TRUMP II
- Harpia Network
- 26 de jan. de 2025
- 36 min de leitura
O segundo – não consecutivo – mandato de Donald Trump e os loucos anos 20 (do século XXI)
INTRODUÇÃO
Em 20 de Janeiro de 2025, Donald J. Trump, então ex-quadragésimo quinto presidente dos Estados Unidos tornou-se também o quadragésimo sétimo presidente do país, reproduzindo o feito (até então único) de Grover Cleveland (que foi o 22º e 24º presidente entre os anos de 1885 a 1897, tendo tido Benjamin Harrison como o 23º). O feito, por si histórico, inicia também o capítulo final da ‘Era Trump’ na política norte-americana. Em 2028 quer ele queira ou não, outro Republicano será candidato.
O seu segundo mandato, que perdurará até 20 de Janeiro de 2029, inicia recheado de promessas de campanha bem conhecidas, em meio a um mundo mais hostil e também mais simpático a Trump. Se comparado ao mundo herdado de Obama em 2017, hoje muitos líderes internacionais compartilham da visão nacionalista e conservadora do trumpismo. O que lhe dá uma vantagem. Além disso, temos um Trump mais experiente, que conhece melhor a máquina burocrática do governo norte-americano e a política. No entanto, temos também um Trump mais idoso. Agora, é ele o presidente mais velho da história dos EUA. Ao deixar a presidência em 2029 com 82 anos de idade, Trump será mais velho do que Joe Biden, que hoje em 2025 registra 81 anos. Seu governo promete afastar mais ainda o país da chamada ‘globalização’, podendo isso ter efeitos profundos de longo prazo no planeta e na forma como os EUA entende a sua política externa.
Neste texto, iremos buscar compreender quais são as principais políticas de Trump, se elas serão ou não bem implementadas (tendo em vista as circunstâncias domésticas e externas dos EUA), e proporemos uma visão de médio a longo prazo sobre o futuro da América, tanto em termos políticos (sobre o futuro dos dois principais partidos), como também, do ponto de vista geopolítico. O primeiro quarto do século XXI termina com um mundo bem mais caótico do que aquele que George W. Bush herdou em 2001, no começo do milénio e do século. Em parte devido ao estresse que o sistema democrático tem vivido em meio as novas tecnologias, e também de uma reordenação do sistema global que merece ser discutido. Especialmente para nós, brasileiros.
A forma como a administração Lula lidará com Trump também entra em jogo, pois isso terá impacto real e concreto no pleito do ano que vem (2026). A direita internacional, liderada por Trump, poderá se fortalecer e o pragmatismo das esquerdas será ponto-chave para o sucesso ou insucesso dos extremos. Parte da direita demonstra claras tendências autoritárias, o que pode resignificar o conceito de fascismo na história política moderna. Nem tudo que é brincadeira deve ser levado a sério, mas algumas ‘brincadeiras’ com cheiro de fascismo, devem. Entender este processo também é fundamental, pois é isso que nos municiará de elementos que impeçam o agigantamento do problema, ao mesmo tempo em que nos leva a criar alternativas.
PARTE I
A Velha América
Para compreender a Era Trump, é importante fazer primeiro um pequeno resumo dos últimos 35 anos da história políitca dos Estados Unidos. Entre 1989 e 1993, o presidente americano foi George H. W. Bush, ex-vice-presidente de Ronald Reagan (1981-1989) e membro do Partido Republicano. Durante seu governo, a queda do Muro de Berlim simbolizou o fim da Guerra Fria, marcando a transição para uma ordem mundial unipolar liderada pelos Estados Unidos. A Guerra do Golfo (1990-1991) consolidou o status dos EUA como a única superpotência global, ao demonstrar sua capacidade militar de conduzir e vencer um conflito em questão de semanas.
Já durante o período de Bill Clinton, sucessor de George H. W. Bush, entre os anos de 1993 e 2001, os EUA viveu o seu período de apogeu máximo. A economia cresceu com vigor, impulsionada pela revolução tecnológica e pelo boom da internet, enquanto o país alcançou o raro feito de um superávit orçamentário. No cenário internacional, os EUA consolidaram sua posição como única superpotência, intervindo em crises globais e liderando a expansão da OTAN. Apesar de escândalos políticos, como o caso Monica Lewinsky, o período é lembrado como uma era de otimismo e progresso, marcada pelo avanço tecnológico, estabilidade econômica e liderança mundial.
Após o disputado pleito de 2000, que culminou na controversa vitória de George W. Bush sobre Al Gore, os Estados Unidos entraram em uma era marcada por desafios à sua hegemonia e uma expansão de sua influência político-militar. O ataque de 11 de setembro de 2001 redefiniu a agenda do governo, levando à "Guerra ao Terror" e às invasões do Afeganistão e do Iraque, iniciativas que visavam combater o terrorismo e ‘expandir valores democráticos’, mas que também geraram debates globais sobre imperialismo e direitos humanos. No plano doméstico, os custos das guerras, o aumento do déficit orçamentário e a crise financeira de 2008 testaram a resiliência econômica e social do país, enquanto internamente se acirravam as divisões políticas. Esse período consolidou os EUA como protagonista mundial, mas evidenciou os limites e os custos de sua hegemonia em um cenário global em transformação.
Em resposta ao período de instabilidade e desgaste causado pelos anos Bush, os norte-americanos elegeram Barack Obama em 2008, um marco histórico que trouxe uma nova liderança ao Partido Democrata e simbolizou a emergência de uma “Nova América”. Como o primeiro presidente afro-americano, Obama representava um movimento progressista em ascensão, associado a valores de inclusão, renovação e esperança. Sua mensagem de "mudança" e "esperança" encontrou eco em um eleitorado cansado de guerras prolongadas, crises econômicas e divisões políticas.
Obama buscou distanciar-se do toque imperialista de seu antecessor, priorizando uma política externa mais diplomática, como a retirada gradual das tropas do Oriente Médio e o histórico acordo nuclear com o Irã, além de uma agenda interna focada em reformas sociais, como o Affordable Care Act ("Obamacare"). Sua eleição foi vista não apenas como uma rejeição ao legado de Bush, mas como um sinal de que os EUA buscavam redefinir sua identidade em um mundo globalizado e em rápida transformação.
Apesar das conquistas e do otimismo inicial gerados pela liderança de Barack Obama, seu governo enfrentou desafios profundos que contribuíram para a frustração de parte significativa do eleitorado e pavimentaram o caminho para a eleição de Donald Trump. A recuperação econômica pós-2008 foi desigual, com muitos trabalhadores da classe média e da classe operária sentindo-se deixados para trás, especialmente em regiões industriais afetadas pelo fechamento de fábricas e pela globalização.
Além disso, o Affordable Care Act ("Obamacare"), embora tenha ampliado o acesso à saúde, gerou controvérsias e resistência de amplos setores, que viam a medida como um símbolo de um governo federal intervencionista. No plano cultural, as transformações progressistas promovidas durante a era Obama — como o avanço dos direitos LGBTQ+ e o aumento da diversidade racial e de gênero — provocaram uma reação conservadora em setores da sociedade que sentiam suas tradições e valores ameaçados. Era o começo do wokismo versus o neoconservadorismo.
No campo político, a polarização cresceu de forma exponencial, alimentada por uma mídia partidária e redes sociais que amplificaram o descontentamento e o radicalismo. Nesse contexto, a figura de Donald Trump emergiu como uma resposta a essas tensões, canalizando o ressentimento contra o establishment político e cultural, e prometendo restaurar uma América "perdida", com uma retórica nacionalista, populista e disruptiva que apelava a uma parcela significativa do eleitorado, especialmente entre os brancos da classe trabalhadora e os desiludidos com as elites tradicionais de Washington.

Eleito com 62 milhões de votos e 304 eleitores do colégio eleitoral em 2016, Trump teve um primeiro mandato (2017-2021) errático e caótico. Obteve alguns resultados positivos na economia, mas nada que fosse muito incrível, se comparado com os dados do governo Obama. Apesar da erraticidade, era provável que venceria a eleição de 2020, se não fosse a pandemia e a crise do Black Lives Matters (pós assassinato de George Floyd). Em 2020, Trump foi capaz de subir para 74 milhões de votos, um feito histórico para um presidente em exercício. Biden (2020-2025), contudo, obteve 81 milhões de votos e 306 do colégio eleitoral, superando Trump no que parecia ser um sinal de grande rejeição ao trumpismo. Após o 6 de Janeiro (invasão do Capitólio) e a condenação no caso da atriz pornô em Nova Iorque, parecia que Trump estava acabado politicamente.
Porém, o trumpismo é resiliente e manteve-se como força motriz dos Republicanos durante todo o governo Biden. Em 2024, numa eleição bastante controversa e surpreendente, Trump conseguiu retornar a Casa Branca obtendo 77 milhões de votos popular e 312 do colégio eleitoral, contra 75 milhões de votos de Kamala Harris (então vice-presidente de Joe Biden). Embora Trump e o trumpismo pareçam extremamente fortes e condicionantes na América, é importante salientar que Kamala apenas perdeu porque 6 milhões de eleitores não foram votar nela em 2024 (como foram votar em Biden em 2020). O país permanece dividido, com uma grande parcela que se opõe a Trump e seu movimento, mas que não teve nos Democratas uma opção viável em 2024.
PARTE II
A América que Trump quer
O processo que levou Trump a tornou-se esta nova liderança disruptiva ajuda a jogar luz sobre o que podemos esperar de seu segundo – e último - mandato. Donald Trump não é apenas um empresário agressivo; ele é um mestre da autopromoção, construindo uma narrativa em que mesmo os fracassos se transformam em provas de resiliência e astúcia. Sua mentalidade se baseia na ideia de que o mundo é dominado pelos mais fortes, pelos que têm o "instinto assassino" necessário para sobreviver e prosperar em um ambiente competitivo e hostil. Essa visão se reflete em seu estilo de liderança: ele despreza a diplomacia tradicional e as normas do establishment, preferindo confrontos diretos e ações que demonstrem poder e controle.
Trump se posiciona como o anti-herói que desafia convenções, um "macho alfa" que despreza a vulnerabilidade e busca constantemente afirmar sua supremacia. Para ele, o respeito não é dado, mas arrancado — seja na política, nos negócios ou na vida pública. Essa postura atraiu milhões de eleitores que se identificaram com sua rejeição ao politicamente correto e à elite política, vendo nele um reflexo de sua própria frustração e desejo de mudança, mesmo que isso significasse romper com os padrões presidenciais tradicionais.
Ao adotar uma abordagem corporativa para governar, Trump transforma o país em um jogo de poder e lucro, onde cada decisão é orientada pela lógica de resultados rápidos e vantajosos para a ‘corporação’, neste caso, os EUA. Sua retórica do "Make America Great Again", vulgo MAGA, não apenas ressoa como um grito de guerra contra a desindustrialização e o declínio econômico, mas também como uma estratégia para galvanizar uma base de eleitores que se sente abandonada pela elite política tradicional. Esse slogan, reutilizado por Trump, é uma referência ao de Ronald Reagan em 1980, "Let’s Make America Great Again", que na época era uma resposta às crises dos anos 1970. Trump se apropria dessa marca para criar uma narrativa em que o país precisa se reerguer, justamente no momento em que a classe trabalhadora, especialmente em estados industriais, sente os efeitos da globalização dos anos Clinton, Bush e Obama.
Ao projetar-se como o líder que "salvaria" a América de uma crise percebida — seja ela econômica, cultural ou política — Trump se posiciona como o solucionador de problemas pragmático, cujo principal foco é reconquistar o que muitos sentem que foi perdido. Esta abordagem é bem ilustrado por Roger Stone em seu livro The Making of the President – 2016 (2017) e Bob Woodward em FEAR: Trump in the White House (2018). O projeto de poder de Trump começou logo em 2012, após a reeleição de Obama, sendo desenvolvido até culminar nas primárias Republicanas de 2015-2016.
Este posicionamento, ou a plataforma política associada ao trumpismo pode ser sintetizada em cinco pilares fundamentais. Primeiro, o nacionalismo: os Estados Unidos devem sempre ocupar a posição central em suas ações e decisões. Segundo, a prioridade doméstica: o país deve atender, acima de tudo, às necessidades de seus cidadãos, e não de estrangeiros. Terceiro, o reconhecimento da força: o mundo deve respeitar o poder norte-americano. Quarto, a supremacia global: os EUA devem permanecer como a potência dominante no sistema internacional. E, finalmente, o quinto na rejeição da percepção de ‘progressismo’ woke que pretendia mudar a cultura social dos norte-americanos desde a era Obama. Em essência, o trumpismo é uma versão do ‘excepcionalismo americano’ intensificada e exacerbada, quase como um projeto sob efeito de anabolizantes.
Neste sentido, a retórica trumpista é antirrevolucionária, pois remete a era de ouro dos ‘Baby Boomers’, entre os finais dos anos 1950 até 1968. É uma retórica que traz conforto a uma sociedade que se preocupa com o seu lugar num mundo em constante mudança. Grande parte dos conservadores norte-americanos veem em Trump uma liderança pragmática, disruptiva e capaz de ‘romper’ com o institucionalismo exacerbado de Washington. Mais do que o ‘retorno aos tempos dourados’, é esta quebra que os americanos querem.
O fenômeno Trump pode também ser compreendido pela ausência de novas lideranças tanto no Partido Republicano quanto no Partido Democrata, além da crescente percepção de que as instituições estão corroídas. Em 2016, as expectativas eram de uma disputa entre Hillary Clinton, pelos Democratas (ex-primeira dama e esposa de Bill Clinton, o 42º presidente dos EUA), e Jeb Bush, pelos Republicanos (irmão de George W. Bush, o 43º presidente, e filho mais novo de George H. W. Bush, o 41º presidente). A presença de figuras como Clinton e Bush no pleito de 2016 representava, para muitos, a quintessência da "América burocrática e corrompida", que uma grande parte da população ansiava por combater. Essa imagem do "sistema" não atendia aos desejos de uma população que se sentia marginalizada e ignorada, em busca de uma alternativa que refletisse suas preocupações e valores.
Questões sensíveis, negligenciadas por administrações anteriores em nome do politicamente aceitável, ganharam destaque em seu governo. O problema da imigração ilegal, por exemplo, tem sido um tema recorrente em várias presidências, tanto democratas quanto republicanas. Da mesma forma, o protecionismo econômico emerge como uma resposta às aberturas dos anos 1990 em um mundo pós-Guerra Fria. Ainda assim, essas não são propostas exclusivamente trumpistas. Joe Biden, por exemplo, implementou medidas para promover o uso de produtos e a contratação de trabalhadores americanos. Barack Obama também adotou uma postura firme sobre imigração, embora com um discurso mais polido.
Trump não diverge, portanto, do que os Estados Unidos desejam para si mesmos e do que o país promove enquanto política pública. Sua principal diferença reside na retórica cultural e na maneira como executa suas políticas. O sucesso eleitoral de Trump reflete décadas de uma crescente percepção de que os EUA estão sendo "explorados" pelo resto do mundo, de que os americanos estão perdendo espaço no "novo" cenário globalizado, e de que o orgulho nacional foi abalado por uma suposta "subserviência" dos EUA no panorama internacional. A chamada "Era Trump" representa, portanto, um confronto entre o velho e o novo, um choque que é tanto cultural quanto geopolítico, e que será lembrado como o elemento definidor desse período nos registros históricos.
Quem é Donald Trump no contexto histórico presidencial norte-americano?
Para entender Donald Trump no panorama histórico dos presidentes dos Estados Unidos, algumas comparações se destacam. A primeira, como mencionado na introdução, é com Grover Cleveland, até então o único presidente a exercer dois mandatos não consecutivos. No entanto, outras figuras históricas também oferecem paralelos importantes.

Andrew Jackson, o 7º presidente dos EUA (1829–1837), é frequentemente associado a Trump por algumas razões fundamentais. Jackson foi o primeiro presidente populista do país, promovendo-se como o líder do "homem comum" e fomentando um culto à personalidade em torno de sua figura. Ele enfrentou elites estabelecidas, expandiu os direitos políticos aos homens brancos sem terras — a chamada "Democracia Jacksoniana" — e reforçou uma retórica nacionalista agressiva, destacando-se por impulsionar a expansão territorial dos EUA rumo ao Oeste sob a ideologia do "Destino Manifesto".
O ‘Destino Manifesto’ foi uma doutrina que defendia a virtude do povo americano e suas instituições, assim como a missão de expandir e difundir estas virtudes e instituições para além das fronteiras dos EUA, sendo este um destino manifestado por Deus ao povo estadunidense.

Outro nome relevante é William McKinley, o 25º presidente (1897–1901), citado pelo próprio Trump em seu discurso de posse no último dia 20 de Janeiro. Durante seu governo, os EUA anexaram o Havaí e consolidaram uma política protecionista voltada para fortalecer a indústria doméstica frente à concorrência externa, como exemplificado pelas tarifas McKinley. Assim como Jackson, McKinley reforçou a ideia do "Destino Manifesto", mas com um viés mais expansionista e ultramarino. Trump quer 'restaurar' a memória de McKinley, incluindo renomeando o Monte Denali (no Alaska), para Monte McKinley, como era conhecido antes de Obama mudar a nomenclatura em 2015.
Quando Trump menciona iniciativas como comprar a Groenlândia, reivindicar o Canal do Panamá ou mesmo anexar o Canadá, ele está ecoando esses líderes históricos, posicionando-se como herdeiro de um legado de expansionismo nacionalista. Em seu discurso de posse, ele chegou a evocar o conceito de "Destino Manifesto", mas desta vez mirando além das fronteiras terrestres, com aspirações voltadas para o espaço, incluindo Marte e a Lua.
A retórica de Trump também sugere uma nova "Gilded Age" — uma era marcada por profunda desigualdade econômica e poder oligárquico, mas acompanhada de avanços tecnológicos significativos. A presença de bilionários das "big techs" em sua órbita política reforça essa percepção, sinalizando um período de concentração de poder econômico e inovação disruptiva.
Trump busca desacoplar os EUA da globalização que o próprio país ajudou a construir na pós-Segunda Guerra Mundial (mais sobre isso, ver o artigo ‘ALERTA GLOBAL - Os sinais da Terceira Guerra Mundial’), colocando desconfiança sobre o sistema de Bretton Woods, o Consenso de Washington e instituições como o Banco Mundial (além das tensões com a OTAN e com os aliados tradicionais dos EUA). Este movimento, previsto por analistas internacionais como Peter Zeihan, Fareed Zakaria, Niall Ferguson e Ian Bremmer, promete consequências profundas para o cenário global e para o futuro dos Estados Unidos.
É nesse contexto que a visão de Trump — de um país isolado, mas fortalecido em sua autossuficiência econômica e liderança política — representa um marco de ruptura na política externa americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Embora seu impacto sociocultural na política norte-americana seja equiparável ao de Ronald Reagan, seu impacto histórico e geopolítico é mais complexo e profundo. A análise das implicações desse movimento, especialmente para países como o Brasil, será o que veremos a seguir.
PARTE III
A Nova (velha) América

Para o seu segundo mandato, o programa de governo de Donald Trump (conhecido como Agenda 47), se baseia nos seguintes pilares principais:
Nacionalismo Econômico: Foco em fortalecer a economia interna por meio da produção nacional, reindustrialização, independência energética e políticas comerciais que priorizam trabalhadores e empresas americanas.
Segurança Rígida: Prioridade em proteger fronteiras, combater imigração ilegal, fortalecer o exército e garantir segurança interna com medidas duras contra o crime e o tráfico de drogas.
Conservadorismo Cultural: Defesa de valores tradicionais, como liberdade religiosa, patriotismo, combate a ideologias progressistas em escolas e manutenção de direitos constitucionais, como o porte de armas.
Da agenda de Trump, muita coisa pode ser considerada puro populismo. Mas outras são propostas reais e que terão efeitos concretos na vida dos EUA e do mundo. Estas estão destacadas a seguir em negrito:
Do ponto de vista económico, tanto a política de imigração quanto a de energia e de tarifas terão impacto significativo na estrutura dos EUA. Para compreender isso, vamos aos dados.

Do ponto de vista económico, tanto a política de imigração quanto a de energia e de tarifas terão impacto significativo na estrutura dos EUA. Para compreender isso, vamos aos dados.
Sobre Imigração
Os EUA recebem anualmente de 1 a 2 milhões de pessoas que tentam atravessar a fronteira sem documentação, sendo que deste número de 300 a 500 mil entram e ficam indocumentados. Segundo a Pew Research (2024), os EUA possuem no total 47 milhões de imigrantes em seu território, dos quais 23% (ou 11 milhões) são ilegais. Com o fluxo contínuo de imigrantes ilegais, este número cresce ano após ano, tornando-se um problema crônico no país. Apesar da retórica trumpista, não é a violência dos ilegais que movimenta a questão. Segundo estudo do economista Ran Abramitzky da Universidade de Stanford, os imigrantes ilegais tem 60% menos chances de serem encarcerados por crimes violentos do que os americanos nativos (que são os responsáveis pela maior parte dos crimes no país).
O único argumento plausível contra os imigrantes ilegais reside na questão económica e social. Os estados que mais recebem imigrantes ilegais (dados de 2022) são o Texas, Florida, Califórnia, Illinois, Nova Iorque e Nova Jersey. Dos 11 milhões de imigrantes ilegais, cerca de 8 milhões trabalham ou buscam emprego. E estes empregos são, na sua maioria, com salários baixos e poucos ou nulos benefícios. Sem ter outras opções, o ilegal aceita qualquer emprego para sobreviver, o que impede com que americanos nativos locais sejam contratados pelos mesmos serviços (visto que exigiriam mais direitos e salários de acordo com a lei). Apesar desta situação, 64% dos norte-americanos adultos, segundo a Pew Research 2024, defendem que deve haver um caminho para a legalização dos imigrantes ilegais sem precisar de deportação. Já para 35% dos entrevistados os ilegais devem ser deportados. Os apoiadores de Trump representam a maior fatia dos que defendem a deportação (cerca de 66% deles, contra 33% dos trumpistas que defendem uma via de legalização).
Além da questão do mercado de trabalho, há a questão das cidades santuários (cidades com leis de proteção a imigrantes ilegais), e os benefícios públicos que os mesmos recebem. Nestes estados e cidades, o poder público local opta por não usar seus recursos para reforçar as leis de imigração. Ou seja, as polícias locais não fazem um controle de quem é legal ou ilegal na cidade ou no estado, deixando o governo federal sozinho nesta tarefa (quando cabe). Além disso, imigrantes ilegais podem ter acesso a determinados serviços de saúde pública, como o Health Safety Net (HSN) em Massachusetts. Este tipo de discrepância frente aos imigrantes legais e os americanos nativos é o que cria os argumentos anti-imigração que fortalecem a retórica trumpista e suas políticas de deportação.
Ao promover a política de ‘fecho’ da fronteira e deportação em massa, Trump esbarra em dois fatores. A legalidade de suas ações e a competência de cada estado. Ele pode, legalmente, enviar tropas federais para a fronteira visando ajudar na identificação de imigrantes e na logística, além de impedir que grandes massas de pessoas entrem. Mas as Forças Armadas americanas (o que inclui a Guarda Nacional) não podem fazer o papel de polícia (de acordo com a Posse Comitatus Act de 1878). Se as forças federais não podem fazer papel de polícia e nos estados santuários o poder local escolheu não fazer valer a lei de imigração no seu território, então Trump não tem muito o que fazer neste sentido. As duas agências federais que tratam da questão são a U.S. Border Patrol (patrulha de fronteira) e a ICE (Immigration and Customs Enforcement). No entanto, não há efetivo suficiente para um processo de deportação em massa, além de que qualquer busca e apreensão demandaria mandatos judiciais.
Portanto, o que de fato será alcançado por Trump com a sua política de ‘selar’ as fronteiras e fazer a maior deportação da história americana? Tudo o que o governo federal pode fazer é identificar os ilegais depois de investigação das agências responsáveis, trabalhar em acordo com os estados não-santuários (portanto aqueles em que a força policial local pode ser usada para impor a lei de imigração), e fortalecer a segurança na fronteira (o que inclui o ‘muro’ com o México, a maior presença militar na fronteira, e o uso de tecnologia para impedir travessias ilegais). Além disso, um acordo com o México para controlar a fronteira compartilhada é outra possibilidade. Mas fora destes parâmetros, não há ordem executiva que possa passar por cima da Constituição dos EUA e das garantias fundamentais estabelecidas na carta.
Neste sentido, embora a retórica populista seja muito radical, na prática Trump não será muito diferente do que outros governos já foram. Ele pode conseguir encontrar e deportar um grande número de imigrantes ilegais e pode assegurar maior proteção das fronteiras, mas este processo não começou em seu governo e não irá acabar em seu governo. Ano após ano estes imigrantes chegam no país e movimentam interesses económicos, inclusive de empreendedores nativos que protegem estes ilegais. O problema demandará mais tato político do que força bruta. E não se sabe se Trump terá este tato durante seus quatro anos.
Sobre energia
Os EUA é um dos maiores produtores de energia do mundo, de modo que a proposta trumpista de tornar os EUA ‘o maior produtor’ precisa ser entendido no contexto e escala apropriado. De acordo com o U.S. Energy Information Administration (2024), os EUA possui um consumo de energia dividido da seguinte forma por fonte:

A produção de energia elétrica nos EUA é majoritariamente baseada em fontes fósseis, que representaram cerca de 60% da matriz em 2023. Desse total, o gás natural lidera com 43,1%, seguido pelo carvão com 16,2% e uma contribuição residual de 0,4% do petróleo. Além disso, fontes nucleares forneceram 18,6% da energia gerada, enquanto as renováveis alcançaram 21,4%, divididas principalmente em energia eólica (10%), hidrelétrica (5,7%), solar (3,9%) e biomassa (1,1%).
O consumo de energia, por outro lado, apresenta um perfil muito diferente devido à segmentação em cinco setores principais: transporte, industrial, residencial, comercial e geração de eletricidade. Em 2023, cerca de 83% do consumo total de energia veio de fontes fósseis (petróleo, gás natural e carvão), 9% de fontes nucleares e 9% de renováveis. Uma das maiores discrepâncias surge no uso do petróleo, que representou 38% do consumo total de energia, apesar de contribuir com apenas 0,4% na produção de eletricidade.
Isso ocorre porque o petróleo é amplamente utilizado no setor de transporte, que consome cerca de 89% do petróleo disponível no país. Veículos terrestres, aviões e embarcações dependem quase exclusivamente de derivados de petróleo, como gasolina, diesel e querosene de aviação, enquanto a eletricidade gerada a partir de petróleo é mínima. Por outro lado, o gás natural e o carvão, que dominam a produção de eletricidade, têm usos mais equilibrados em diferentes setores, sendo utilizados tanto na geração de energia elétrica quanto na indústria. Já as fontes renováveis e nucleares têm sua aplicação concentrada quase exclusivamente na produção de eletricidade, enquanto seu uso direto em outros setores é marginal.
Os EUA representa 4% da população mundial, mas consome cerca de 16% da energia gerada no planeta. Em contrapartida, os EUA produz cerca de 17,35% da energia global, estando atrás da China, que produz 21,27% da energia planetária (dados de 2023). Quando Trump diz que quer que os EUA seja o maior produtor de energia do mundo, ele está mirando em passar a China. Apesar desta ambição, hoje os EUA já é o maior produtor mundial de pelo menos dois dos fósseis: petróleo e gás. Os EUA é também o maior produtor de energia nuclear do mundo, com 93 reatores nucleares ativos, seguido da China e da França. Em termos de carvão, os EUA é o quarto maior (depois de Indonésia, Índia e China). Já nas energias renováveis, os EUA é o segundo maior, perdendo apenas para a China. O Brasil é o terceiro.
A pergunta é: como Donald Trump pretende transformar os EUA no maior produtor de energia do mundo, superando, assim, a China?
A resposta está em 10 pontos centrais da sua Agenda 47.
1. Expandir a produção de petróleo e gás natural: Remover restrições para explorar as vastas reservas de energia no território americano.
2. Aumentar o uso de energia nuclear: Incentivar a produção de energia limpa e abundante por meio de usinas nucleares.
3. Suspender o Green New Deal: Eliminar políticas ambientais consideradas restritivas à produção energética tradicional.
4. Simplificar licenças e aprovações: Acelerar os processos regulatórios para projetos energéticos, reduzindo custos e burocracias.
5. Fortalecer a indústria do carvão: Restaurar a competitividade do carvão no mercado energético.
6. Desregulamentar o setor energético: Retomar políticas que reduzem regulações, aumentando a eficiência e diminuindo custos de produção.
7. Alcançar independência energética: Garantir que os EUA não dependam de outros países para suprir suas necessidades de energia.
8. Focar na segurança energética: Reforçar cadeias de suprimento críticas para baterias e energias renováveis, reduzindo a influência de países como a China.
9. Reduzir custos energéticos: Aumentar a oferta de energia para baixar os preços para consumidores e indústrias.
10. Exportar energia para o mundo: Tornar os EUA um líder em exportação de energia, especialmente petróleo e gás natural.
Parte de suas propostas são, como vimos nos dados acima, pura retórica populista. Os EUA já é um país autónomo energeticamente. Eles produzem mais do que gastam (produziram em 2023 cerca de 103 quads enquanto consumiram 94 quads, fazendo sobrar 9 quads). Além disso, lideram os mercados do petróleo, gás natural e energia nuclear. O que ele realmente quer é aumentar ainda mais esta produção, diminuir custos de energia para o consumidor final (o que pode ter efeito positivo na inflação), e exportar energia para o mundo.
A China produziu em 2023 cerca de 126 quads de energia, o que significa que os chineses produzem 23 quads a mais do que os EUA. Trump quer, na prática, superar esta diferença com os setores aonde os EUA já lideram. O problema é que, ao sair do Acordo de Paris (visto que seu objetivo não é cumprir nenhuma meta ambiental, mas furar mais poços de petróleo e expandir a produção), e ao atacar o Green New Deal (grande programa de fomento de energias renováveis frente as fósseis), ele ataca um dos setores que mais tem crescido energeticamente nos EUA: as renováveis. Na prática, pode ser que ele consiga baratear os custos de energia e produzir mais do que produzem hoje, mas ao atacar as renováveis, ele retira da matriz energética dos EUA uma outra fonte potencial, que poderia somar aos esforços contra a China.
No campo internacional, no entanto, se os EUA consegue aumentar ainda mais sua produção de petróleo, isso pode tirar poder dos países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), o que influencia na Venezuela e Rússia, por exemplo. Trump pode conseguir também o barateamento de custos, o que irá fazer com que a inflação caia no consumo industrial, no consumo residencial, no consumo elétrico e também no transporte. Neste sentido, o mercado ficará mais aquecido, os níveis de poupança também e a geração de riqueza, também. Vai depender, no entanto, de como esta política energética impactará a vida americana tendo em vista o terceiro ponto: a política tarifária.
Sobre Política Tarifária
Desde a campanha, Donald Trump tem ameaçado o mundo inteiro com tarifas. Ele mesmo disse no dia 20 de Janeiro, em entrevista enquanto assinava ordens executivas no Salão Oval da Casa Branca, que via as tarifas como um meio mais adequado de ‘ferir’ nações, frente as sanções. Seu objetivo, claramente nacionalista e protecionista, é garantir que os EUA será autossuficiente em tudo que for estratégico, enquanto aumenta as tarifas de importação dos países que mais tem exportado para os EUA.
Na campanha, ele defendeu 60% de tarifa sobre a China e 10% sobre o resto do mundo, inclusive 25% sobre México e Canadá (por exportarem fentanyl e traficantes para os EUA, supostamente). Hoje, Trump defende iniciar suas tarifas em 10% sobre a China no dia 1 de Fevereiro, enquanto mantém a ameaça sobre o México e o Canadá. O grande problema desta política, no entanto, é que as tarifas alfandegárias não machucam especificamente o país visado, mas sim o consumidor americano. Quando o produto chega ao porto dos EUA, aqueles que tiverem interesse de comercializar os produtos estrangeiros terão de pagar mais caro para ter esta possibilidade. O que, em contrapartida, irá encarecer o produto para o consumidor final, visto que o vendedor irá compensar a tarifa no preço final.
Trump quer, na verdade, usar as tarifas como uma arma de negociação para conseguir acordos melhores de importação, ao mesmo tempo em que pretende aumentar a tributação para diminuir a dívida americana. Contudo, não está claro se a conta fecha. Mesmo com a DOGE (Departament of Government Efficiency), liderado por Elon Musk e com prazo de validade (Trump anunciou que este departamento será desmantelado em 4 de Julho de 2025) não se sabe ao certo o quanto Trump conseguirá controlar os gastos do governo americano com corte de pessoal. Ele pretende também isentar de impostos pequenos empreendedores e as gorjetas, muito comuns em setores como restauração e hotelaria. Em 2017, Trump havia implementado uma política parecida. A Tax Cuts and Jobs Act, que reduziu a alíquota de imposto de renda, aumentou o desconto padrão, aumentou o crédito infantil e acabou com a multa por não ter o seguro do Obamacare. Agora, em 2025, Trump quer expandir o Tax Cuts and Jobs Act, tornando permanente várias de suas deduções.
Ou seja, Trump quer aquecer o mercado interno, fortalecendo a produção norte-americana (inclusive com a expansão da política ‘Compre Americano e Contrate Americano’), quer reequilibrar a balança comercial com a China, eliminando gradualmente importações do país enquanto proíbe os chineses de fazerem compras imobiliárias e de indústrias estratégicas nos EUA. E, junto da política energética, diminuir custos totais para o consumidor americano (embora, como vimos, as tarifas irão aumentar – ainda que temporariamente – o preço de produtos importados). Este nacionalismo económico é bastante criticável do ponto de vista teórico, mas do ponto de vista económico, os EUA é um dos poucos países que pode se aventurar nesta política. Para compreender isso, temos de entender como funciona a economia norte-americana e sua geografia.
Os EUA geográfico

Como se pode observar no mapa acima, os EUA é um dos raros países do mundo abençoado com uma malha hidroviária ampla e um território irrigado, o que favorece muito a produção e a colheita, assim como o desenvolvimento do interior para o urbano. A região Leste dos EUA é uma região temperada, com solos ricos e grandes planícies, o que também favorece o escoamento produtivo. Os EUA produz de tudo, sendo autossuficiente em grande parte de seus produtos agropecuários, sem falar da indústria (seja ela de bens primários, secundários ou terciários).

Portanto, eles podem se dar ao luxo de ‘fechar’ sua importação visando a autossuficiente, pois possuem as riquezas naturais, industriais e tecnológicas para isso. Quanto a riqueza humana, como vimos anteriormente, os EUA possui um altíssimo fluxo migratório e sua pirâmide etária ainda não está invertida.

O que isso significa? Significa que, apesar da política económica de Trump ser isolacionista, nacionalista e protecionista, diferentemente de outros países que dependem da importação de bens de alto valor-agregado para conseguir sustentar os níveis de consumo e produção competitivos, os EUA pode ser competitivo em todos os setores da economia, ainda que não seja o líder em muitos deles. Do ponto de vista energético, os EUA é o grande produtor de petróleo, gás natural e energia nuclear. Do ponto de vista do agronegócio e minerais, os EUA está entre o Top 5 produtores dos seguintes produtos:
1. Milho
2. Soja
3. Trigo
4. Carne Bovina
5. Carne Suína
6. Frango
7. Leite
8. Algodão
9. Etanol
10. Açúcar
11. Ouro
12. Cobre
13. Zinco
14. Alumínio
Trump tem como objetivo incentivar também a manufatura norte-americana, tornando o país em líder global de outros setores. Atualmente, os EUA é um dos líderes nos seguintes mercados:
I. Setor de Alta Tecnologia
II. Setor Automotivo
III. Máquinas e Equipamentos Industriais
IV. Produtos Farmacêuticos e Químicos
V. Equipamentos de Energia
VI. Alimentos Processados e Bebidas
Com maior incentivo às Forças Armadas e tecnologia de ponta, Trump quer que os EUA seja potência na produção de semicondutores, retirando o país da dependência que possui de Taiwan, Coreia do Sul e China. A proposta nacionalista também inclui o desenvolvimento de uma super-infraestrutura para Inteligência Artificial em parceria com companhias americanas do setor (o que incluir a OpenAI, criadora do Chat GPT).
Ou seja, ao unir as políticas imigratórias, energética e tarifária (junto a industrial), temos que o plano de governo de Donald Trump é posicionar os EUA de tal modo que não seja mais necessário a globalização para favorecer os seus interesses. É o desarranjo gradual do mundo pós-Segunda Guerra e o começo de um novo processo geopolítico que terá profundas consequências em todos os continentes, mas que logrará aos EUA um domínio quase que absoluto do século XXI.
Sobre as Relações Externas dos EUA no Governo Trump
Na seara internacional, o mote de Trump é simples: paz pela força. Ao admirar figuras como Andrew Jackson e William McKinley, Trump declara a sua versão do ‘Destino Manifesto’ norte-americano. Um que inclui expansionismo territorial, se necessário, e político-militar, especialmente no espaço. Trump, como excepcionalista que é, defende uma política externa pautada na unipolaridade dos Estados Unidos. Ou seja, ele despreza todas as instituições multilaterais que não servem aos propósitos dominantes dos EUA. A ONU, a OTAN, a União Europeia, o G7, o G20, todas estas instituições são secundárias ao projeto unipolar dos EUA.
Apesar do discurso expansionista e militarista, no entanto, Trump é lembrado por sua postura não-intervencionista do primeiro mandato. Não há, até o presente momento, nenhuma iniciativa concreta ou interesse de sua administração em expandir militarmente o território dos EUA (apenas retórico). A arma militar é usada, em Trump, como um método de negociação. Ele amaça com o uso da força para conseguir melhores acordos, do mesmo modo que ameaça com tarifas ou com qualquer outra atitude hostil que incite o outro lado a negociar nos termos que ele quer.
Portanto, a política externa de Trump é uma mistura do isolacionismo com o realismo, uma vez que ele não se furta de fazer acordos bilaterais, mas busca como ponto de partida isolar os EUA das estruturas internacionais que, segundo ele, ‘vampirizam’ o seu país e sua superestrutura de defesa global, minando o Dólar como moeda internacional. Embora pareça inteligente, a falta de uma política que envolva alianças pragmáticas pode levar Trump a perder oportunidades. Até o presente momento, suas alianças são focadas em países tradicionalmente alinhados com os EUA, como o Reino Unido, o Japão e Israel. Trump tem a pré-disposição de expandir o leque de aliados, desde que estes aliados estejam dispostos a corteja-lo.
Para a América Latina, Trump não tem grande interesse, nem positivo e nem negativo. Dificilmente Trump visitará o Brasil enquanto Lula for presidente, visto que não é do feitio do petista bajular Trump como Bolsonaro o fazia. No entanto, o ‘Destino Manifesto’ de Trump (arquitetado por Marco Rubio, seu secretário de Estado), premedita um EUA atento a América Latina no sentido de evitar importunações de potências externas no quintal dos EUA. Ao provar-se que China e Rússia avançam sobre a América Latina, é provável que Trump adote uma postura mais hostil e agressiva, visando impedir esta influência regional. No entanto, se China e Rússia forem discretos por todo o mandato de Trump, é improvável que haja grandes tensões.
Na América Latina, o México pode ser o mais afetado. Primeiro pela questão imigratória, e segundo pela questão comercial. Outro ponto de relevância será a relação de Trump com a Europa, aonde muitos líderes de direita tem emergido, solidários com a política trumpista. Isso pode aproximar a Europa de Trump, como também mudar a dinâmica da OTAN com a guerra na Ucrânia e com a Rússia. Trump quer resolver o conflito de forma rápida e que lhe dê favores diretos. Se Putin e Zelensky aceitarem negociar, pode haver acordo. Mas o contexto é complexo e ainda precisa-se de negociações. No Oriente Médio, contudo, Israel ganha um aliado perpétuo e provavelmente haverá paz regional.
PARTE IV
Trump e as Consequências de seu novo Governo
Há dois tipos de pessoas quando o assunto é analisar o governo Trump. Aquelas muito otimistas, que afirmam que seu governo será um grande sucesso e que irá fazer os EUA mudar para sempre, e aqueles que são muito pessimistas, dizendo que é o fim do Império Americano. Eu, no entanto, prefiro ser realista.
Podemos usar quatro lentes para avaliar o sucesso ou insucesso do governo Trump. Primeiro, o institucional. Segundo, o sociopolítico. Terceiro, o económico. E, quarto, o geopolítico. Em cada um deles, Trump tem um estilo e uma estratégia diferente, que mais ou menos ressoam com os ex-presidentes que ele admira: Jackson e McKinley. Mas que, por estarmos falando de Trump no Século XXI, possui suas próprias nuances. Vamos começar pelas consequências institucionais:
a). O Legado Institucional de Trump:
Como vimos na questão imigratória, Trump irá esbarrar em muitas barreiras legais do sistema americano que irão impedir com que ele faça tudo o que quer. Isso vale, também, para a ambição de um hipotético terceiro mandato, ou para a tentativa de usar dos poderes presidenciais contra o povo americano (numa clara tendência autoritária). O poder executivo dos EUA tem crescido em termos de peso e influência desde George W. Bush e o PATRIOT ACT de 2001, pós 11 de Setembro. Obama e Biden utilizaram, cada um a sua maneira, de parte desta expansão do poder presidencial.
Donald Trump, evidentemente, buscará usar e abusar destes poderes o máximo que puder. E o fato de ter um Congresso republicano e uma Suprema Corte mais alinhada ideologicamente pode ajuda-lo a conseguir muita coisa. No entanto, se tem uma coisa que é intransponível nos EUA, é que cada instituição do país possui vida própria e interesses próprios. É antinatural imaginar que o Poder Legislativo e o Poder Judiciário ‘entregarão’ poderes ao Poder Executivo gratuitamente. A Suprema Corte, embora mais conservadora, possui autonomia plena frente ao Executivo. Do mesmo modo, o Federal Reserve (Banco Central dos EUA) é autónomo frente ao Presidente, e por mais que Trump queira mudar política de juros, por exemplo, ele não determina nada.
O mesmo se passa no Congresso. O Senado norte-americano é composto por 100 senadores e a Câmara dos Deputados por 435 representantes. Neste momento (26 de Janeiro de 2025), o Senado é composto por 53 Republicanos, 45 Democratas e 2 independentes. Já a Câmara é composta por 218 Republicanos, 215 Democratas e 2 vacantes. Portanto, embora Trump tenha maioria nas duas casas, ela não é absoluta. Há senadores e deputados republicanos que não estão 100% alinhados com Trump, o que ficou demonstrado nas sabatinas dos nomeados para os gabinetes (ministérios dos EUA) nos últimos dias. Peter Hegseth, indicado para o Departamento de Defesa e muito criticado pela falta de experiência, recebeu 2 votos negativos de republicanos, num placar que ficou 50/50. Só conseguiu ser aprovado porque o novo Vice-Presidente dos EUA (JD Vance) é também o Presidente do Senado e tem o voto de minerva.
Do ponto de vista do federalismo norte-americano, tudo fica ainda mais complexo. Trump terá de lidar com os 50 estados que compõem a federação dos EUA. Dos quais, 23 são governados por Democratas e outros 27 por Republicanos. Só a Califórnia (um estado bastante Democrata) representa cerca de 15% de todo o PIB dos EUA e possui uma influência política gigantesca. Para que uma emenda a constituição seja aprovada, é preciso 2/3 de todo o Congresso Nacional mais a ratificação de 38 legislaturas de 38 estados. Trump não irá, de forma alguma, conseguir mudar a Constituição para seu benefício. Sem falar da resistência que receberá dos estados Democratas e, possivelmente, de alguns Republicanos.
Além disso, os EUA vive uma eleição de dois em dois anos. Em 2026, haverá eleições legislativas que irão renovar toda a Câmara dos Deputados (os mandatos são de 2 anos, apenas), e 1/3 do Senado (os senadores possuem mandatos de 6 anos e os eleitos em 2020 ficarão disponíveis em 2026).
Portanto, o legado que Trump irá deixar do ponto de vista institucional é o de maior resiliência do sistema americano diante de um presidente populista. As instituições irão permanecer firmes, as Forças Armadas, que funcionam pela tradição do apartidarismo e da lealdade a Constituição, irá permanecer isenta e defensora dos pilares da democracia norte-americana. Trump governará por quatro anos e irá sair, passando o bastão para o seu sucessor, seja ele Republicano ou Democrata. Nada irá impedir este cronograma de acontecer, e ter esta compreensão é fundamental para entender as demais consequências.
b). O legado sociopolítico de Trump nos EUA e no mundo:
Um dos principais legados de Trump será o social e o político. Com uma plataforma ultraconservadora, que pode ser descrita como ‘antirrevolucionária’ ou até mesmo ‘saudosista’, teremos uma maior tensão entre valores conservadores e progressistas até o final de seu mandato e além. Na minha avaliação, disso pode surgir três vertentes de pensamento. Um que busca manter e exacerbar os pilares conservadores da Era Trump (que eu chamo de alt-right), outro que visa romper com ele e retornar a uma visão mais progressista de mundo (wokismo), e uma terceira (creio, a majoritária), que buscará um equilíbrio entre ambas as visões (pós-alt-right e pós-wokismo).
Isso acontece porque o extremismo de Trump força que as esquerdas revisitem o wokismo e busquem moderar o seu discurso, para que sejam percebidas como mais aceitáveis pelo público de centro e mais conservador. Do mesmo modo, o extremismo trumpista força com que tradicionalistas busquem os direitos civis como forma de moderar o seu discurso diante dos públicos mais centristas. Este novo arranjo também será espelhado na seara político-partidária.
Haverá três tipos de políticos nos EUA. Entre Republicanos, teremos os trumpistas (ou MAGA republicans), que visarão manter o discurso e o legado do presidente Trump. Penso em figuras como JD Vance (atual Vice-Presidente) ou Kristi Noem, atual Secretária de Segurança Interna de Trump. Teremos também os moderados (que procurarão se distanciar do perfil trumpista e puxar o espetro para o meio, como alternativa). Entre os nomes que podem liderar esta ala imagino Marco Rubio (atual Secretário de Estado de Trump), Nikki Haley (ex-embaixadora dos EUA na ONU no Trump I) e o Senador Tim Scott. E, finalmente, haverá os Republicanos inovadores, que tentarão emplacar novas políticas (talvez mais libertárias, talvez mais globalistas), afetando assim o jogo interno do partido. Entre os nomes que representam esta ala está o de Vivek Ramaswamy.
Entre os Democratas, haverá também três alas fundamentais. Os wokistas, representados por figuras como Alexandra Ocasio-Cortez e Elizabeth Warren, que manterão a bandeira mais à esquerda do Partido Democrata. No centro moderado, figuras como Gretchen Whitmer e Josh Shapiro são as grandes promessas do partido, podendo trazer os Democratas para um discurso mais afeito aos interesses dos eleitores de Trump sem perder de vista os valores progressistas do partido. E, finalmente, na ala inovadora, podemos ter uma nova proposta que fuja tanto ao wokismo quanto ao centrismo, talvez num foco mais ecologista e tecnológico, representado por figuras como Andrew Yang e Beto O'Rourke.
Portanto, o legado de Trump será o de uma nova clivagem ideológica em ambos os partidos, forçando a discussão pública para um novo entendimento. Muito como aconteceu na era pós-Reagan ou pós-Franklin Roosevelt, os partidos terão de se adaptar ao discurso trumpista e rearranjar-se dentro dos sucessos ou insucessos da gestão Trump. Algo que será espelhado também no cenário sociopolítico do mundo. Muitos países, em especial na América Latina e Europa, olham para os movimentos ideológicos dos EUA como fonte de inspiração para seus próprios movimentos e alternativas. A era Pós-Trump será um terreno fértil para o realinhamento das direitas e esquerdas em todos os cantos, inclusive no Brasil.
c). O legado econômico de Trump:
Como vimos anteriormente, Donald Trump é um nacionalista protecionista que acredita que o segredo do sucesso é vencer a competição de forma agressiva. Toda a lógica de sua administração parte do pressuposto de que apenas os interesses dos EUA devem ser atendidos, sem oferecer cenários de ganho-ganho ou de cooperação com outros países. Trump não vê problema na competição interna, porém, compreendendo que isso fomenta o mercado e dinamiza os investimentos. Mas frente a potências e investimentos externos, seu objetivo é o domínio.
Parte de sua política inclui a diversificação das reservas internacionais dos EUA (incluindo criptomoedas) e o fortalecimento do Dólar como moeda de reserva internacional. Isso tende a ser alcançado pelo sucesso que terá em grande parte de seus intentos económicos. Seu projeto protecionista pode dar certo porque os EUA tem uma malha industrial e de alto valor-agregado bastante robusta. Sendo já líderes em diversos setores, desde as commodities até a tecnologia de ponta, e considerando ainda que os EUA tem um boom demográfico a seu favor, dificilmente o país não terá crescimento económico e fortalecimento de sua moeda. O que garante, neste sentido, um legado bem positivo da Era Trump. A não ser que surja uma crise inesperada (como a pandemia), a tendência é de sucesso económico.
Os anos Biden, inclusive, serão considerados parte integrante do realinhamento económico dos EUA, pois as políticas protecionistas e nacionalistas iniciadas com Trump I se mantiveram com Biden e se fortalecem com Trump II, como se fosse um grande contínuo. Tal tendência deve permanecer nos governos futuros, sejam Republicanos ou Democratas, embora com algumas nuances mais ecológicas se Democrata ou menos, se Republicano. O grande legado de Trump inclui, também, a guerra comercial com a China e uma nova geopolítica baseada na Nova Guerra Fria e no isolacionismo norte-americano.
d). O legado geopolítico de Trump:
Como vimos anteriormente, Trump é um isolacionista com algum realismo no campo internacional. Ele não rejeita totalmente a ideia de negociar com outros países. Pelo contrário, ele quer fazer acordos inteligentes para os EUA. A única diferença é que Trump não acredita em organismos multilaterais para este intento. Logo, suas relações são baseadas nos interesses nacionais, país por país. Ele não é contra a OTAN, mas acredita que é apenas justo que os demais países contribuam tanto quanto os EUA para o orçamento da aliança. Ele não é contra a Ucrânia, mas não vê sentido em gastar tanto dinheiro numa guerra ‘estúpida’. Ele não é contra os países muçulmanos, mas coloca Israel como aliado preferencial devido a uma questão ideológica e estratégica.
O certo na geopolítica de Trump, no entanto, é a fecundação permanente da Nova Guerra Fria (também conhecida como Segunda Guerra Fria). A guerra comercial com a China é apenas um elemento deste processo, que se desenvolve do ponto de vista da competição militar e territorial. Os BRICS, sendo parte integrante de um projeto russo-chinês, entra no radar de Trump no momento em que ameaçam os interesses dos EUA. Se outras potências demonstrarem interesse em avançar no seu expansionismo territorial, Trump fará o mesmo para equilibrar a competição. Ou seja, ele é isolacionista até o momento em que isso signifique enriquecer os EUA e fortalecer a unipolaridade do país no mundo. Se, no entanto, Trump perceber que a ação concreta é um elemento necessário da negociação com outras potências, é isso que ele fará. O que o torna um pouco previsível, mas também heterodoxo.
Ainda é cedo para afirmar qual será o legado concreto de Trump no cenário internacional, visto que a dinâmica de sua relação com a China, a Rússia, a OTAN e os países vizinhos do continente americano estão por fazer. No entanto, podemos afirmar com certeza que com Trump iniciou-se um processo de retração do sistema americano contra a globalização. Hoje, a estratégia nacional dos EUA vê a globalização como uma ameaça a sua hegemonia, visto que é esta globalização que tem dado a China, Índia e outros países a oportunidade de desenvolvimento e de ameaça do poderio norte-americano. A estratégia de retração visa endurecer a resiliência dos EUA internamente, e enfraquecer os países que dependem do comércio internacional e do sistema americano.
Trump não vê problema em um mundo mais caótico sem a liderança intervencionista dos EUA, pois ele acredita que no final, com os EUA forte e autónomo, todos dependerão de alguma forma dos EUA para alcançar seus objetivos. Este é, provavelmente, o seu grande legado. Uma Segunda Guerra Fria que gerará um mundo mais caótico, mas também um mundo mais dependente da presença dos EUA para garantir a paz e para garantir o seu comércio.
PARTE V
Reflexões Finais
Apesar dos pontos sinalados anteriormente, em especial nas consequências esperadas, é pertinente notar que a Era Trump também traz alguns perigos e contrassensos para os objetivos do presidente. Uma delas é na questão institucional.
Embora as instituições norte-americanas sejam sólidas e tendem a sobreviver quase incólumes ao segundo mandato do Republicano, isso não quer dizer que mudanças incrementais não aconteçam. O fato da Suprema Corte americana ter uma maioria conservadora fez com que Trump conseguisse reverter Roe v. Wade, histórica precedência da corte que liberava o aborto no território norte-americano. Pelo modelo atual, após a reversão, cada estado é responsável por sua política reprodutiva, o que afeta os direitos de muitas mulheres, inclusive não-abortistas, de conseguir o tratamento adequado. Além disso, tensões entre estados republicanos e democratas pode enfraquecer o federalismo norte-americano, exigindo que o Congresso e a Suprema Corte ajam de forma mais cuidadosa do que de costume.
No cenário externo, a postura anti multilatelarismo de Trump pode enfraquecer a OTAN, e jogar os tradicionais aliados europeus a negociações com a Rússia e China bilateralmente, o que diluiria o poder dos EUA de impactar o cenário global. O tratamento que os EUA dá a seus aliados é grande precedente para a forma como futuros potenciais aliados verão os EUA. Se Trump negligenciar esta relação, ele pode atrapalhar por muito tempo a competência diplomática dos EUA e sua liderança internacional. O primeiro teste será a resolução do conflito na Ucrânia. Todos os olhos devem estar voltados a isso.
Na questão económica, embora boa parte de seu projeto possa vir a ser bem-sucedido no curto prazo, não significa que será sem consequências negativas no longo prazo. A tendência da dívida norte-americana é de crescer ainda mais, visto que não há nenhuma menção de Trump a qualquer rigor fiscal ou orçamentário (ele sinaliza limpar a máquina pública com o DOGE e arrecadar mais com as tarifas, mas ao mesmo tempo promete deduções fiscais, o que pode impactar o orçamento federal). Seu objetivo parece ser o gasto público indiscriminado para o desenvolvimento da economia norte-americana frente a competição com a China, ignorando o impacto financeiro futuro. Gerações ao longo do século XXI podem vir a ser afetadas por esta escolha de política pública.
Outro elemento é a sua idade, citado no começo do artigo. Como dito, o fato de estar em idade avançada pode tirar de Trump alguma paciência com a morosidade burocrática e com as querelas políticas e jurídicas. A frustração com medidas anti-imigração, que encontrem barreiras legais, pode leva-lo a um discurso mais tortuoso e polarizador, além da falta de uma lógica nas suas ações. No próprio dia 20 de Janeiro, ao perdoar 1.500 condenados pela invasão do Capitólio ocorrido no dia 6 de Janeiro de 2021, quando perguntado sobre condenados violentos que foram perdoados Trump não soube o que responder e teve grande dificuldade de sair da saia justa. Este e outros exemplos (como a falsa acusação de imigrantes comendo cães e gatos em cidades americanas, no debate presidencial contra Kamala Harris), faz com que sua sanidade venha a ser questionada. Afinal, agora ele é o presidente mais idoso da história dos EUA.
Fato é que o segundo mandato de Donald Trump será um período histórico único e definidor, que trará impactos profundos aos EUA e ao mundo durante e depois de seu período. Dependendo do sucesso de seu mandato e do quão acidentado ele venha a ser, podemos esperar em 2028 uma eleição menos polarizada e mais voltada a ‘normalidade’ Republicana e Democrata. Afinal, a grande figura polarizadora é Trump, e em 2028 (pela primeira vez desde 2016), não teremos Trump como a figura central da política americana. Esta mudança, por si só, é uma grande mudança.
Se Lula (ou o próximo presidente a tomar posse em 2027) for inteligente, saberá conduzir as relações com Trump usando das armas que ele próprio oferece. Não precisamos nos alinhar 100% com os EUA em tudo, mas se nos alinharmos em algumas coisas, podemos angariar maior simpatia do governo americano e, portanto, melhores relações também. Se Lula, porém, adotar uma postura antagônica a Trump com receio de que o trumpismo ganhe tração com o bolsonarismo em 2026, possivelmente será rechaçado nas relações bilaterais e isso pode atrapalhar muito as relações comerciais e diplomáticas que o Brasil nutre com os EUA desde muito tempo. O Brasil precisa mostrar-se líder na América do Sul, caso contrário poderá também sofrer intervenções norte-americanas que não são de nosso interesse.
Não acredito em conflitos abertos, militares, durante o governo Trump. Seu objetivo não é a guerra, mas a negociação. Guerras gastam muito dinheiro e são impopulares. Trump não será um presidente intervencionista. Mas a sua retórica pode levar nações a agirem de forma impensada, ou a precipitar-se devido as restrições económicas e comerciais. Se isso acontecer, podemos ter um mundo mais caótico nos próximos quatro anos, que sentirá os efeitos da retração política dos EUA do cenário global. Neste contexto, tudo o que nos resta é observar, nos adaptar e arrumar a casa. Sem arrumar a nossa casa, o Brasil tende a ser renegado ao esquecimento histórico e a irrelevância geopolítica (pois ainda que adotemos o multilateralismo, estaremos nos acoplando quase que inteiramente a China).
Donald Trump representa a década de 2020 e ao final de seu mandato, terá impactado os últimos 15 anos da política internacional e norte-americana. O impacto do trumpismo, seja cultural, económico ou geopolítico, será sentido além da década e pelo menos até 2050. Portanto, este texto não é definitivo e tampouco singular. Outras análises futuras serão necessárias para compreender a dimensão de Trump na história e nas nossas vidas. Seu discurso, seu 'modus operandi', suas alianças e hostilidades, impactarão o Brasil frontalmente. O fim da globalização como a conhecemos, também.
Que nos mantenhamos vigilantes!
Obrigado pela leitura,
Sasha van Lammeren
Jornalista, Mestre em Comunicação Política, Doutorando em Ciência Política e Especialista em política norte-americana e brasileira.

Comentários