tendência de segundo turno entre Sebastião Mello (MDB) e Maria do Rosário (PT), visto que nenhum dos dois parece ter condições de alcançar maioria no primeiro turno. Neste sentido, as chances de vitória no primeiro turno entre os candidatos são o seguinte:
Sebastião Mello: 40.1%
Maria do Rosário: 36.5%
Juliana Brizola: 10.8%
Any Ortiz: 9.0%
Dr. Thiago: 3.6%
O PT (e a esquerda ligada a ela) não vence uma eleição em Porto Alegre desde 2000, quando Tarso Genro foi reeleito prefeito da cidade. Em 2024, as chances do PT voltar ao poder na cidade são bem mais consistentes, embora não determinantes. Há uma ligeira vantagem para o prefeito Sebastião Mello, que pode conseguir a reeleição a depender do desenvolvimento do pleito. Maria do Rosário começou a crescer depois das chuvas no Rio Grande do Sul, sugerindo o impacto tanto das ações do Governo Federal quanto as inações do governo municipal e estadual diante da tragédia.
Em eventual Segundo Turno, Mello poderia herdar os votos potenciais de Ortiz e Thiago, enquanto Maria do Rosário poderia herdar os de Juliana Brizola. Neste sentido, considerando os votos potenciais no segundo turno, as chances de vitória são de 52% para Mello e 47% para Rosário. Importante considerar que não estamos incluindo potenciais candidatos que ainda não confirmaram suas candidaturas (como a Comandante Nádia e Felipe Camozzato), ambos de direita. Em eventual Segundo Turno, os votos deles também iriam para Mello.
5. Paraná (Capital Curitiba)
Na cidade de Curitiba, o pleito decidirá o sucessor do prefeito Rafael Greca (do PSD), que está no fim de seu segundo mandato. Este pleito tem sido palco de um dos maiores conflitos entre o bolsonarismo e o lulismo dentre as capitais do país. O governador Ratinho Júnior (também do PSD) apoia a candidatura de Eduardo Pimentel (do mesmo partido e atual vice-prefeito de Curitiba, do grupo de Greca).
Nas eleições anteriores (de 2000 para cá), a centro-direita sempre levou a melhor. Em 2020, Rafael Greca (então no DEM) vence Goura Nataraj (do PDT). Em 2016, Greca (que estava no PMN) vence o candidato do PSD (Ney Leprevost). Em 2012, Gustavo Fruet (do PDT) venceu Ratinho Jr. (então do PSC). Em 2008, Beto Richa (PSDB) vence Gleisi Hoffmann (do PT). Em 2004, Richa (PSDB) vence Ângelo Vanhoni (do PT). Em 2000, Cássio Taniguchi (do PFL) vence Ângelo Vanhoni (do PT), tendo Beto Richa como seu vice e futuro sucessor.
A disputa deste ano está entre os seguintes candidatos: Eduardo Pimentel (PSD), Luciano Ducci (PSB) que possui apoio da direção nacional do PT, Ney Leprevost (União Brasil), Roberto Requião (PMN), Beto Richa (PSDB), Paulo Martins (PL), sendo ele o candidato bolsonarista e Goura Nataraj (PDT). Demais candidatos não alcançaram 5% das intenções de voto. Para compreender como estes candidatos estão posicionados no pleito, observemos a tabela a seguir. Mas antes, consideremos que há discussões se Goura irá manter candidatura e se Paulo Martins será vice de Pimentel ou não (numa aliança Ratinho Jr e Bolsonaro). Portanto, os números não são definitivos.

De acordo com a pesquisa Paraná de Julho, a mais recente de todas, Pimentel aparece disparado na liderança, com 24% das intenções de voto. Ele é apoiado por Deltan Dellagnol (NOVO), que desistiu de sua candidatura em Maio deste ano, e possui apoio informal de Bolsonaro, que costura aliança com o governador Ratinho Jr. para o pleito municipal. Se Martins (PL) se tornar vice de Pimentel (PSD), esta aliança estará selada.
A pesquisa também indicou que Requião (PMN) e Beto Richa (PSDB), ambos ex-governadores do Paraná, lideram os índices de rejeição. Se consideramos estes dados junto as pesquisas acima, vê-se que a tendência é um segundo turno entre Eduardo Pimentel disputado contra Luciano Ducci (PSB), candidato apoiado pelo PT, ou Ney Leprevost (União), ambos virtualmente empatados. Considerando os números acima, faremos uma avaliação das chances de vitória dos cinco candidatos mais bem colocados neste momento no primeiro turno.
Eduardo Pimentel: 30.94%
Luciano Ducci: 18.85%
Ney Leprevost: 18.71%
Roberto Requião: 16.27%
Beto Richa: 13.73%
Em eventual Segundo Turno entre Pimentel e Ducci, podemos considerar que parte dos votos de Requião iriam para Ducci (por afinidades ideológicas), enquanto parte dos votos de Richa e Leprevost iriam para Pimentel. Neste caso, as chances de vitória de cada um seria de 64% para Pimentel e de 35% para Ducci.
6. Bahia (Capital Salvador)
O atual prefeito, Bruno Reis (União Brasil), foi eleito na eleição de 2020, vencendo de forma clara a candidata do PT, Major Denice. Tendo sido vice do ex-prefeito ACM Neto (do então DEM), Bruno Reis pertence ao grupo político que governa a cidade desde 2012 e que, na verdade, possui forte tradição desde 1992 através do PFL (sigla anterior do DEM e que, hoje, é o União Brasil).
Em termos de história, o DEM tem dominado a vida política da cidade há pelo menos 20 anos. Em 2020, como dito, Bruno Reis (do então DEM) venceu Major Denice (PT). Em 2016, ACM Neto (do então DEM) venceu Alice Portugal (do PCdoB). Em 2012, ACM Neto (DEM) venceu Nelson Pelegrino (PT). EM 2008, João Henrique (PMDB) venceu Walter Pinheiro (PT). Em 2004, foi a vez de João Henrique (então no PDT) vencer César Borges (do então PFL, antigo DEM). Em 2000, Antônio Imbassahy (também do então PFL, antigo DEM), venceu Nelson Pelegrino (PT), repetindo o resultado contra o mesmo candidato da eleição de 1996. Em 1992, Lídice da Mata (PSDB) venceu Manoel Castro (PFL, antigo DEM).
Todos os candidatos do DEM (atual União Brasil) estavam ligados ao chamado ‘carlismo’, ou seja, pelo grupo político de António Carlos Magalhães (o ACM original). Esta influência se mantém até hoje com Bruno Reis, oriundo do grupo político herdeiro de ACM, via ACM Neto.
Para a eleição de 2024, os principais candidatos são: Bruno Reis (União Brasil), Geraldo Júnior (MDB) e Kleber Rosa (PSOL). É curioso observar que em toda eleição, a esquerda soteropolitana possui pelo menos um representante, sempre ligado a um dos partidos do ‘bloco’ de esquerda brasileiro (PT, PCdoB ou PSOL). Embora o PDT tenha tido seus representantes, ele não pertence a este mesmo bloco.
Entre estes candidatos, eis como as pesquisas os posicionam atualmente:

Como as pesquisas sugerem, existem grandes chances de não acontecer o segundo turno, visto que Bruno Reis já está perto de ter mais dos 50% dos votos válidos. No primeiro turno, eis as chances de vitória de cada um:
Bruno Reis: 71.2%
Geraldo Júnior: 21.5%
Kleber Rosa: 7.3%
Se houver segundo turno entre Bruno Reis e Geraldo Júnior e assumindo que os votos de Kleber Rosa migrem para ambos os lados, as chances de vitória de Bruno e Geraldo seriam de 75% para Bruno e de 25% para Geraldo. Portanto, Bruno Reis potencialmente será reeleito, com grandes chances disso acontecer no primeiro turno.
7. Pernambuco (Capital Recife)
Pernambuco é um estado sui generis em alguns sentidos. A família Arraes domina a política do Estado a mais de 50 anos e possui braços em todos os setores da vida pública do estado (desde os poderes legislativo e judiciário, como também no executivo). Oriundo do ex-governador Miguel Arraes, seus descendentes alcançaram proeminência política na posterioridade. Incluindo, por exemplo, o ex-governador e ex-candidato a presidência morto em 2014, Eduardo Campos.
Conhecer esta história é importante pelo seguinte motivo. O atual prefeito de Recife, João Campos (PSB) é filho de Eduardo Campos, neto de Ana Arraes (ex-deputada federal e ex-juíza do Tribunal de Contas) e bisneto de Miguel Arraes. A deputada Luísa e Marília Arraes são também netas de Miguel Arraes.
Atualmente a família política rival dos Arraes (e Campos, por extensão) são os Lyra (da atual governadora, Raquel Lyra).
Dito isso, nos últimos 20 anos de política em Recife, os grupos políticos mais importantes foram aqueles ligados ao PSB (de Eduardo Campos) e os ligados ao PT. Em 2000, João Paulo (PT) venceu Roberto Magalhães (do então PFL, atual União Brasil). Em 2004, João Paulo (PT) foi reeleito, vencendo Carlos Eduardo Cadoca (do então PMDB). Em 2008, João da Costa (PT) venceu Mendonça Filho (do então DEM, atual União Brasil). Em 2012, Geraldo Júlio (PSB) venceu Daniel Coelho (PSDB). Em 2016, Geraldo Júnior (PSB) foi reeleito, vencendo o ex-prefeito João Paulo (PT). Em 2020, foi a vez de João Campos (PSB) vencer a prima, Marília Arraes (PT).
Atualmente, os principais candidatos à prefeitura do Recife são João Campos (PSB), Daniel Coelho (PSD), Gilson Machado (PDT) e Dani Portela (PSOL).
De acordo com as mais recentes pesquisas, assim está a tendência de voto na cidade:

Embora se coloque outros candidatos, como João Paulo (PT) e Priscila Krause (Cidadania), ambos não foram considerados porque o PT (no caso de João) ainda não decidiu por candidatura própria na cidade. A vice-governadora Priscila Krause também não está com sua candidatura confirmada. Logo, incluiu-se aqui apenas os pré-candidatos confirmados. Outros pré-candidatos confirmados, como Túlio Gadêlha (Rede) não foram incluídos pois não aparecem com grande impacto eleitoral (abaixo dos 1%).
Em termos de chances de ser eleito no primeiro turno, João Campos desponta como franco favorito, tendo suas chances acima dos 90%. Os demais candidatos possuem chances remotas, nos idos dos 5%. Portanto, trata-se de uma das eleições de capital mais abertamente pré-decididas de todas (conjuntamente com o Rio de Janeiro, aonde Eduardo Paes é o franco favorito a reeleição e Salvador, aonde Bruno Reis posiciona-se como favorito).
8. Ceará (Capital Fortaleza)
O Estado do Ceará vive desde pelo menos uns 30 anos a influência direta da família Ferreira Gomes e de políticos centrais, como Tasso Jereissati, na sua vida eleitoral e partidária. Na cidade de Fortaleza, esta influência é ainda maior, visto que desde os anos 1980, a família não apenas influencia a cidade com seu grupo político (hoje no PDT, mas no passado em outros partidos, como PSB e PMDB), como também governou a cidade mais de uma oportunidade.
Ciro Gomes (do então PMDB) foi prefeito de Fortaleza em 1988, quando venceu Edson Silva (do PDT). O PMDB ficaria mais doze anos no poder com Antônio Cambraia (1992) e Juraci Magalhães (1996 e 2000). Em 2004, é eleita Luziane Lins (do PT), vencendo Moroni Torgan (do então PFL, hoje União Brasil), e em 2008 sendo reeleita depois de vencer o mesmo candidato (Torgan, PFL). Em 2007, Cid Gomes (irmão de Ciro Gomes) é eleito Governador do Ceará (pelo PSB), trazendo, assim, a influência da família para o pleito na capital. Em 2012, Roberto Cláudio (do então PSB e aliado de Cid Gomes), é eleito prefeito de Fortaleza, vencendo Elmano de Freitas (do PT).
Em 2016, Roberto Cláudio (agora no PDT, junto dos irmãos Gomes), disputou a reeleição contra Capitão Wagner (do então PR), vencendo-o com ampla vantagem. Em 2020, seu candidato à sucessão e aliado dos Ferreira Gomes, José Sarto (do PDT) é eleito prefeito de Fortaleza, vencendo novamente o Capitão Wagner (do então PROS).
O cenário de 2024, no entanto, está um pouco tumultuado devido à racha entre os irmãos Gomes. Dado a grande influência deste grupo político no Ceará, é pertinente fazer um pequeno resumo da contenda entre Ciro e Cid Gomes, desde o fim das eleições gerais de 2022. Naquele pleito, Cid queria lançar Izolda Celda (do PDT), governadora do Ceará após o governador Camilo Santana (do PT) se licenciar do cargo para disputar o Senado. Ciro, contudo, via esta indicação como uma interferência do PT no PDT, e como ele queria que seu partido fosse independente do PT no Ceará, ele defendeu o nome do ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (agora no PDT, junto dos padrinhos, Cid e Ciro Gomes). Assim o partido o escolheu como candidato, mas amargou uma grande derrota.
No entanto, esta escolha rompeu a aliança dos Ferreira Gomes com o PT que já perdurava duas décadas no Estado. O PT acabou lançando Elmano de Freitas. Cid, contrariado, se afastou da disputa estadual e presidencial no primeiro turno, abdicando da coordenação de campanha do irmão (posto que ocupou nas outras disputas presidenciais de Ciro). Já no segundo turno, Cid Gomes atuou como cabo eleitoral de Lula, o que para Ciro foi considerado uma traição e uma ‘facada nas costas’. Ambos não se falam desde este episódio.
No Ceará, Cid Gomes tem mais influência do que Ciro, de modo que quando os irmãos entraram para o PDT em 2015, a intenção era fortalecer o partido no nível estadual e nacional. A estratégia deu certo. Mas agora, com Cid fora do PDT e de volta ao PSB, o partido se enfraqueceu e Ciro Gomes (que amargou a maior derrota eleitoral no Ceará na disputa de 2022, tendo recebido um quociente de votos muito menor do que a de 2018), decidiu deixar a política e se aposentar.
Neste cenário, o jogo eleitoral de 2024 está um pouco embaralhado, dando maior força ao candidato da direita Capitão Wagner (atualmente do União Brasil e candidato bolsonarista informal). Além dele na disputa, temos o atual prefeito, José Sarto (PDT), o deputado André Fernandes (do PL), Evandro Leitão (do PT) e Eduardo Girão (NOVO). Demais candidatos não chegam a 5% dos votos ou não confirmaram candidatura.
De acordo com as mais recentes pesquisas, assim está a situação de cada candidato:

Se analisarmos as pesquisas em seu compilado, podemos sugerir que nenhum candidato tem chances reais de vencer no primeiro turno. Portanto, o segundo turno em Fortaleza é praticamente uma garantia. No entanto, alguns candidatos tem vantagem óbvia. A seguir eis as chances de cada candidato vencer no primeiro turno:
Capitão Wagner (União): 42,31%
José Sarto (PDT): 23,17%
André Fernandes (PL): 16,71%
Evandro Leitão (PT): 11,38%
Eduardo Girão (NOVO): 6,43%
Em eventual segundo turno, aonde os dois primeiros colocados disputam a prefeitura, possivelmente teremos Capitão Wagner contra José Sarto (atual prefeito). Considerando que os votos do PT migrem para José Sarto e que os votos do PL e NOVO migrem para Capitão Wagner, as chances de cada um deles em ser eleito no segundo é de 51% para Capitão Wagner e de 27% para José Sarto.
PARTE III
Conjunturas, Estratégias e Tendências
Antes de passarmos para as análises e tendências deste pleito municipal de 2024 no país, é importante explicar ao leitor como funciona o voto para as Câmaras de Vereadores. Afinal, não é apenas o prefeito que é eleito, mas os vereadores também. Para prefeito, a regra é clara: o candidato mais votado vence. Se no primeiro turno não houver um candidato que tenha tido mais de 50% dos votos, então há segundo turno e os dois melhores colocados disputam a vaga. No entanto, esta regra só é aplicada a municípios com mais de 200 mil eleitores. Se houver mais de 200 mil, então há segundo turno. Se houver menos, então o candidato mais votado no primeiro turno torna-se o novo prefeito(a).
No caso da eleição para a vereança (assim como para deputados, tanto federais quanto estaduais), os votos não são contabilizados apenas para o candidato, mas também para o partido. A este sistema dá-se o nome de ‘sistema proporcional’. Imagine uma cidade com 100 mil habitantes e 10 cadeiras na Câmara dos Vereadores. Neste caso, o quociente eleitoral é de 10 mil votos para ser eleito para uma cadeira.
No entanto, os votos totais que o partido recebeu são contabilizados. Se o partido obteve 20.500 votos, isso significa que elegeu pelo menos dois vereadores. Pode acontecer situações pitorescas, como um candidato sozinho levar 30 mil votos e outros candidatos do partido juntarem pouco mais de 1 mil votos. Neste sentido, mesmo que o segundo e terceiro nome do partido tenham tido ínfimos votos, eles ganham o direito a cadeira na Câmara devido ao quociente eleitoral do partido (que é de 31 mil votos).
Se o partido, por outro lado, não chegar ao quociente eleitoral, ele não elegerá ninguém. É importante notar que o quociente eleitoral muda de eleição para eleição. Se um município em 2020 tinha 190 mil eleitores e em 2024 passou a ter 210 mil eleitores, então nesta cidade o quociente para a Câmara será diferente e caso nenhum candidato a prefeito alcance a maioria dos votos (mais de 50%), então haverá segundo turno.
Dito isso, eis o quociente eleitoral para a Câmara de Vereadores das capitais analisadas na Parte II deste artigo (considerando potencial de votos, sem os nulos e brancos):
São Paulo: 169.500 (55 cadeiras)
Rio de Janeiro: 99.805 (51 cadeiras)
Belo Horizonte: 48.540 (41 cadeiras)
Porto Alegre: 30.300 (36 cadeiras)
Curitiba: 37.900 (38 cadeiras)
Salvador: 45.120 (43 cadeiras)
Recife: 30.800 (39 cadeiras)
Fortaleza: 40.000 (43 cadeiras)
Estratégias Partidárias
Há um sem número de estratégias partidárias que podem ser fomentadas para alcançar o objetivo de eleger vereadores e prefeitos. Normalmente, considera-se o ‘potencial de voto’, ou a famosa ‘elegibilidade’ de um candidato ou partido numa dada eleição. A isso não darei muita importância neste texto, visto que sou crítico do termo ‘elegibilidade’. Acredito que todo candidato é ‘elegível’, se desenvolver a estratégia certa. Aqui, faremos uma digressão dos tipos de estratégias mais comuns entre os partidos para alcançarem os objetivos do pleito.
Como vimos na Parte I, o Brasil tem cerca de oito partidos que, a nível nacional, possuem grande sucesso eleitoral. São eles o MDB, PT, PSDB, Progressistas, União Brasil, PL, Republicanos e PSD. A nível regional, vale a pena incluir demais partidos, como o PSB, PDT, PRD (oriundo da fusão entre PTB e Patriotas, atualmente com 266 prefeitos), Podemos (oriundo da fusão entre PSC e PHS, atualmente com 219 prefeitos) e o Cidadania (antigo PPS, atualmente com 140 prefeitos).
Os oito partidos citados anteriormente possuem também grande financiamento do Fundo Partidário, o que contribui bastante na formação de alianças locais e nas campanhas eleitorais. É pertinente considerar que o jogo nacional também exerce grande influência no jogo local. As famosas ‘emendas do relator’, que começaram no governo Bolsonaro e permanecem no governo Lula, nada mais são do que financiamentos não contabilizados ou pouco transparentes que, muitas vezes, servem para contribuir no jogo pessoal ou partidário nos estados e regiões do país. Uma emenda X que favorece as prefeituras A, B e C podem ajudar a eleger os prefeitos destas cidades, por exemplo.
Do mesmo modo, as alianças favorecem a formação de chapas vencedoras, especialmente no contexto das eleições majoritárias (prefeituras). O que é conversado entre lideranças partidárias é o quanto vale a aliança com partido X ou Y, o quando vale o apoio de um grande ‘puxador de voto’, como Lula e Bolsonaro. Qual seria o candidato de um e de outro na cidade em questão, e como o partido pode (usando estes cabos eleitorais) atrair voto suficiente para chegar e passar o quociente eleitoral. Tudo isso acontece na pré-campanha (antes das convenções partidárias que oficializam as candidaturas), até o começo em si do período eleitoral (os registros de candidatura acontecem até dia 15 de Agosto). O primeiro turno acontece dia 6 de Outubro (domingo) dando a campanha em si em torno de um mês (Setembro) para acontecer.
Para o eleitor, importa saber quais são os partidos, candidatos e alianças que estão em campo para o pleito. Na sua cidade, não procure apenas pelo candidato que mais lhe agrada individualmente (como perfil pessoal). Isso é importante e válido. Mas é igualmente importante saber de qual partido ele é e quais são as alianças nele impostas. Embora cada político tenha autonomia para fazer do seu mandato o que bem entender, esta autonomia não é tão absoluta quando se fala da fidelidade partidária. Há, inclusive, elementos disruptivos pós-eleição neste sentido.
Se um determinado político, que possui um cargo na Câmara dos Vereadores ou na Prefeitura se desentender com o seu partido e quiser sair de seu partido para migrar para outro, o partido pode denuncia-lo de acordo com a Resolução-TSE nº 22.610/2007. Se o político se desvencilhar de seu partido sem justa causa, ele pode perder o mandato. E isso coloca em perigo todos os votos que ele recebeu (inclusive o seu). Para mandatos majoritários é mais difícil disso acontecer. Mas para mandatos proporcionais, como o de deputados (federais e estaduais) ou vereadores, isso é mais comum.
Outro elemento importante é a comunicação. Embora a Internet seja grande aliada para a campanha de um partido e político, a injeção financeira sempre é um reforço bem-vindo, assim como o tamanho do partido. De acordo com a legislação eleitoral, 90% do tempo de campanha nas rádios e TVs do país é dividido proporcionalmente de acordo com o número de deputados por partido. O restante – 10% - é dividido de forma igualitária. Isso significa que os oito partidos citados acima, em especial aqueles com maior bancada na Câmara dos Deputados (MDB, PT, PSDB, Progressistas, União Brasil, PL, Republicanos e PSD) terão mais tempo do que demais partidos.
Estes tempos ficaram acertados, para 2024, da seguinte forma:
PL: 14 minutos
Federação PT/PCdoB/PV: 11 minutos e 19 segundos
União Brasil: 8 minutos
Progressistas: 6 minutos e 39 segundos
PSD e MDB: 5 minutos e 57 segundos
Republicanos: 5 minutos e 50 segundos
Questão pertinente: o tempo de TV é ainda definidor numa eleição brasileira?
Em 2018, Jair Bolsonaro tinha apenas 8 segundos de TV, enquanto Geraldo Alckmin (até então no PSDB), tinha 5 minutos e 32 segundos. No entanto, Alckmin nem chegou a ir para o segundo turno e Bolsonaro acabou sendo eleito. É claro que, na eleição de 2018, muita coisa atípica aconteceu. Lula, principal candidato das esquerdas, estava preso e inelegível. Bolsonaro levou uma facada e já era muito popular nas redes. A temperatura da população era mais polarizada, mais radicalizada devido aos anos Lava Jato e crise. Tudo isso contribuiu para um candidato ‘de fora’ do sistema ganhar tração.
Em 2024, numa eleição municipal, o jogo é diferente. E para tanto, temos de lembrar como foi o pleito de 2020. Neste pleito, os partidos que tinham mais tempo de exposição nas rádios e TVs conseguiram também maior tração eleitoral. E isso acontece porque, no nível municipal, importa mais a comunicação local do que o contexto nacional. Sejam nos recintos comerciais, nos carros, nas casas, as pessoas ouvem TV e rádio. Nas ruas, há sempre as imagens dos candidatos, que impregnam o ambiente público (ou até poluem o ambiente público). Isso tem tanto impacto quanto as redes (que neste caso, somam, ao invés de sobrepor-se aos meios tradicionais de comunicação). Isso acontece porque a propaganda veiculada na rádio ou TV repercute e é repetida nas redes, criando um ‘echo chamber’ poderoso para aqueles que tiveram grande exposição mediática.
Previsões e Análise de Conjuntura
Como vimos anteriormente, a tendência para o pleito de 2024 é que os partidos mais bem posicionados em termos de fundo partidário, tempo de exposição mediática e fortes alianças regionais sejam também os partidos e candidatos mais bem posicionados para alcançarem sucesso eleitoral. Essa é a tendência geral. Mas neste jogo, três forças estão em ação em 2024: o lulismo, o bolsonarismo e o patrimonialismo. Todos se utilizam do clientelismo (que é a prática da troca de favores, legal ou não, para ganho político), mas há algumas particulares diferentes que tratarei a seguir.
Como vimos no meu artigo sobre o lulismo e bolsonarismo (link), ambos são expressões políticas brasileiras que encontram na figura do presidente Lula e do ex-presidente Bolsonaro suas representações de caráter ideológico e social. Não sendo aqui tão importante a figura, mas aquilo que ela representa. O lulismo é uma força progressista e trabalhista, enquanto o bolsonarismo é uma força conservadora. Ambos no espetro do populismo e do personalismo, mas com raízes histórico-culturais.
Já o patrimonialismo é o sistema político na qual o Estado e os interesses privados se confundem, criando uma relação perversa diante das instituições democráticas. É a prática do nepotismo, por exemplo. A prática do político dono de emissoras de rádio e TV usar isso a seu favor, a despeito da lei eleitoral. É a prática do uso do dinheiro público para favorecer interesses pessoais ou partidários de forma não-transparente e/ou ilegal. Essa prática, que embora seja comum também entre lulistas e bolsonaristas, é uma prática tradicional da política brasileira, por vezes conhecia como ‘fisiológica’. Estamos falando aqui das antigas famílias políticas do país, dos antigos grupos políticos ou das forças que, décadas e décadas a fio, mantém algum tipo de influência no jogo local.
São estas três forças que estão movimentando o jogo político municipal, como também o nacional. Lula tem os seus candidatos, Bolsonaro tem os seus candidatos e os patrimonialistas tem os seus candidatos locais também. Vimos isso nos exemplos dados das oito capitais. Isso independente de região. Embora no Nordeste as famílias políticas sejam mais conhecidas, elas também existem no Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Norte. Dou um exemplo da minha cidade, o Rio de Janeiro. Aqui, temos os Maia (César e Rodrigo Maia), os Bolsonaro, temos os Picciani, temos os Garotinho e assim por diante. E no seu estado, garanto que saberia dizer um ou dois nomes conhecidos décadas a fio.
Não posso fazer aqui uma previsão para os mais de 5 mil municípios brasileiros, mas posso garantir que estas três forças estarão presentes e que, de acordo com o contexto local, irão determinar as bancadas nas Câmaras de Vereadores e as Prefeituras. E será este resultado que irá nos dizer em que pé estamos para 2026. Se o patrimonialismo mostrar mais força do que o bolsonarismo e o lulismo, isso é bom sinal. Significa que, apesar dos ‘ismos’ referidos serem unificadores nacionais numa eleição geral, elas não são superiores aos comandos e estratégias das elites locais. Mas se o lulismo e bolsonarismo superarem as forças tradicionais, será sinal de uma profunda polarização nacional que tende a ser representada em 2026.
A eleição paulista é um bom exemplo. Embora Ricardo Nunes (MDB) tenha apoio formal de Jair Bolsonaro, ele se recusa em se auto denominar um ‘bolsonarista’. Ele é, na verdade, um patrimonialista. Um político da extirpe tradicional. Já Pablo Marçal (PRTB) não apenas se declara bolsonarista (mesmo sem ter apoio formal de Bolsonaro), como faz questão de ensejar os bolsonaristas paulistas a votarem em seu bolsonarismo ‘puro sangue’. Quem levar a melhor entre ambos (e a meu ver será Nunes), indicará para todos nós o que São Paulo (realmente) pensa a respeito da polarização.
No Rio de Janeiro, Eduardo Paes é um candidato patrimonialista, membro de um grupo partidário que representa as elites cariocas tradicionais e burocráticas. Ramagem é o bolsonarista e Tarcísio Motta é o lulista. Ambos em minoria diante da força de Paes. Mas e se não fosse Eduardo Paes o candidato? E se as forças tradicionais não tivessem representante numa eleição aonde lulismo e bolsonarismo atuam? Isso pode sugerir uma outra tendência de futuro. Ao passo que temos três forças políticas brigando por espaços de poder, estas forças irão desmantelar umas as outras, até os mais fortes preponderarem.
Esse é um risco real e que não apenas pode ser visto em 2024, mas nos anos não eleitorais também (como 2025). De que modo os governos e oposições dialogam nas Câmaras de Vereadores? Como os prefeitos governam? Quais são as coalizões destes prefeitos nos seus legislativos? É possível PT e PL votarem juntos a nível municipal? E como esta tripartição favorece o jogo nacional?
Parte IV
Reflexões Finais
Para concluir, creio que é pertinente resumir o que tiramos de lição deste artigo com uma reflexão abrangente. Meu objetivo aqui não foi apenas mapear o cenário político brasileiro em 2024, mas foi também dar aos leitores mais conhecimento acerca desta Babilônia em que vivemos. A distância entre o representante e o representado não é fruto de mero desinteresse do eleitor, mas é também fruto de um sistema que não favorece a sua participação formal.
As três ‘supra forças’ que estão em campo no jogo eleitoral das municipais deste ano são forças que ou pertencem ao espectro do populismo ou do fisiologismo. No primeiro caso, o eleitor entrega ao seu ‘salvador’ a voz da razão, terceirizando, assim, a decisão. No segundo, o eleitor procura por certa facilidade e estabilidade. Ele não vai se preocupar com cada proposta, com cada elemento propositivo que o candidato oferece. Ele vai votar de acordo com seu bolso e de acordo com seu humor de momento. Os prefeitos-candidatos ou partidos governistas tendem a usar a seu favor a máquina para aprimorar a vida do cidadão ‘de momento’. Logo, ele vai à urna com um sentimento mais positivo em relação ao governo. Num país como o Brasil, isso tem impacto.
Como também tem impacto formas mais questionáveis de influenciar os votos. Quer direta ou indireta. Neste sentido, o eleitor tem muita pouca autonomia. Ele é obrigado a escolher entre as opções que existem. E se estas opções se concentram entre ‘aquilo que está lá’ ou ‘o menino(a) do Lula’ ou ‘o menino(a) do Bolsonaro’, ele vai votar de acordo com um destes fatores. Em especial nas eleições para a vereança. Entre os múltiplos candidatos que os partidos oferecem, a grande maioria nem será lembrada. E isso é um desvio que culpabilizo o sistema proporcional.
Temos mais de 15 partidos. Todos eles lançando seus candidatos. É claro que nem todos irão lançar listas grandes de candidatos, mas os partidos maiores, com mais tempo de TV, tendem a ter uma longa lista de candidatos a vereança. Num tempo de TV que deve ser dedicado a todos eles, há de se priorizar aqueles que são mais populares e conhecidos (os puxadores de voto), enquanto os que são menos conhecidos ficam com mínima exposição. Sorte daqueles que ficarem em segundos, terceiros, quartos e quintos lugares nos seus partidos. Pois se um, dois ou três candidatos conseguirem um quociente eleitoral suficiente para cinco ou seis cadeiras, haverá ali quatro ou três que serão eleitos mesmo sem nem serem conhecidos pela população.
Mesmo entre prefeitos. Muitas vezes faz mais sentido participar de uma coligação e ganhar apoio de um candidato a prefeitura conhecido, junto de candidatos a vereança também conhecidos, do que lançar candidatura própria que irá cair no esquecimento (ser candidato a prefeito em partido pequeno e com menos de 2% de intenções de voto?). A eleição majoritária e proporcional no Brasil é um ‘concurso de quem é mais lembrado’. E isso acaba criando situações caricatas e muito despolitizantes. Numa conjuntura de lulismo, bolsonarismo e patrimonialismo, o jogo está dado.
Para o eleitor que está a ler este texto, eis o que sugiro:
1º. Escolha de acordo com o que acha que é melhor para a cidade
2º. Ao determinar quem você gosta, olhe o partido e as alianças do candidato (seja para prefeito ou para vereador)
3º. Veja quem serão os seus suplentes (no caso da vereança) e o vice-prefeito (no caso do prefeito)
4º. Ignore o lulismo, bolsonarismo e o patrimonialismo > VOTE NO MELHOR CANDIDATO NA SUA AVALIAÇÃO PESSOAL.
5º. Estabeleça como critério o preparo e a capacitação do indivíduo, mais do que o seu carisma.
Com estas cinco dicas, a tendência é que o leitor deste artigo consiga dar o seu voto com maior seriedade e civilidade. Não que isso irá mudar o resultado final do conjunto de votos. Mas, fará de você uma pessoa mais politizada e mais consciente do nosso sistema político. Sabendo o que acontece, você ficará mais crítico(a) do seu prefeito e de seus vereadores, de modo que eleição após eleição será possível identificar com maior clareza aquele que é um político voltado para o bem público e aquele que está lá apenas para benefício próprio.
Quem sabe um dia não mudemos o sistema proporcional pelo sistema distrital. Neste (como acontece no Reino Unido e nos EUA), um determinado território é dividido em distritos, de acordo com o número de assentos no legislativo. Por exemplo, imagine que a cidade do Rio de Janeiro, com 51 assentos na Câmara de Vereadores, é dividida em 51 regiões (chamados de distritos). Cada região terá um número de candidatos únicos por partido que irão disputar (de forma majoritária) o voto dos eleitores daquele distrito.
A maioria simples vence, fazendo do candidato a vereador o representante daquele distrito. Deste modo, impedimos as listas de candidatos desconhecidos e de vereadores eleitos cuja população mal o conhece. Garantimos maior representação para cada região da cidade e também debates públicos mais consistentes, fazendo com que a Câmara sirva de microcosmo da cidade e não apenas d’um amontoado de gente eleita de forma controversa.
O sistema político brasileiro não é perfeito, mas é o que temos. E dentro deste sistema, mais vale evitar a neblina de desinformação e da propaganda histérica e focar naquilo que é consistente, perene e eficiente. Aos poucos, voto a voto, vamos transformando o Brasil num lugar mais positivo de se viver.
Bom voto!
Obrigado pela leitura!
Sasha van Lammeren
Jornalista, Mestre em Comunicação Política e Doutorando em Ciência Política
Consultor e estrategista político

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