TRIUNVIRATO DA BALBÚRDIA II - Resultados e Consequências
- Harpia Network
- 29 de out. de 2024
- 16 min de leitura
INTRODUÇÃO
Em 21 de Julho deste ano (2024), publiquei o artigo ‘Triunvirato da Balbúrdia – Panoramas e Previsões’, aonde explorei os potenciais cenários das eleições municipais de 2024. Agora, terminado o segundo turno e já com todos os resultados declarados pelo TSE, podemos fazer uma segunda parte desta mesma análise, tendo em vista as consequências e o que podemos esperar da eleição geral de 2026. Como dito na parte I desta série, as eleições municipais brasileiras funcionam como as ‘mid-terms’ norte-americanas (eleições de meio de mandato presidencial, legislativas). Trata-se, para nós, de um termómetro: do eleitorado, de forças políticas e de tendências gerais.
E o que o termómetro das eleições municipais mostra é um cenário bastante interessante e revelador. Na parte I dissemos que esta eleição seria uma disputa entre um ‘triunvirato’: o centrão (partidos e políticos do centro fisiológico e tradicional da política brasileira), o bolsonarismo (políticos e partidos ligados ao apoio formal e influência de Jair Bolsonaro) e o lulopetismo (políticos e partidos ligados ao apoio formal e influência de Lula). Diante deste cenário, eis o resultado geral por partido:

Estes resultados sugerem o seguinte:
1º. O fortalecimento de partidos do Centrão puro: PSD, MDB, PP, União Brasil e Republicanos.
2º. Crescimento do PL de Bolsonaro em relação ao pleito anterior: com 166 novas prefeituras.
3º. Leve melhora do PT de Lula: com ganho de 68 novas prefeituras.
Mas o que tudo isso significa na prática? Qual é o balanço de forças e o que isso sugere para 2026? São estas questões que iremos responder a seguir, tanto na parte 1 (vencedores e perdedores), quanto na parte 2 (dinâmicas de poder) e na parte 3, a conclusão.
PARTE I
VENCEDORES E PERDEDORES
Para ter uma visão mais clara do quanto cada partido (e triunvirato) venceu, temos de olhar para as capitais, regiões do Brasil, grandes cidades e total de vereadores. A importância das capitais se baseia em três elementos: a). Colégio eleitoral (número de eleitores sob o comando do partido), b). Orçamentos municipais (o tamanho do dinheiro sob o comando do partido do prefeito) e, c). Impacto eleitoral (pela força da máquina pública municipal). Dito isso, eis os resultados nas capitais[1] na comparação entre 2020 e 2024:

O Brasil tem 26 estados e o Distrito Federal (Brasília). Portanto, tivemos 26 disputas por capitais de Estado. A disputa entre PL e PT (Bolsonaro e Lula) nas capitais ficou assim[2]:
O PL de Bolsonaro elegeu 4 dos seus 14 candidatos próprios e o PT de Lula elegeu 1 de seus 13 candidatos próprios. Mas nas coligações pelas capitais a história foi ainda mais discrepante. Jair Bolsonaro e seu partido (através de coligações com partidos aliados) elegeram no total 8 prefeitos de capital (incluindo Ricardo Nunes, do MDB) dos 12 que apoiaram, enquanto Lula e seu partido (através de coligações), ajudaram a eleger apenas 2 dos 13 candidatos que apoiaram (incluindo Eduardo Paes, do PSD).
Portanto, entre candidatos próprios e coligados, dos 26 candidatos nas capitais Brasil afora, Bolsonaro ajudou a eleger 12 prefeituras. Enquanto Lula ajudou a eleger 3 prefeituras. A única capital vencida pelo PT diretamente (Evandro Leitão, em Fortaleza) foi por uma diferença de apenas 0,76% dos votos (ou apenas 10.838 votos de diferença) contra o adversário de Bolsonaro, André Fernandes (do PL).
Neste sentido, fica claro que o bolsonarismo está muito forte frente ao lulismo (e petismo, por tabela). Em Porto Alegre (RS), por exemplo, Sebastião Melo (do MDB) teve apoio de Bolsonaro e venceu a candidata do PT, Maria do Rosário. Mas ao mesmo tempo, na capital de Goiás (Goiânia), Sandro Mabel (do MDB) teve forte apoio do governador Ronaldo Caiado (União Brasil) e conseguiu vencer o candidato bolsonarista Fred Rodrigues (do PL). Isso demonstra que, na projeção de forças, o Bolsonarismo é menor do que o centrão embora maior do que o lulismo. Muitos candidatos do PL se elegeram a despeito do apoio de Bolsonaro, pois tiveram forte apoio das elites políticas locais. Portanto, a análise crítica destes dados é recomendada.
Vejamos agora os ganhos e perdas por região e por partido:[3]
I. Região Sudeste:

II. Região Nordeste:

III. Região Sul:

IV. Região Centro-Oeste:

V. Região Norte:

Ganhos e perdas nas grandes cidades (municípios com mais de 200 mil eleitores)[4]:

Ganhos e Perdas nos Legislativos (Câmaras Municipais) [5]::

PARTE II
Análise – As Novas Dinâmicas de Poder
Os resultados gerais do pleito de 2024, na comparação com 2020, revelam um cenário preocupante para alguns partidos tradicionais e para as forças de esquerda. Os partidos considerados parte do ‘centrão’ tiveram um desempenho muito positivo, em especial o PSD (ganho de prefeituras, vereadores, capitais e grandes cidades), seguido por MDB, o PP e União Brasil. Pela direita, o PL foi o grande vencedor disparado, seguido pelo Republicanos. Na lanterna ficaram o PSDB (o maior perdedor desta eleição, ficando atrás em todas as métricas), seguido por PSB e PT (ambos tiveram perdas significativas em relação ao ciclo de 2020 mas cresceram de forma tímida em algumas métricas).
Como dito antes, embora o bolsonarismo e o centrão sejam coisas distintas, ambos se confluem em muitas cidades, assim como o centrão e o lulopetismo também se confluem. Neste sentido, para representar aqui uma divisão concreta de ganhos e perdas, iremos separar entre centrão puro (elites tradicionais), centrão fisiológico (que aceita apoios de todo lado), a direita bolsonarista (aqueles apoiados por Bolsonaro pessoalmente) e a esquerda lulopetista (aqueles apoiados por Lula diretamente).
PLACAR FINAL:
1º. Centrão puro (PSD, MDB, União Brasil, PP).
2º. Centrão fisiológico centro-direita (partes do PL, Rep., PP, PSD, MDB e União Brasil).
3º. Bolsonarismo (demais partes do PL e Republicanos)
4º. Lulopetismo (PT, PSB, PSOL).
As coligações vencedoras na qual o PT fez parte nas grandes cidades incluem Recife (que elegeu João Campos, do PSB, no primeiro turno) e Rio de Janeiro (que também elegeu Eduardo Paes, do PSD, no primeiro turno).
O caso do Rio de Janeiro é exemplar, pois a vitória de Eduardo Paes não tem relação alguma com o apoio do PT ou do Lula. Na verdade, pesquisas de intenção de voto chegaram a registrar que o apoio de Lula a Paes tirou votos do prefeito[6], ao invés de adicionar. Ao mesmo tempo, o desconhecido Alexandre Ramagem, nome do Bolsonaro na capital, saiu dos 10% para os 30% de voto só com o apoio do ex-presidente. Sintoma claro de que Eduardo Paes venceu por mérito próprio de sua gestão, e pouco pelo apoio alienante do PT. Tal sintoma também indica que a capital fluminense não necessariamente tenha ficado imune ao bolsonarismo.
Em Recife, pode-se dizer que algo parecido aconteceu. Embora o PT não tenha tirado votos de Campos, a verdade é que o prefeito venceu de forma contundente por méritos próprios, sem ter enfrentado grandes concorrências. Neste sentido, a real força do lulopetismo se desmantela por entre as estruturas do centrão e das elites locais, que dependem pouco ou quase nada do ‘apadrinhamento’ do atual presidente. São Paulo é outro indício claro. Guilherme Boulos, o herdeiro aparente do lulopetismo, gastou mais de 80 milhões de reais em sua campanha, tendo tido apoio direto de Lula, Janja e de toda a alta cúpula do PT. Mesmo assim, ele foi incapaz de vencer a barreira dos 40%.
Jair Bolsonaro venceu em São Paulo com Ricardo Nunes, embora de forma tímida. O grande fiador da candidatura Nunes foi Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador do Estado. A rixa com Pablo Marçal diminuiu sutilmente a força de Bolsonaro na capital paulista, mas não a patinou. O ex-presidente continua forte cabo eleitoral, tanto que Marçal só cresceu porque colou a sua imagem a de Bolsonaro e imitou o ex-presidente tanto em termos de discurso quanto em termos de polarização ‘contra o sistema’. O ‘marçalismo’, como cunhamos no texto ‘Marçalismo e o Novo Bolsonarismo’ é uma derivação do bolsonarismo raiz, de modo que pertencem ao mesmo tronco.
Entre os governadores, além de Tarcísio de Freitas (Republicanos, SP) e Ronaldo Caiado (União Brasil, GO), Ratinho Júnior (Paraná, PSD) é outro destaque[7]. Ele conseguiu emplacar o seu candidato em Curitiba, elegendo Eduardo Pimentel (PSD). Muitos dizem que isso representaria uma ‘racha’ na direita, que não é mais unificada em torno de Bolsonaro. Mas eu discordo desta classificação. A direita nunca foi ‘unificada’ em torno de Bolsonaro a nível regional. A aliança da direita com o bolsonarismo se deve a liderança nacional, que até então só deu fruto com a liderança de Bolsonaro nos pleitos de 2018 e de 2020. Estando ele inelegível, é natural que, para manter relevância política, seu movimento se institucionalize mais e que novas lideranças surjam para tentar ocupar o espaço vago da liderança nacional da direita.
Neste sentido, além de Pablo Marçal surgir como uma liderança do ‘bolsonarismo raiz’, com grandes ressalvas, temos Caiado, Ratinho Jr. e Tarcísio surgindo como lideranças mais institucionais da direita brasileira (a fisiológica). O bolsonarismo, no entanto, permanece sobre a liderança de Bolsonaro e seu clã, com importante relevância eleitoral em diversas capitais e regiões do país. Além de Marçal destaca-se Nikolas Ferreira (PL) como grande cabo eleitoral dos candidatos bolsonaristas raiz neste ciclo de 2024.
Historicamente falando, o que temos visto é na verdade um ‘retorno’ a normalidade política do país. Desde sempre a maior parte dos partidos brasileiros foram de direita ou centro-direita. Os partidos de esquerda sempre foram minoria (quer fosse com o antigo PCB de Luiz Carlos Prestes, ou ainda o antigo PSB de João Mangabeira) frente aos partidos de direita (como o antigo PSD de Dutra e JK, a UDN de Carlos Lacerda e mesmo o PTB – mais ao centro – de Getúlio Vargas). A pulverização partidária pós-regime militar e a vida política dos anos 1990, 2000 e 2010, hoje, já é passado.
Estamos vendo uma maior concentração de poder nos grandes partidos (PSD, MDB, PP, União, PL, Republicanos, PSB e PT). Em todas as métricas, os partidos nanicos perderam espaço para os grandes. O PSDB está se desmantelando aos poucos, e provavelmente irá acabar se fundindo com o Cidadania (como já vem sendo estudado pelas siglas[8]). A orientação ideológica por região também tem ficado bastante latente. Como observado nas tabelas anteriores, na Região Norte apenas Republicanos, PP e União Brasil cresceram, todos os demais grandes partidos diminuíram. No Centro-Oeste, somente o MDB (do Centrão puro) cresceu, além dele todos os partidos da direita e centro-direita cresceram e os demais diminuíram.
No Sul, mesma tendência. Republicanos, PL e PP cresceram (entre a direita), o PSD também cresceu (do Centrão puro) e todos os demais partidos caíram. No Sudeste houve uma repetição da tendência do Sul, mas com uma pequena ressalva para o PT que teve leve crescimento. Os demais caíram. Finalmente, no Nordeste, PP e PL caíram, mas todos os partidos do Centrão puro (PSD, MDB), do centrão fisiológico de direita (União Brasil) e da direita (Republicanos) cresceram, junto do PT e PSB (que também cresceram pela esquerda). O PSDB caiu em todas as regiões.
Neste sentido, se considerarmos:

Temos que, por região, as forças que mais possuem influência política direta são:

O que o mapa sugere é que a direita bolsonarista institucionalizada e raiz, juntos, possuem grande influência eleitoral no Sudeste e no Sul, como ficou evidente pelas coligações e pelos apoios diretos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Embora Tarcísio tenha sustentado a candidatura Nunes, a presença de Marçal e a rejeição de Boulos fundamenta São Paulo como uma capital majoritariamente de direita tendendo a direita bolsonarista (anti esquerda). O mesmo pode ser dito de Belo Horizonte (apesar da vitória de Fuad Noman do PSD contra o bolsonarista Bruno Engler, do PL, o bolsonarismo também é muito forte), Vitória (com o prefeito do Republicanos, Lorenzo Pazolini) e Rio de Janeiro (com a disputa entre o favorito, Paes, contra dois bolsonaristas - Ramagem e Rodrigo Amorim).
Já no Norte e Centro Oeste, é o Centrão fisiológico mais a direita que domina completamente o cenário, independente dos apoios ou interesses bolsonaristas. São as elites agrárias que influenciam os jogos de poder regional e que podem se impor localmente. No Nordeste tivemos uma mescla de Centrão puro, direita fisiológica, bolsonarista e esquerda como protagonistas dos pleitos. Historicamente redutos do PT, PSB e PDT, estes passaram a ter de lidar com a concorrência de bolsonaristas, além dos grupos locais (as elites tradicionais). Estes cenários sugerem que o Brasil está claramente se distanciando das esquerdas e optando ou entre o centrão puro (pragmático e não alinhado ideologicamente) ou com a direita (seja ela fisiológica ou bolsonarista).
PARTE III
Conclusão e Tendências para 2026
Os maiores vencedores deste pleito foram sem dúvida o Centrão Puro (PSD, seguido por MDB). Tanto em número de vereadores, prefeituras totais, capitais e grandes cidades. Este dado é indisputável e denota claramente que o centro pragmático ou de direita moderada tem ocupado os espaços que, até então, eram disputados com as esquerdas. Tanto o PSD de Gilberto Kassab quanto o MDB de Baleia Rossi se colocam como partidos centrais para coligações estaduais e presidenciais em 2026. Ter o apoio de qualquer um dos dois será estrutural, inclusive para formar maiorias no Congresso de 2027.
Dito isso, embora a polarização tenha diminuído um pouco devido ao fortalecimento do Centrão, o país ainda é um país frontalmente polarizado e um país majoritariamente de direita. Partidos como o PP (Progressistas), União Brasil, PL e Republicanos são partidos de direita. Sendo que o PP e o União Brasil podem ser considerados parte da direita ‘centrão fisiológico’ e o Republicanos e PL parte da direita bolsonarista ‘institucionalizada’. Foi a direita institucionalizada, aliada ou do centrão puro ou do centrão de direita, que ficou em segundo lugar no placar geral. Embora muitas lideranças não precisaram do apoio formal de Bolsonaro, mesmo assim Bolsonaro venceu concretamente entre elas.
Na comparação com o centrão puro (PSD e MDB), o Bolsonaro saiu perdendo. Não se trata mais de uma força hegemónica como foi em 2018 (geral) e 2020 (municipais). Mas, o bolsonarismo é seguramente a segunda maior força política do país depois do centrão. Num terceiro lugar honroso, podemos colocar o lulopetismo. Mas eu digo honroso, pois nem no terceiro lugar efetivamente o PT está. O PSB obteve mais prefeituras do que o PT e as vitórias em capitais foram em grande medida por rejeição ao bolsonarismo e apoio do centrão, não por influência direta do Lula. Isso significa que a força de Lula como cabo eleitoral é, hoje, diminuta.
Significa também que o que aconteceu em 2022 foi uma exceção à regra. O Brasil não fez as pazes com o PT ou com o Lula. O eleitor brasileiro fez (e faz) escolhas racionais em meio a escolhas emocionais. Por exemplo, parte do bolsonarismo raiz se fundamenta em escolhas emocionais (sentimento antissistema, anti esquerda etc.). Outra parte vota de forma racional contra candidatos percebidos como extremistas (seja pela esquerda ou pela direita). E outros votam de forma consciente pelos candidatos mais efetivos na governança (que respondem em algum grau as demandas locais). Não é que o eleitor esteja rejeitando a esquerda, mas o eleitor está optando ou por votar com a razão (no centrão puro ou fisiológico), ou, ao votar com a emoção, ele vota com o bolsonarismo.
Ou seja, a esquerda não possui mais a capacidade de apelar para a razão e nem pela emoção do eleitor. A esquerda não anima, não projeta alternativa capaz de engajar o eleitor. Esta falta de engajamento é o que tem feito as esquerdas perderam tanta tração anos após anos.
O Centrão Puro ganha espaço precisamente nisso: na perda de influência do lulopetismo, na falta de lideranças novas entre as esquerdas (o PDT naufragou diante da crise entre os irmãos Gomes) e na rejeição ao bolsonarismo.
O Centrão fisiológico pela direita ganha espaço na lacuna que o bolsonarismo deixa. Seja pela inelegibilidade do ex-presidente ou pela influência de líderes regionais, como governadores e caciques partidários que surfam no discurso da direita mas não necessariamente dependem do bolsonarismo.
Já a direita bolsonarista (raiz e institucionalizada) surfa na mesma onda do lavajatismo, do antipetismo, do anti-wokismo, do conservadorismo cultural e antissistema. Mesmo a parte institucionalizada precisa de elementos destes discursos para projetar a discrepância diante de líderes moderados (de centro ou de esquerda). Parte considerável do eleitorado ainda está preso a este discurso e narrativa, de modo que o bolsonarismo é seguramente uma força política considerável no Brasil contemporâneo. O surgimento de Pablo Marçal como um ‘novo líder’ dentro do bolsonarismo pode enfraquecer a longo prazo a liderança de Bolsonaro, mas isso ainda é muito periférico por agora. Jair Bolsonaro permanece como líder de facto, e Marçal como potencial.
O lulopetismo, por sua vez, é uma força em declínio. Lula é popular por si mesmo, ainda possuindo uma base eleitoral considerável dada a sua biografia e seu impacto nacional. Porém, o PT como partido está municipalmente menor do que o PSB. Se o PSDB está morrendo, o PT está na UTI sobrevivendo por ajuda de aparelhos (leia-se, popularidade do Lula). Muitas são as razões para isso, mas uma delas está relacionado a não compreensão do ‘novo Brasil’ que surgiu pós 2013 e do novo paradigma da economia digital, que vem alterando o significado do que é ser empreendedor e trabalhador. O Partido dos Trabalhadores tem de sair do seu discurso original sindicalista e nacional-desenvolvimentista, para um discurso mais engajado com as dinâmicas sociais e económicas deste século.
Enquanto o PSB se reinventa com lideranças jovens, como João Campos em Recife, o PT fica refém do lulismo a nível nacional e não tem um plano para o pós-lulismo. Não do ponto de vista institucional, visto que Boulos é o herdeiro do lulismo mas ainda como liderança do PSOL (partido que continua a ser um nanico entre as esquerdas). O PDT de Ciro Gomes implodiu e perdeu completamente relevância nacional, ao passo que agora começa a perder relevância também no seu único reduto: o Ceará.
Para 2026, é provável que o presidente venha candidato numa ampla coligação que inclua a Federação das esquerdas (PSB, PT, PV e REDE) junto ao PSOL e talvez do PDT (se Lupi se impor ao Ciro novamente). Mas isso não basta. Lula precisará do PSD e MDB. Se estes não se engajarem com o presidente numa coligação formal, será muito difícil Lula alcançar um bom resultado eleitoral nos estados e no Congresso Nacional. A tendência é que o que vimos acontecer nas municipais se repitam a nível federal.
Istro é: PSD, MDB, PL, União, Republicanos e PP terão as maiores bancadas do Congresso, seguido de PSB e PT. Uma candidatura da direita pode vir através de uma coligação que una PL, PP e Republicanos, podendo o União vir independente ou como parte da chapa liderada pela direita bolsonarista. As principais candidaturas possíveis, embora seja cedo afirmar, podem vir nos seguintes formatos:
1. Lula como candidato a reeleição;
2. União Brasil lançando Ronaldo Caiado como seu candidato independente.
3. Romeu Zema pode vir por tabela como candidato independente do NOVO ou como vice de Caiado;
4. O PL lançará Jair Bolsonaro, mas caso a inelegibilidade se mantenha, a direita bolsonarista institucionalizada tem até agora as seguintes opções: Tarcísio de Freitas (Republicanos) ou Michele Bolsonaro (PL).
Pela direita bolsonarista, a coligação provavelmente incluirá PL e Republicanos. Em eventual segundo turno, União Brasil e PP seriam disputados tanto pela candidatura de Lula quanto pela candidatura apoiada por Bolsonaro. E, caso PSD e MDB não estejam coligados com Lula, poderão também lançar candidatos próprios no primeiro turno e eventualmente se alinhar a uma das partes no segundo turno.
O que o futuro reserva, portanto?
Tendo colocado as tendências e significados que o pleito de 2024 nos incita a refletir, creio que é válido dedicar uma parte desta conclusão para aquilo que acredito ser o único caminho viável para a esquerda brasileira neste cenário. Das três forças ideológicas tradicionais (esquerda, centro e direita), a que mais vem perdendo rumo e força é a esquerda. E, como disse anteriormente, há diversas razões pelo qual isso acontece. Mas a principal delas é pouco comentada.
A esquerda é o que é porque seus principais intelectuais não vivem no século XXI, mas no século XX (e as vezes no século XIX). Enquanto intelectuais como Vladimir Safatle, Marilena Chaui, Marcia Tiburi e outros continuarem tentando impingir a ideia de que a esquerda não pode falar de empreendedorismo individual, que a esquerda não pode aceitar a religião como parte legítima da formação da sociedade, enquanto não houver um programa económico concreto que inclua a questão climática na agenda, enquanto o assunto da violência pública for tratada apenas como uma questão de saúde e de truculência policial e não como um problema sistémico da falta de presença do Estado nas comunidades carentes e da falta de suporte ao trabalho policial, a esquerda vai continuar a sofrer este declínio constante, permanente e profundo. Isso sem citar a questão geopolítica, cujo debate parece estar preso a noção marxista das relações internacionais e menos no realismo ou neorrealismo internacionalista.
Não é que estes temas não sejam debatidos, pois até são. Há na esquerda muita riqueza intelectual para discutir alternativas concretas para estes problemas. Mas, a militância e a estrutura partidária não consegue alinhar a sua narrativa, o seu discurso, ao Brasil moderno.
Nomes como Marcelo Freixo, João Campos e Tabata Amaral podem representar uma renovação neste discurso chinfrim da velha esquerda brasileira. O progressismo não deve ser limitado apenas ao socialismo (seja ele democrático ou trabalhista-sindicalista). É preciso uma nova forma de ser esquerda, seja via uma social-democracia ou liberalismo social, ou ainda, através de um ecosocialismo (como prometido pela REDE através da sua maior liderança, Marina Silva). Estas discussões precisam acontecer na arena partidária antes que as esquerdas percam o timing. A maior tragédia que aconteceu a esquerda nos últimos tempos, desde a queda do avião de Eduardo Campos em 2014, tem sido a constante dependência do PT e do Lula.
O lulopetismo é um fenómeno político importante e possui o seu papel histórico. Mas o lulopetismo diz respeito a um tipo de trabalhismo que não cabe mais no século XXI, na era das inteligências artificiais, do marketing digital, da economia GiG. As pessoas estão conectadas e elas querem prosperidade. Não basta ganhar o salário fixo no final do mês, se muitos dos postos de trabalho que são de carteira assinada serão perdidos para automação. Não basta o discurso do explorador versus o explorado, se toda a economia depende das estruturas económicas de larga escala (o que inclui as big tech). Quando a esquerda comemora uma rede social sendo censurada, ela pensa que está combatendo o grande empreendedor. Mas na verdade, está silenciando e tirando o sustento de milhões de pessoas no Brasil que usam as redes sociais para trabalhar.
Se estes elementos não forem compreendidos, a esquerda irá amargar um fraco desempenho em 2026, ainda que Lula seja reeleito, e irá cair na irrelevância em 2028 e além. O Brasil ruma a ser um país cada vez mais de centro-direita e direita. O Centrão tem ocupado os espaços que a esquerda deixou de ocupar por entre as classes médias progressistas, assim como o bolsonarismo tem ocupado os espaços que a esquerda abandonou nas periferias.
O bolsonarismo é uma força política que representa mais do que o Bolsonaro em si. É uma força de repulsa ao sistema que a própria esquerda se recusa a reformar. Um sistema burocrático, de um estamento elitizado e que só pensa em si mesmo, sem olhar para as necessidades concretas da população. Normalmente era o PT que representava este reclame, esta repulsa ao sistema. Mas o PT hoje se tornou parte do problema. O bolsonarismo reconhece isso pelo discurso radicalizado anti esquerdismo e anti-establishment. E por isso, sobrevive e prospera. O lulopetismo alimenta o bolsonarismo.
O centrão fisiológico pela direita surfa nesta pujança bolsonarista, mas sem se atrelar a liderança de Bolsonaro. Este fenómeno ocorre porque o centrão fisiológico de direita tem interesses elitizados mas uma base eleitoral bolsonarista. Logo, ela precisa agir num balanço entre as duas forças (as tradicionais e as bolsonaristas).
Em resumo, isso explica o estado de coisas das forças políticas brasileiras hoje e porque a esquerda não é mais competitiva. Em nenhum aspecto. O pleito de 2024 deixou claro que, o triunvirato da balbúrdia, talvez seja na verdade, a diarquia da balbúrdia. O centrão domina, seja o centrão puro ou o fisiológico de direita. Mas o bolsonarismo é a segunda força latente, interconectando-se e disputando com o centrão, mas completamente dominante se comparado com a esquerda. Essa, neste momento, mortuum est.
Obrigado pela leitura!
Sasha van Lammeren
Jornalista, Mestre em Comunicação Política, Doutorando em Ciência Política
Analista e Consultor Político
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Fontes de informação: [1] https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/saiba-quantos-prefeitos-cada-partido-elegeu-em-2024-3/
[3] https://www.poder360.com.br/poder-eleicoes/veja-mapas-que-mostram-a-evolucao-dos-partidos-na-eleicao/ [4] https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2024/eleicao-em-numeros/noticia/2024/10/27/pl-de-bolsonaro-e-o-maior-vencedor-nas-grandes-cidades-pt-de-lula-cresce-em-relacao-a-2020.ghtml [5] https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2024/noticia/2024/10/07/numero-de-vereadores-eleitos-por-partido-no-brasil.ghtml [6] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2024/noticia/2024/07/24/eleicoes-2024-no-rio-com-apoio-de-lula-paes-oscila-de-52percent-para-46percent-sob-bolsonaro-ramagem-sobe-de-14percent-para-30percent-diz-quaest.ghtml [7] https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx2ll19549ro [8] https://www.poder360.com.br/partidos-politicos/precisamos-avaliar-fusao-com-outro-partido-diz-unico-senador-do-psdb/

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